{"id":1851,"date":"2010-07-07T10:10:00","date_gmt":"2010-07-07T10:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1851"},"modified":"2010-07-07T10:10:00","modified_gmt":"2010-07-07T10:10:00","slug":"anunciar-jesus-cristo-passa-muito-pela-presenca-silenciosa-do-padre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/anunciar-jesus-cristo-passa-muito-pela-presenca-silenciosa-do-padre\/","title":{"rendered":"&#8220;Anunciar Jesus Cristo passa muito pela presen\u00e7a silenciosa do padre&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Carlos da Silva Lopes, 27 anos, \u00e9 natural de Vilarinho de S\u00e3o Roque, lugar de Ribeira de Fr\u00e1guas, no concelho de Albergaria-a-Velha. No pr\u00f3ximo domingo, ser\u00e1 ordenado padre. A celebra\u00e7\u00e3o acontece na S\u00e9 de Aveiro, a partir das 16h. No dia 18, preside \u00e0 Missa Nova na igreja da par\u00f3quia de Ribeira de Fr\u00e1guas. Nesta entrevista, revela o seu percurso vocacional e as suas expectativas em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; A poucos dias de ser ordenado padre, quais s\u00e3o as suas expectativas?<\/p>\n<p>JOS\u00c9 CARLOS DA SILVA LOPES &#8211; Sinto que a ordena\u00e7\u00e3o ser\u00e1 algo de novo mas principalmente a continua\u00e7\u00e3o de uma caminhada. Gosto de ir conhecendo as coisas aos poucos. Ser ordenado padre \u00e9 algo que fui pensando, reflectindo, vendo em alguns dos meus colegas. O tempo do semin\u00e1rio levou-me a n\u00e3o querer delinear um percurso completo e fechado.<\/p>\n<p>Est\u00e1 aberto ao que o futuro trouxer? Vai aonde o Esp\u00edrito de Deus o levar?<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 isso que espero fazer.<\/p>\n<p>Como surgiu a sua voca\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>O grande ponto de refer\u00eancia \u00e9 o convite que o P.e Francisco Melo [ent\u00e3o p\u00e1roco de Ribeira de Fr\u00e1guas e Vale Maior; hoje p\u00e1roco da Gafanha da Nazar\u00e9 e da Encarna\u00e7\u00e3o], fez a mim e a outro ac\u00f3lito, no final de uma Eucaristia em Vilarinho de S\u00e3o Roque, para participarmos num encontro do Pr\u00e9-Semin\u00e1rio. Certamente havia um contexto familiar anterior, mas esse momento \u00e9 o que guardo como refer\u00eancia. Andava no 7.\u00ba ano. Entrei para o Semin\u00e1rio de Aveiro, com aulas no Col\u00e9gio de Calv\u00e3o, no 10.\u00ba ano. Depois fiz o proped\u00eautico em Leiria e o curso superior no Semin\u00e1rio Maior de Coimbra.<\/p>\n<p>Tive sempre o apoio da minha fam\u00edlia, embora s\u00f3 lhes dissesse que ia para o semin\u00e1rio no dia de me matricular em Calv\u00e3o. Coisas de mi\u00fado. Certamente eles j\u00e1 sabiam, pois o que o P.e Francisco ia fazendo por mim e pelos outros pr\u00e9-seminaristas da altura indicava o caminho que ir\u00edamos seguir. T\u00ednhamos explica\u00e7\u00f5es de Portugu\u00eas e \u00e9ramos acompanhados pelo P.e Nestor [respons\u00e1vel do Pr\u00e9-Semin\u00e1rio].<\/p>\n<p>Num percurso vocacional s\u00e3o sempre importantes os apoios pessoais. Quais foram os seus?<\/p>\n<p>O P.e Francisco foi de uma amizade tal e um acompanhamento tal, que muito lhe devo. Esteve sempre ao lado de muitos seminaristas. Das par\u00f3quias dele, \u00e9ramos quatro. A minha fam\u00edlia tamb\u00e9m me apoiou. O meu pai \u00e9 madeireiro, ou explorador florestal, como se diz, e a minha m\u00e3e \u00e9 dom\u00e9stica. Devo tamb\u00e9m acentuar muito os padres dos semin\u00e1rios, os padres Lu\u00eds Barbosa, Virg\u00edlio e Francisco Martins, de Aveiro, mas tamb\u00e9m os de Leiria e Coimbra.<\/p>\n<p>Do tempo de Semin\u00e1rio Maior e da forma\u00e7\u00e3o em Teologia, seis anos, o que real\u00e7a?<\/p>\n<p>Foi um tempo duro e bom. Se n\u00e3o estamos conscientes do que estamos a fazer, vale pouco. Em Coimbra, por haver cinco dioceses na mesma casa \u2013 Aveiro, Leiria-F\u00e1tima, Coimbra, Portalegre e Santiago de Cabo Verde \u2013 pude conviver com o futuro presbit\u00e9rio de v\u00e1rias dioceses. Isso ajudou a crescer de forma diferente, a ver a realidade dos outros. A igreja n\u00e3o \u00e9 feita de um s\u00f3 feitio, mas de grande diversidade.<\/p>\n<p>Houve \u00e1reas da Teologia que representassem mais para si? <\/p>\n<p>O \u00e2mbito da B\u00edblia mexeu comigo. \u00c9 algo que gostava de aprofundar. Tamb\u00e9m gostei de disciplinas cl\u00e1ssicas, como o Grego, que muito me cativou desde o secund\u00e1rio e que \u00e9 importante para o estudo da B\u00edblia.<\/p>\n<p>Tem algum livro da B\u00edblia preferido?<\/p>\n<p>Os Evangelhos. Livro espec\u00edfico n\u00e3o, mas houve um trabalho que fiz sobre o evangelho de S. Jo\u00e3o, a an\u00e1lise da trai\u00e7\u00e3o de Judas, que me deu muito gosto. A exegese b\u00edblica faz-me ver a import\u00e2ncia da B\u00edblia na caminhada. O texto b\u00edblico \u00e9 sempre muito mais profundo do que parece \u00e0 primeira vista.<\/p>\n<p>Agora est\u00e1 a fazer um trabalho final. Em que consiste?<\/p>\n<p>O trabalho final corresponde ao mestrado, segundo o Acordo de Bolonha. Estou a estudar D. Jo\u00e3o Evangelista, bispo que restaurou a Diocese de Aveiro. O que me levou a optar pelo tema foi desejar conhecer a Diocese a n\u00edvel hist\u00f3rico. \u00c9 importante em termos de caminhada, j\u00e1 que vou integrar este presbit\u00e9rio. A vida de D. Jo\u00e3o Evangelista \u00e9 interessante mesmo antes de ser bispo. Desde muito cedo, houve pessoas que foram ter com ele no sentido de restaurar a Diocese. Ele era um homem ponderado e dizia que ainda n\u00e3o era a devida altura. Passados uns anos, disse que sim a essa proposta e entregou-se totalmente \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o da diocese. Depois da restaura\u00e7\u00e3o, teve uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande pelo Semin\u00e1rio, sobre o qual escreveu a sua primeira nota pastoral. Como havia gente que provinha de tr\u00eas dioceses, preocupou-se muito com a uni\u00e3o entre todas as pessoas. O primeiro s\u00ednodo diocesano deve ser visto nessa linha. <\/p>\n<p>Da sua forma\u00e7\u00e3o fez parte o trabalho pastoral enquanto seminarista. Por onde passou?<\/p>\n<p>Estive um ano com o P.e Ab\u00edlio, em S. Jacinto e na Torreira, um ano com o P.e Querubim, na unidade pastoral de Albergaria-a-Velha, dois anos na Pastoral Juvenil e Vocacional e na par\u00f3quia da Vera Cruz, com os padres Barnab\u00e9 e Rocha. No \u00faltimo ano, acompanhei o Sr. Bispo.<\/p>\n<p>Isso permitiu-lhe conhe-cer a Diocese toda, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Sim, quase toda. O facto de conhecer a Diocese \u00e9 importante numa perspectiva futura. D\u00e1-nos uma vis\u00e3o global. Ter andado com o D. Ant\u00f3nio Francisco ajudou-me tamb\u00e9m a aproximar de v\u00e1rios padres. \u00c9 algo a real\u00e7ar.<\/p>\n<p>Por falar em acompanhar, houve um dia, uma hora, melhor, em que acompanhou Bento XVI. As imagens passaram em todo o mundo. Trocou algumas palavras com o Papa?<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o falamos. Acompanhei-o na celebra\u00e7\u00e3o das V\u00e9speras do dia 12 de Maio, em F\u00e1tima.<\/p>\n<p>Se o Papa tivesse falado consigo, tinha algo pensado para lhe dizer?<\/p>\n<p>N\u00e3o. Estava mais \u00e0 espera de acolher o que me pudesse dizer sobre o sacerd\u00f3cio, sobre o que espera de um padre para a Igreja. Foram momentos de algum nervosismo. N\u00e3o pensava em dizer nada. Pensava mais em viver aquele momento com serenidade, estando do lado direito do sucessor de Pedro, a quem est\u00e1 confiada neste momento a Igreja. Procurei viver o momento em serenidade.<\/p>\n<p>\u00c9 ordenado com toda a disponibilidade, mas h\u00e1 algum trabalho pastoral que goste especialmente de fazer?<\/p>\n<p>Trabalhar em par\u00f3quia \u00e9 o que todos ansi\u00e1mos. A mim, custa-me estar atr\u00e1s de uma secret\u00e1ria. Penso que nesta fase \u00e9 importante o trabalho do dia-a-dia de uma par\u00f3quia.<\/p>\n<p>Vai ser ordenado num tempo em que a Igreja est\u00e1 nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social pelos piores motivos. Como v\u00ea a sua entrega nesse momento presente? Tem medo ou confian\u00e7a?<\/p>\n<p>Confian\u00e7a. H\u00e1 alguns receios que eu penso que s\u00e3o naturais quanto mais pr\u00f3ximo estou de tomada de decis\u00e3o. Mas eu tenho confian\u00e7a no futuro.<\/p>\n<p>No semin\u00e1rio fala-se da situa\u00e7\u00e3o da Igreja?<\/p>\n<p>Sim. Fal\u00e1vamos da pedofilia e temos consci\u00eancia de que \u00e9 grave. Mas n\u00e3o me marca negativamente. H\u00e1 alturas em que parece que \u00e9 preciso deitar abaixo uma institui\u00e7\u00e3o. Agora, a institui\u00e7\u00e3o a abater \u00e9 a Igreja. Quanto a mim, eu tenho \u00e9 de agir correctamente, seja em que \u00e1rea for.<\/p>\n<p>Como v\u00ea o padre e a sua miss\u00e3o na sociedade actual?<\/p>\n<p>O padre, para al\u00e9m de ser aquele que administra sacramentos, tem de ser algu\u00e9m pr\u00f3ximo das pessoas. Em muitas situa\u00e7\u00f5es, o padre \u00e9 o \u00fanico que est\u00e1 presente. Anunciar Jesus Cristo passa muito pela presen\u00e7a silenciosa do padre, e isso continua a ser importante nos dias de hoje. As pessoas precisam de Deus e a \u00e0s vezes h\u00e1 um procurar sem se saber o que se que procura. Procuram Deus e Jesus Cristo por caminhos n\u00e3o muito expl\u00edcitos.<\/p>\n<p>O que considera determinante para haver o despertar vocacional num jovem?<\/p>\n<p>A presen\u00e7a dos p\u00e1rocos \u00e9 fundamental. Senti isso comigo, mas julgo que \u00e9 assim com todos. O trabalho da Pastoral Juvenil e Vocacional \u00e9 uma parte importante mas tem de ser acompanhado pelos p\u00e1rocos, ainda que isto possa parecer um sobrecarregar os padres de trabalhos. Noutros tempos havia aquela preocupa\u00e7\u00e3o de cada padre deixar um sucessor. Perante tantas op\u00e7\u00f5es, se n\u00e3o houver o acompanhamento, ningu\u00e9m prop\u00f5e a op\u00e7\u00e3o sacerdotal.<\/p>\n<p>Para terminar, fale-nos dos seus gostos pessoais: desporto, leituras\u2026<\/p>\n<p>O desporto, enquanto pr\u00e1tica, tem andado muito esquecido. Quanto a clubes, vou acompanhando os jogos do Sporting. Tenho visto alguns jogos do mundial, mas s\u00f3 em parte. Livros, li h\u00e1 pouco \u201cA crian\u00e7a que n\u00e3o queria falar \u201d [de Torey Hayden, na Presen\u00e7a], sobre o trabalho de uma professora num bairro social. Um filme que me marcou, no contexto do nosso estudo sobre o que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de ajuda, foi \u201cPatch Adams\u201d [\u201cO amor \u00e9 contagioso\u201d, realizado por Tom Shadyac, em 1998, com Robin Williams no principal papel]. Mostra que o bom m\u00e9dico n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 que sabe de medicina, mas aquele que est\u00e1 presente, que faz rir, que estabelece uma rela\u00e7\u00e3o com as pessoas. <\/p>\n<p>Tem algum lema ou frase que o inspire?<\/p>\n<p>Para a ordena\u00e7\u00e3o escolhi a cita\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o em que Jesus pergunta a Pedro: \u201cPedro, tu amas-me?\u201d E Pedro responde: \u201cSenhor, sabes que gosto de ti\u201d. A persist\u00eancia do perguntar de Jesus, para mim, \u00e9 um apelo ao constante sim que \u00e9 preciso dizer ao longo da vida. \u00c9, no fundo, o apelo que Deus me faz, a um sim cada vez mais forte, mais radical.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Carlos da Silva Lopes, 27 anos, \u00e9 natural de Vilarinho de S\u00e3o Roque, lugar de Ribeira de Fr\u00e1guas, no concelho de Albergaria-a-Velha. No pr\u00f3ximo domingo, ser\u00e1 ordenado padre. A celebra\u00e7\u00e3o acontece na S\u00e9 de Aveiro, a partir das 16h. No dia 18, preside \u00e0 Missa Nova na igreja da par\u00f3quia de Ribeira de Fr\u00e1guas. 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