{"id":18565,"date":"2011-11-16T11:27:00","date_gmt":"2011-11-16T11:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18565"},"modified":"2011-11-16T11:27:00","modified_gmt":"2011-11-16T11:27:00","slug":"o-maior-desafio-da-igreja-e-o-de-ser-desafio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-maior-desafio-da-igreja-e-o-de-ser-desafio\/","title":{"rendered":"O maior desafio da Igreja \u00e9 o de ser desafio"},"content":{"rendered":"<p>Com um sentido prof\u00e9tico de oportunidade, com a sabedoria de quem ainda tenta acordar as mentes adormecidas, D. Ant\u00f3nio Marcelino, Bispo em\u00e9rito de Aveiro, lan\u00e7ou para a mesa da discuss\u00e3o p\u00fablica a interroga\u00e7\u00e3o sobre qual seria o maior desafio feito \u00e0 Igreja (ver CV de 19 de Outubro de 2011).<\/p>\n<p>Senti-me interpelado pela inquieta\u00e7\u00e3o e desafiado, eu pr\u00f3prio, a encontrar resposta que n\u00e3o se ficasse pelas manifesta\u00e7\u00f5es mais ou menos ef\u00e9meras e da moda. Subscrevo, em absoluto, a convic\u00e7\u00e3o de que as m\u00faltiplas dificuldades habitualmente apontadas como sendo os principais desafios da Igreja denunciam algo mais inquietante. E foi em busca desse fundo que me decidi a partilhar reflex\u00e3o e a juntar-me a outras vozes que, espero, sintam a mesma inquieta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Igreja n\u00e3o existe para si mesma, nem vive de si mesma. Existe para a salva\u00e7\u00e3o do mundo e por chamamento do Mestre. Todo o desafio que se lhe colocar\u00e1 resultar\u00e1, fundamentalmente, destes dois vectores.<\/p>\n<p>A sua condi\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o no mundo e para o mundo interpela-a a ser uma voz inc\u00f3moda, capaz de lan\u00e7ar o olhar para a dist\u00e2ncia, num horizonte que n\u00e3o se esgota na neblina do imediato e do presente, o que se constitui, \u00e0 partida, como desafio da fidelidade, n\u00e3o primeiramente a um passado, mas muito mais a um futuro, horizonte da salva\u00e7\u00e3o definitiva. Formulado deste modo, este desafio poder\u00e1 ser consubstanciado na ideia de que o primeiro grande desafio da Igreja ser\u00e1 o de saber aumentar o peso do futuro em rela\u00e7\u00e3o ao peso do passado. Do passado dever\u00e1 ser guardada a mem\u00f3ria da identidade. Do futuro dever\u00e1, contudo, ser recolhida a for\u00e7a da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas recuperemos a ideia de que a Igreja tem como condi\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria a de ser salva\u00e7\u00e3o no e para o mundo.<\/p>\n<p>\u00abDeus criou o homem sem ele, mas n\u00e3o o salva sem ele\u00bb. Sendo o n\u00facleo da miss\u00e3o da Igreja a manifesta\u00e7\u00e3o, na hist\u00f3ria, da salva\u00e7\u00e3o proposta por Deus aos homens, a Igreja n\u00e3o pode bastar-se em proclamar. Ser-lhe-\u00e1 necess\u00e1rio o interlocutor, algu\u00e9m que acolha a proposta. E aqui radica, em meu entender, o n\u00facleo mais desafiante para a Igreja. Na verdade, o s\u00e9culo XIX acusara a religi\u00e3o, em geral, e o cristianismo, em particular, de alienar o ser humano, de o levar a atribuir a Deus capacidades que, afinal, eram suas. Curiosamente, por\u00e9m, aquilo a que assistimos, ap\u00f3s a tentativa de arruinar a religi\u00e3o, n\u00e3o foi \u00e0 emerg\u00eancia do ser humano, mas \u00e0 sua verdadeira aliena\u00e7\u00e3o. O homem est\u00e1 reduzido a um objecto biol\u00f3gico, a uma pe\u00e7a da estrutura colectiva, a um ente sem subjectividade. O homem deixou de ser homem. E o mais dram\u00e1tico \u00e9 que a sociedade parece n\u00e3o se preocupar com isso. Vivemos uma aliena\u00e7\u00e3o anestesiada e anestesiante. O homem parece ter morrido, mas n\u00e3o se preocupar com isso. Ora, para algu\u00e9m que deixou de se perguntar pelo sentido da sua vida, pelo sentido do sofrimento, pelo sentido da protec\u00e7\u00e3o dos mais fr\u00e1geis, falar de salva\u00e7\u00e3o parece cacofonia. \u00c9 linguagem sem significado, \u201cflactus vocis\u201d, como diziam os nominalistas, na fase decadente da Idade M\u00e9dia. <\/p>\n<p>Bento XVI tem dito isto de outro modo, ao referir-se, com a frequ\u00eancia de um \u201cleit-motiv\u201d (como se fosse um tema musical identificador recorrente), ao problema do relativismo. O relativismo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 grave por nivelar a verdade e a opini\u00e3o, mas porque conduziu \u00e0 desist\u00eancia do homem em rela\u00e7\u00e3o a algo maior. O homem parece ter desistido.<\/p>\n<p>E o desafio da Igreja est\u00e1 em despert\u00e1-lo deste torpor mortal que parece satisfaz\u00ea-lo, mas que o aliena de si, o afasta da sua pr\u00f3pria natureza. <\/p>\n<p>\u00c0 Igreja caber\u00e1, neste contexto, saber usar de uma esp\u00e9cie de mai\u00eautica socr\u00e1tica que fa\u00e7a acordar em cada um o desejo de ver a Deus que \u00e9 garantia de perman\u00eancia do humano. Como diz Sartori, em outro contexto, \u00e9 o pr\u00f3prio \u201chomo sapiens\u201d que est\u00e1 em risco se n\u00e3o acordarmos. Pois, na minha perspectiva, \u00e9 dif\u00edcil perceber o que est\u00e1 primeiro: se o homem peca porque est\u00e1 perdido ou se est\u00e1 perdido porque peca. Na verdade, se n\u00e3o despertar para a necessidade da salva\u00e7\u00e3o, jamais se saber\u00e1 capaz de algo maior. Os te\u00f3logos da moral v\u00eam recordando isto quando referem que a moral Paulina \u00e9 a moral do indicativo: a consci\u00eancia moral emerge de se saber chamado a algo maior. O desafio da Igreja estar\u00e1 em saber-se capaz de despertar o humano que h\u00e1 em cada um, porque despert\u00e1-lo \u00e9 ousar elev\u00e1-lo.<\/p>\n<p>As palavras poder\u00e3o parecer barrocas, mas o n\u00facleo deve ser claro: para um homem \u00e0 deriva que n\u00e3o se sente perdido, de pouco vale oferecer uma b\u00fassola. O desafio da Igreja est\u00e1 em saber ser o despertador e n\u00e3o bastar-se em oferecer a b\u00fassola. A mestria que tinham, ali\u00e1s, Paulo e os primeiros anunciadores. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com um sentido prof\u00e9tico de oportunidade, com a sabedoria de quem ainda tenta acordar as mentes adormecidas, D. 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