{"id":18561,"date":"2011-11-16T11:23:00","date_gmt":"2011-11-16T11:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18561"},"modified":"2011-11-16T11:23:00","modified_gmt":"2011-11-16T11:23:00","slug":"o-rei-que-vivia-de-pregoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-rei-que-vivia-de-pregoes\/","title":{"rendered":"O Rei que vivia de preg\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> \u00abCristo-Rei\u00bb: um t\u00edtulo que gera emo\u00e7\u00e3o \u2013 com o perigo de se ficar por embandeirar em festa em vez de meditar no que esta \u00abfesta\u00bb significa. Por outro lado, os pregoeiros do Pregoeiro nem sempre acertam nos objectivos do Mestre: n\u00e3o ter\u00e3o esquecido, muitos deles, a mansid\u00e3o firme e clara do seu clamor? E que as obras clamam mais do que as palavras?<\/p>\n<p>S. Paulo parece o grande inspirador da dimens\u00e3o c\u00f3smica do fen\u00f3meno Jesus Cristo. Com efeito, v\u00e1rias vezes contrap\u00f5e Jesus a Ad\u00e3o, a \u00abnova cria\u00e7\u00e3o\u00bb \u00e0 \u00abantiga cria\u00e7\u00e3o\u00bb. Paulo est\u00e1 privilegiadamente colocado, pela riqueza da forma\u00e7\u00e3o e da cultura em que nasceu, para inserir a figura de Cristo na din\u00e2mica da B\u00edblia judaica. Al\u00e9m disso, teve uma fort\u00edssima experi\u00eancia pessoal de Jesus \u2013 exactamente porque o perseguia, perseguindo duramente os primeiros disc\u00edpulos: Deus deixa-se encontrar na profundeza das inten\u00e7\u00f5es que procuram o que \u00e9 recto, e por isso o antigo entusiasmo de Paulo ganhou uma nova e espantosa for\u00e7a espiritual e f\u00edsica.<\/p>\n<p>O mal est\u00e1 em que muita gente n\u00e3o tem coragem para querer a verdade \u2013 pois esta frequentemente faz inimigos e desfaz jogadas de interesses ego\u00edstas.<\/p>\n<p>Por isso, Pio XI (Papa de 1922 a 1939) se empenhou tanto em dedicar um domingo para este preg\u00e3o: a humanidade fica desumana se n\u00e3o sabe estar atenta \u00e0 verdade e \u00e0 justi\u00e7a proclamadas por Jesus Cristo. <\/p>\n<p>Na liturgia deste ano, a 1.\u00aa leitura fala da antiqu\u00edssima acep\u00e7\u00e3o do Rei como Pastor.<\/p>\n<p>A 2.\u00aa leitura reflecte a cren\u00e7a espalhada nos primeiros crist\u00e3os de que a nova ordem apregoada por Cristo ia ser instaurada muito em breve. Mas o pensamento amadurecido de S. Paulo centra-se na dignidade de Cristo, com o poder de produzir uma vida nova, que nos enche as medidas para toda a eternidade (Fl3,10-11; Rm6,4): Cristo \u00e9 a for\u00e7a e a sabedoria de Deus (1 Cor1,25; 2 Cor4,6). <\/p>\n<p>Finalmente, no  evangelho, Jesus Cristo desempenha outra conota\u00e7\u00e3o central do Rei: a de juiz \u2013 mas tendo como crit\u00e9rio base o amor fraterno entre os Homens.<\/p>\n<p>No Oriente antigo, em termos gerais, o rei terreno representava o rei celeste, e na medida em que desempenhava devidamente esta fun\u00e7\u00e3o, pertencia de algum modo \u00e0 esfera divina, equiparado aos deuses. \u00c9 um rei salvador, que se deve deixar guiar pela for\u00e7a, bondade e justi\u00e7a divinas (as suas fun\u00e7\u00f5es, mesmo quando \u00e9 um chefe na paz ou na guerra, s\u00e3o de cariz eminentemente religioso).<\/p>\n<p>O Antigo Testamento sublinha a grande dist\u00e2ncia entre o rei terreno e o \u00fanico verdadeiro Rei (o radical indo-europeu \u00abreg\u00bb tem o sentido b\u00e1sico de mover em linha direita, donde \u00abrecto\u00bb e \u00abregra\u00bb), fonte de toda a sabedoria: \u00e9 Deus quem escolhe os governadores deste mundo \u2013 que lhe podem ser infi\u00e9is (tema frequente no Livro da Sabedoria). Mas como representante do verdadeiro Rei, pode-se dizer que vive em \u00abintimidade com Deus\u00bb \u2013 express\u00e3o que se aplica apropriadamente a Jesus ao ser reconhecido como o Messias. <\/p>\n<p>No Novo Testamento, o termo rei (grego \u00abbasileus\u00bb) \u00e9 aplicado 38 vezes a Jesus, sobretudo nas hist\u00f3rias da paix\u00e3o. A Cristo se aplicam notavelmente as conota\u00e7\u00f5es de Pastor e Juiz: \u00abapenas\u00bb convida a que o sigam \u2013 os Homens \u00e9 que se julgam a si mesmos, na medida em que querem ou n\u00e3o colaborar com Deus. As pessoas n\u00e3o pertencem ao reino levadas por milagres ou manifesta\u00e7\u00f5es de poder, mas sim porque aderem \u00e0 verdade proclamada (ideia forte no evangelho de Jo\u00e3o). <\/p>\n<p>O te\u00f3logo E. P. Sanders, em \u00abA verdadeira hist\u00f3ria de Jesus\u00bb, \u00e9 de opini\u00e3o que seria mais exacto dizer que Jesus se assumia como \u00abvice-rei\u00bb: \u00abDeus era rei, mas Jesus representava-o e iria represent\u00e1-lo no reino futuro\u00bb. <\/p>\n<p>Se somos partid\u00e1rios da justi\u00e7a, cumpre-nos, como escreveu Or\u00edgenes (s\u00e9c.III), fazer frutificar socialmente o reino de Deus que j\u00e1 est\u00e1 em n\u00f3s \u00abe que chegar\u00e1 \u00e0 sua plenitude atrav\u00e9s do nosso aperfei\u00e7oamento cont\u00ednuo\u00bb. <\/p>\n<p>Note-se bem que a mensagem do Novo Testamento mostra o Homem n\u00e3o como s\u00fabdito de um Deus \u201cimperador\u201d, mas como filho, que livremente colabora ou n\u00e3o no projecto do seu Pai \u2013 compete aos filhos discutir, procurar e decidir, mesmo se n\u00e3o eliminam a escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>Cristo \u00e9 \u00abo rei dos preg\u00f5es\u00bb: com ele, n\u00e3o vamos de limusina \u2013 quando muito em humildes burrinhas (como na entrada de Jesus em Jerusal\u00e9m \u2013 e se chegarem para todos&#8230;). O que \u00e9 certo, \u00e9 que avan\u00e7amos livremente, com o entusiamo e a esperan\u00e7a de quem pode confiar plenamente no Pregoeiro.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-18561","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18561","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18561"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18561\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18561"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18561"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18561"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}