{"id":18479,"date":"2011-01-19T09:48:00","date_gmt":"2011-01-19T09:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18479"},"modified":"2011-01-19T09:48:00","modified_gmt":"2011-01-19T09:48:00","slug":"bento-xvi-preocupa-se-em-casar-a-fe-com-a-razao-aio-encontro-me-com-ele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/bento-xvi-preocupa-se-em-casar-a-fe-com-a-razao-aio-encontro-me-com-ele\/","title":{"rendered":"&#8220;Bento XVI preocupa-se em casar a f\u00e9 com a raz\u00e3o; a\u00edo encontro-me com ele&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Manuel Fernandes integrou a equipa inicial do di\u00e1rio \u201cP\u00fablico\u201d, em 1990, depois de ter passado pelo \u201cExpresso\u201d. No \u201cP\u00fablico\u201d, foi subdirector, director-adjunto e director. Neste \u00faltimo cargo esteve entre 1998 e 2009. Mant\u00e9m-se como colaborador, assinando uma p\u00e1gina que sai \u00e0 sexta-feira. \u00c9 professor de comunica\u00e7\u00e3o social e tem v\u00e1rios livros publicados, destacando-se a obra em co-autoria com D. Manuel Clemente, \u201cDi\u00e1logo em tempo de escombros. Uma conversa sobre Portugal, o Mundo e a Igreja Cat\u00f3lica\u201d, (edi\u00e7\u00e3o Pedra da Lua). Na conversa promovida pelo Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas, do dia 5 de Janeiro, no Centro Universit\u00e1rio, declarou-se \u201ccat\u00f3lico sem f\u00e9\u201d. Rev\u00ea-se nas posi\u00e7\u00f5es da Igreja, mas sente-se sem a \u201cilumina\u00e7\u00e3o\u201d da f\u00e9. Resumo das suas ideias por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>Cat\u00f3lico sem f\u00e9<\/p>\n<p>H\u00e1 dias utilizei pela primeira vez esta express\u00e3o para me autodefinir: cat\u00f3lico sem f\u00e9. O habitual \u00e9 ver pessoas que t\u00eam f\u00e9, mas n\u00e3o s\u00e3o cat\u00f3licas.<\/p>\n<p>Como a maioria das pessoas em Portugal, fui educado na cultura cat\u00f3lica. Afastei-me da Igreja, mas fui tomando consci\u00eancia de que alguns dos momentos mais importantes do discernimento da minha vida est\u00e3o associados \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da doutrina crist\u00e3 e \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com os espa\u00e7os p\u00fablicos, sociedade e estados.<\/p>\n<p>Concordo com muitas das posi\u00e7\u00f5es da Igreja e de Bento XVI, menos quando se trata da ilumina\u00e7\u00e3o da f\u00e9. Uma pessoa pode decidir que n\u00e3o vai ter f\u00e9, mas decidir que vai ter f\u00e9 \u00e9 mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Poder independente<\/p>\n<p>Apesar de todos os aspectos negativos da hist\u00f3ria da Igreja, dos quais n\u00e3o nos devemos esquecer \u2013 a Inquisi\u00e7\u00e3o ou o papado dos B\u00f3rgia, por exemplo \u2013, de todas as grandes religi\u00f5es, a de Roma foi a \u00fanica que criou um poder n\u00e3o coincidente. H\u00e1 independ\u00eancia de poderes entre o temporal e o religioso, o que \u00e9 determinante para a configura\u00e7\u00e3o da sociedade e da liberdade.<\/p>\n<p>Presen\u00e7a p\u00fablica da religi\u00e3o<\/p>\n<p>Em Portugal, estamos muito marcados pelo iluminismo franc\u00eas, que \u00e9 um iluminismo anti-religioso, em contraste com o escoc\u00eas e o dos \u201cfounding fathers\u201d[pais fundadores] dos EUA. Para estes, a religi\u00e3o fazia parte da realidade social, pelo que aceitavam a presen\u00e7a da religi\u00e3o no espa\u00e7o p\u00fablico, apesar de haver separa\u00e7\u00e3o Estado\/ Igrejas, e promoviam a liberdade religiosa.<\/p>\n<p>O facto de as igrejas terem o poder que t\u00eam n\u00e3o constituiria problema se houvesse um laicismo positivo, uma laicidade n\u00e3o agressiva, como tem defendido D. Jos\u00e9 Policarpo. <\/p>\n<p>No p\u00f3s-25 de Abril n\u00e3o houve uma reedi\u00e7\u00e3o dos problemas da I Rep\u00fablica. Mas na actualidade a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 descontra\u00edda. H\u00e1 preconceitos em rela\u00e7\u00e3o aos cat\u00f3licos praticantes. H\u00e1 activistas relativamente presentes nos meios culturais e medi\u00e1ticos que n\u00e3o est\u00e3o muito longe de Afonso Costa [l\u00edder anticat\u00f3lico da I Rep\u00fablica]. Isso viu-se, por exemplo, nas cr\u00edticas a Jorge Sampaio, quando, sendo Presidente da Rep\u00fablica, foi receber Jo\u00e3o Paulo II a F\u00e1tima. <\/p>\n<p>Valores para al\u00e9m das leis<\/p>\n<p>Encontramo-nos actualmente num tempo em que podemos ser mais felizes porque mais livres, mas tamb\u00e9m mais atemorizados, onde \u00e9 poss\u00edvel perder o norte. N\u00e3o precisamos somente de regras, mas tamb\u00e9m de valores. N\u00e3o de leis, mas da \u00e9tica por detr\u00e1s das leis. Nem tudo se resolve com novas leis, mais al\u00edneas, novos enquadramentos legais. Precisamos antes de boas rela\u00e7\u00f5es de vizinhan\u00e7a e de fam\u00edlia, sem estar tudo estipulado.<\/p>\n<p>Bento XVI<\/p>\n<p>A quando da elei\u00e7\u00e3o do novo Papa, achei que a homilia [do cardeal Ratzinger] antes do conclave era particularmente forte. Com aquele caderno de encargos e pontos de preocupa\u00e7\u00e3o\u2026 N\u00e3o fiquei muito surpreendido com a evolu\u00e7\u00e3o do papado. O Papa sabe onde passa a linha entre o que \u00e9 toler\u00e1vel e o que n\u00e3o \u00e9. Um cego n\u00e3o se aproxima. Ele, porque vem da Filosofia e da Teologia, \u00e9 natural que v\u00e1 mais longe. Muitas das suas interven\u00e7\u00f5es t\u00eam de enfrentar o preconceito.<\/p>\n<p>Ponto de encontro<\/p>\n<p>Bento XVI preocupa-se em casar a f\u00e9 com a raz\u00e3o. Eu, que n\u00e3o tenho f\u00e9, posso encontrar-me com ele nesse ponto. N\u00e3o adiro integralmente, mas compreendo o sentido das suas ac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pelo poder de escolha na educa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>H\u00e1 uma linha contradit\u00f3ria na educa\u00e7\u00e3o. Na Constitui\u00e7\u00e3o portuguesa, fala-se no princ\u00edpio da liberdade de aprender e de ensinar, mas depois o Estado quer criar uma rede para todos. Eu defendo a \u00e9tica da liberdade: escolas diferentes, mais aut\u00f3nomas, com diversos projectos educativos. A l\u00f3gica da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 perversa. Na actual \u201cchatice\u201d com o ensino privado [cortes no financiamento], os sindicatos est\u00e3o calados. O ensino privado apresenta melhores resultados, tem direc\u00e7\u00f5es mais fortes, mais estabilidade e \u00e9 mais barato. Se os pais t\u00eam de escolher uma escola, preocupam-se. Se entregam o filho numa escola p\u00fablica, que n\u00e3o escolheram, sentem-se mais impotentes.<\/p>\n<p>Igreja e comunica\u00e7\u00e3o social<\/p>\n<p>Igreja maltratada ou distorcida na comunica\u00e7\u00e3o social? Quase tudo na comunica\u00e7\u00e3o social ou est\u00e1 sob os holofotes ou est\u00e1 na penumbra. Quando o Papa veio a Portugal, falou-se muito dele e da Igreja. A seguir, o assunto desapareceu. \u00c9 verdade que a comunica\u00e7\u00e3o vive de \u201csoundbytes\u201d [frases sonantes] e a pensar no espect\u00e1culo. Mas h\u00e1 outras dificuldades: d\u00e9fice de forma\u00e7\u00e3o dos jornalistas em cursos de cultura geral, que por isso avaliam as quest\u00f5es pela superf\u00edcie e pela apar\u00eancia, tanto quando se l\u00ea Bento XVI como quando se trata do BPN; os tempos de reac\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito r\u00e1pidos; h\u00e1 press\u00f5es de fora da comunica\u00e7\u00e3o social; al\u00e9m de que as redac\u00e7\u00f5es s\u00e3o locais onde o laicismo negativo \u00e9 mais forte.<\/p>\n<p>O problema da dificuldade da Igreja na rela\u00e7\u00e3o com a comunica\u00e7\u00e3o social n\u00e3o \u00e9 especificamente portugu\u00eas. A viagem do Papa a \u00c1frica foi abafada por uma frase sobre o preservativo dita no avi\u00e3o, quando quem est\u00e1 no terreno sabe que a Igreja \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o mais eficaz no combate \u00e0 sida. H\u00e1 estere\u00f3tipos e preconceitos e tudo o resto morre. \u00c9 um problema mais geral dos mecanismos de informa\u00e7\u00e3o que temos.<\/p>\n<p>Novos meios<\/p>\n<p>Os meios tradicionais j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam o monop\u00f3lio da informa\u00e7\u00e3o. Os jornalistas continuam a ser necess\u00e1rios, e ainda t\u00eam poder, mas n\u00e3o t\u00eam o monop\u00f3lio. H\u00e1 o twitter, o facebook, as redes. \u00c9 a\u00ed que as pessoas est\u00e3o. Sejam desassombrados. Difundam as vossas ideias. Falem dentro e fora da Igreja. N\u00e3o tenham medo de falar. Se errarem, o mal pode ser corrigido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Manuel Fernandes integrou a equipa inicial do di\u00e1rio \u201cP\u00fablico\u201d, em 1990, depois de ter passado pelo \u201cExpresso\u201d. No \u201cP\u00fablico\u201d, foi subdirector, director-adjunto e director. Neste \u00faltimo cargo esteve entre 1998 e 2009. 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