{"id":1862,"date":"2010-06-23T15:07:00","date_gmt":"2010-06-23T15:07:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1862"},"modified":"2010-06-23T15:07:00","modified_gmt":"2010-06-23T15:07:00","slug":"a-etica-e-absolutamente-essencial-para-a-sustentacao-da-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-etica-e-absolutamente-essencial-para-a-sustentacao-da-economia\/","title":{"rendered":"&#8220;A \u00e9tica \u00e9 absolutamente essencial para a sustenta\u00e7\u00e3o da economia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Bag\u00e3o F\u00e9lix, professor universit\u00e1rio de Economia e antigo ministro, esteve no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura, na noite de 9 de Junho, a convite do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA), para falar da rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica \/ economia. O encontro foi moderado por Joaquim Marques, presidente do Conselho Administrativo do ISCRA. Aqui fica o resumo poss\u00edvel de uma noite de afirma\u00e7\u00f5es s\u00e9rias e profundas e de vez em quando pontuadas por notas de humor. J.P.F.<\/p>\n<p>Indissoci\u00e1veis<\/p>\n<p>\u201c\u00c9tica e economia\u201d \u00e9 um ox\u00edmoro, como \u201csil\u00eancio ensurdecedor\u201d ou \u201ccontentamento descontente\u201d (Cam\u00f5es)? Se h\u00e1 uma coisa, n\u00e3o h\u00e1 outra? N\u00e3o. E, como afirma Drucker, a \u00e9tica da economia n\u00e3o \u00e9 diferente de qualquer outra, na fam\u00edlia, na escola, na pol\u00edtica, no desporto.<\/p>\n<p>Ser pessoa<\/p>\n<p>Somos seres biol\u00f3gicos, somos cidad\u00e3os e somos pessoas. A \u00e9tica reside na primazia de sermos pessoas, seres relacionais em que se coloca a quest\u00e3o dos valores.<\/p>\n<p>\u00c9tica e lei<\/p>\n<p>H\u00e1 uma grande confus\u00e3o no mundo de hoje, a de que cumprir as regras da lei \u00e9 ser eticamente irrepreens\u00edvel. Isso \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas n\u00e3o suficiente. Ficar apenas por a\u00ed \u00e9 o que est\u00e1 na base da actual crise econ\u00f3mica. A \u00e9tica pro\u00edbe a deslealdade, a mentira, o \u00f3dio, a gan\u00e2ncia. Mas isto n\u00e3o \u00e9 proibido pela lei. Posso ser um cumpridor completo da lei e ser um safado.<\/p>\n<p>Bem e mal confusos<\/p>\n<p>H\u00e1 uma dificuldade maior em distinguir o bem do mal. H\u00e1 uma eros\u00e3o de fronteiras. Na sociedade, esta distin\u00e7\u00e3o \u00e9 como a pedra-pomes: muitos buracos, mas pouco peso. Deixamos de ter valores para ter opini\u00f5es, como se as opini\u00f5es fossem valores.<\/p>\n<p>Casar \u00e9tica e economia<\/p>\n<p>A \u00e9tica \u00e9 absolutamente essencial para a sustenta\u00e7\u00e3o da economia. Adam Smith (1723-1790) tornou a economia numa ci\u00eancia mais econom\u00e9trica do que humana. Com a crise actual, volta-se a casar a \u00e9tica e a economia, porque houve formas capciosas de cumprir a lei por parte de pessoas habilidosas, gananciosas, com falta de escr\u00fapulos que causaram a crise.<\/p>\n<p>O todo e a parte<\/p>\n<p>A \u00e9tica tem a ver com o todo, como na hist\u00f3ria da visita de S. Lu\u00eds (Lu\u00eds IX de Fran\u00e7a) \u00e0 catedral de Chartres em constru\u00e7\u00e3o. O rei vai perguntando aos oper\u00e1rios o que est\u00e3o a fazer e todas as respostas s\u00e3o parciais. No final, pergunta a um velho que est\u00e1 a varrer umas aparas e este responde-lhe: \u201cEstou a construir uma catedral\u201d. O mais humilde tinha a no\u00e7\u00e3o do todo. Hoje, vive-se em retalhos, cacifos. Coisificam-se e espartilham-se as pessoas.<\/p>\n<p>Como amolecer a \u00e9tica\u2026<\/p>\n<p>A linguagem do politicamente correcto \u00e9 uma forma de relativismo para amolecer as quest\u00f5es \u00e9ticas. Os exemplos abundam: \u201cinterrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez\u201d [em vez de aborto], \u201cmorte clinicamente assistida\u201d [em vez de eutan\u00e1sia], \u201creestrutura\u00e7\u00f5es\u201d [em vez de despedimentos], \u201cficar retido\u201d [em vez de chumbar], ou at\u00e9 \u201crecursos humanos\u201d [em vez de pessoal].<\/p>\n<p>\u2026e diluir os valores<\/p>\n<p>A \u00e9tica op\u00f5e-se \u00e0 l\u00f3gica da contabiliza\u00e7\u00e3o. Os valores n\u00e3o se podem quantificar. N\u00e3o h\u00e1 uma medida de quantidade para a \u00e9tica. Dizer que uma pessoa \u00e9 \u201cpouco honesta\u201d ou \u201cmuito honesta\u201d \u00e9 uma forma de dissolver os valores. O \u201cmuito\u201d e o \u201cpouco\u201d est\u00e3o a mais. Ou \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 honesta. Mais uma vez, a linguagem para diluir os valores: inverdade em vez de mentira; imparidade em vez de desvio, fraude; sinergia em vez de conflito de interesses; mal menor e flexibilidade em vez de desonestidade.<\/p>\n<p>Endividamento no momento<\/p>\n<p>Na crise actual, sobressaem dois factores. Primeiro, a embriaguez do endividamento de pessoas, empresas e estados, ao mesmo tempo que se desconsidera a poupan\u00e7a, que \u00e9 factor de solidariedade intergeracional. O endividamento \u00e9 geracional ao contr\u00e1rio, o que faz lembrar a anedota: \u201cQual \u00e9 a diferen\u00e7a entre Natal e Or\u00e7amento do Estado? No Natal, os filhos pedem e os pais pagam. No Or\u00e7amento do Estado, os pais pedem e os filhos t\u00eam de pagar\u201d. Por outro lado, h\u00e1 uma primazia completa do curto prazo. Vivemos a era do \u201cHomem do Instante\u201d. Hoje fala-se, amanh\u00e3 esquece-se. O esquecimento faz parte do d\u00e9fice \u00e9tico.<\/p>\n<p>Falta de exemplos<\/p>\n<p>Nas sociedades actuais h\u00e1 um d\u00e9fice de exemplaridade. Antes da iconografia do sucesso devia estar a da exemplaridade. Santidade, segundo os cat\u00f3licos. A exemplaridade entra-nos pela negativa, pelo sucesso dos v\u00edcios. A no\u00e7\u00e3o de autoridade \u00e9 fundamental. Quem vai \u00e0 frente deve dar o exemplo. Os v\u00edcios s\u00e3o contagiosos. As virtudes s\u00e3o contagiantes. Como dizia S\u00e9neca, longo e penoso \u00e9 o caminho atrav\u00e9s das normas, curto e eficaz atrav\u00e9s do exemplo.<\/p>\n<p>O que nos faz pessoa n\u00e3o \u00e9 o Bilhete de Identidade. \u00c9 precisamente o que n\u00e3o cabe  no B.I., os valores e a sabedoria, que \u00e9 um comp\u00f3sito de saberes.<\/p>\n<p>Ser e parecer na pol\u00edtica<\/p>\n<p>Os pol\u00edticos n\u00e3o s\u00e3o melhores nem piores do que o resto da sociedade. S\u00e3o \u00e9 permanentemente escrutinados. O grande valor da pol\u00edtica deve ser a verdade. A fantasia, a ilus\u00e3o, a quimera, o ziguezague, tudo isto \u00e9 o grande estigma \u00e9tico. Em pol\u00edtica, diz-se que \u201co que parece \u00e9\u201d. A \u00e9tica diz o contr\u00e1rio: n\u00e3o \u00e9 preciso parecer, \u00e9 preciso ser.<\/p>\n<p>Teste \u00e0s atitudes<\/p>\n<p>Teste da \u00e9tica. [Professor universit\u00e1rio, Bag\u00e3o F\u00e9lix revelou um teste que costuma dar aos alunos para avaliar se uma decis\u00e3o \u00e9 \u00e9tica.] Depois da decis\u00e3o\u2026 1. Espelho. Posso ver-me ao espelho sem me envergonhar? 2. Sono. Posso dormir descansado? 3. Fam\u00edlia. Sinto-me bem a contar-lhe? 4. Dignidade. \u00c9 uma decis\u00e3o que dignifica os intervenientes? 5. Equidade. Os direitos ficam acautelados? 6. Proveito pessoal honesto? 7. A justi\u00e7a procedimental est\u00e1 assegurada? 8. H\u00e1 coer\u00eancia de valores? 9. A regra de ouro (n\u00e3o fa\u00e7as aos outros o que n\u00e3o queres que te fa\u00e7am a ti) \u00e9 observada? 10. Primeira p\u00e1gina. Sentir-me-ia confort\u00e1vel se a minha decis\u00e3o abrisse o notici\u00e1rio?<\/p>\n<p>Outros coment\u00e1rios<\/p>\n<p>IMPOSTOS RETROACTIVOS. O Estado vai cometer uma ilegalidade? \u00c9 o que acontece ao afirmar a retroactividade dos impostos. \u00c9 uma viola\u00e7\u00e3o grave que destr\u00f3i a confian\u00e7a entre governantes e governados. \u00c9 grav\u00edssimo.<\/p>\n<p>RECOLHA DE IMPOSTOS. Dizia Colbert que \u00e9 como depenar um ganso tirando o m\u00e1ximo de penas com a menor dor poss\u00edvel.<\/p>\n<p>ECONOMISTAS. Segundo um humorista franc\u00eas, os economistas s\u00e3o como os cirurgi\u00f5es que martirizam o vivo e operam o morto.<\/p>\n<p>SAD. A \u00e9tica das sociedades an\u00f3nimas desportivas deve ser a das \u201ctake holders\u201d (\u201cpartes interessadas\u201d). Devia haver discri\u00e7\u00e3o, prud\u00eancia e serenidade, como noutras empresas. Mas n\u00e3o \u00e9 o que acontece. Por outro lado, se os jogadores t\u00eam ordenados altos, \u00e9 preciso notar que os adeptos do futebol \u00e9 que os pagam.<\/p>\n<p>A EMPRESA. Segundo Peter Drucker, a empresa \u00e9 como uma orquestra: pouca hierarquia, todos tocam a mesma partitura e todos s\u00e3o importantes.<\/p>\n<p>AV\u00d3S. N\u00e3o sabemos aproveitar o melhor de cada gera\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um eclipse dos av\u00f3s. Os velhos s\u00e3o \u00fateis enquanto trabalham. Ser velho \u00e9 ter todas as respostas mas j\u00e1 ningu\u00e9m fazer as perguntas. Deixou de haver ventila\u00e7\u00e3o vertical nas sociedades. N\u00e3o se aproveita a ancianidade.<\/p>\n<p>CASAMENTO HOMOSSEXUAL. O Presidente da Rep\u00fablica actuou de maneira redutora. Afirmou valores, numa \u00e9tica de convic\u00e7\u00e3o, mas por causa de aspectos conjunturais assinou a lei &#8211; \u00e9tica das circunst\u00e2ncias. N\u00e3o compreendo a decis\u00e3o. Por redu\u00e7\u00e3o ao absurdo, as pessoas que se casarem por esta lei devem agradecer \u00e0 crise.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Bag\u00e3o F\u00e9lix, professor universit\u00e1rio de Economia e antigo ministro, esteve no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura, na noite de 9 de Junho, a convite do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA), para falar da rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica \/ economia. O encontro foi moderado por Joaquim Marques, presidente do Conselho Administrativo do ISCRA. 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