{"id":18574,"date":"2011-11-23T09:21:00","date_gmt":"2011-11-23T09:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18574"},"modified":"2011-11-23T09:21:00","modified_gmt":"2011-11-23T09:21:00","slug":"legitimidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/legitimidade\/","title":{"rendered":"Legitimidade"},"content":{"rendered":"<p>O nosso Pa\u00eds confronta-se, esta semana, com uma greve geral convocada pelas duas centrais sindicais, movimentando milhares de cidad\u00e3os portugueses. O motivo fundamental \u00e9 reagir contra a sobrecarga fiscal, o corte de proveitos e regalias sociais, num momento de crise global e na esteira de uma desastrada gest\u00e3o dos recursos do pa\u00eds, que nos colocou \u00e0 beira do colapso financeiro total.<\/p>\n<p>A greve, uma das conquistas mais penosas do associativismo sindical, pode ser definida como a recusa colectiva e concertada, por parte dos trabalhadores, de prestarem o seu trabalho, com o objectivo de obter, por meio da press\u00e3o assim exercida sobre os empregadores, sobre o Estado e sobre a opini\u00e3o p\u00fablica, melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e da sua situa\u00e7\u00e3o social (CDSI &#8211; 304).*<\/p>\n<p>Diante destas afirma\u00e7\u00f5es da Doutrina Social da Igreja, importa interrogarmo-nos se a decis\u00e3o desta greve \u00e9 isenta de press\u00f5es ideol\u00f3gicas e\/ou partid\u00e1rias, que constituam alguma forma de manipula\u00e7\u00e3o dos aderentes. E tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio aferir se o objectivo &#8211; a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e da situa\u00e7\u00e3o social &#8211; \u00e9 ou n\u00e3o alcan\u00e7\u00e1vel. Quanto ao primeiro aspecto, h\u00e1 sempre o risco de prevalecerem inten\u00e7\u00f5es ocultas, bem distantes do bem comum e dos trabalhadores. E, no momento preciso que vivemos, \u00e9 no m\u00ednimo duvidoso que se alcancem os objectivos de uma greve.<\/p>\n<p>A doutrina social reconhece a legitimidade da greve \u00abquando se apresenta como recurso inevit\u00e1vel, sen\u00e3o mesmo necess\u00e1rio, em vista dum benef\u00edcio proporcionado\u00bb, depois de se terem revelado ineficazes todos os outros recursos para a resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos (CDSI &#8211; 304).<\/p>\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es s\u00e3o o caminho normal da democracia. E, de parte a parte, para que elas sejam honestas, n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo criar situa\u00e7\u00f5es de vantagem pela for\u00e7a, para submeter o parceiro a aceitar condicionalismos imposs\u00edveis. Por isso, nem governo nem sindicatos devem avan\u00e7ar com iniciativas que ensombrem ou eliminem a mesa das negocia\u00e7\u00f5es. Como tamb\u00e9m urge ponderar se a greve trar\u00e1 um benef\u00edcio proporcionado.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a greve, conquanto se perfile \u00abcomo [\u2026] uma esp\u00e9cie de \u201cultimato\u201d\u00bb, deve ser sempre um m\u00e9todo pac\u00edfico de reivindica\u00e7\u00e3o e de luta pelos pr\u00f3prios direitos; torna-se \u00abmoralmente inaceit\u00e1vel quando acompanhada de viol\u00eancias, ou com objectivos n\u00e3o directamente ligados \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho ou contr\u00e1rios ao bem comum\u00bb (CDSI &#8211; 304).<\/p>\n<p>Este \u00e9 outro aspecto crucial a ter em conta: a greve tem de ser um movimento pac\u00edfico. A onda de viol\u00eancia, que vem muitas vezes associada \u00e0 greve, ofusca ou retira por completo a sua legitimidade. E perverte, em absoluto, os seus objectivos. <\/p>\n<p>Apesar de percebermos que o poder tem sempre muita dificuldade em se questionar e, sobretudo, em abdicar de privil\u00e9gios, deixando sempre uma franja de lautos beneficiados, em detrimento de uma multid\u00e3o de famintos, os crist\u00e3os portugueses e todos os cidad\u00e3os honestos t\u00eam o dever de se perguntar se, com a greve, vamos dar algum pa\u00e7o no sentido de reconquistar a esperan\u00e7a e encontrar solu\u00e7\u00f5es para o futuro do Pa\u00eds. Ou se, pelo contr\u00e1rio, vamos acrescer a pobreza e avan\u00e7ar uma passo mais para o abismo.<\/p>\n<p>*CDSI &#8211; Comp\u00eandio <\/p>\n<p>da Doutrina Social da Igreja<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nosso Pa\u00eds confronta-se, esta semana, com uma greve geral convocada pelas duas centrais sindicais, movimentando milhares de cidad\u00e3os portugueses. 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