{"id":18653,"date":"2011-11-30T16:52:00","date_gmt":"2011-11-30T16:52:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18653"},"modified":"2011-11-30T16:52:00","modified_gmt":"2011-11-30T16:52:00","slug":"o-estranho-caso-de-dois-testamentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-estranho-caso-de-dois-testamentos\/","title":{"rendered":"O estranho caso de dois testamentos"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Em romances policiais, \u00e9 um tema que d\u00e1 pano para mangas. E as leituras de hoje n\u00e3o fazem excep\u00e7\u00e3o. Mas do que \u00e9 que se trata?<\/p>\n<p>A primeira dificuldade \u00e9 que, segundo a maioria dos entendidos, n\u00e3o h\u00e1 \u00abtestamento\u00bb nenhum: com efeito, um testamento \u00e9 a \u00faltima vontade ou disposi\u00e7\u00f5es que deve cumprir quem sobrevive ao testador. Como se Deus, antes de morrer, tivesse deixado ao \u00abseu povo\u00bb as normas a seguir. Ora n\u00e3o podemos admitir nem uma coisa nem outra: por um lado, a morte s\u00f3 entra na vida do ser humano; por outro, o ser humano tem a experi\u00eancia de que n\u00e3o pode ser uma simples marionete nas m\u00e3os de Deus \u2013 pois lhe compete desenvolver e governar o mundo com a for\u00e7a do \u00abesp\u00edrito\u00bb de Deus (o seu \u00absopro\u00bb criador \u2013 G\u00e9nesis 1 e 2).<\/p>\n<p>Na verdade, em vez de \u00abtestamento\u00bb, o termo preferido pelas melhores tradu\u00e7\u00f5es da B\u00edblia, \u00e9 \u00abalian\u00e7a\u00bb. \u00c9 o principal significado do termo hebreu \u00abber\u00eet\u00bb, afim aos conceitos de pacto, compromisso, lei e testemunho. Mas n\u00e3o se pode confundir com a Lei do \u00abpovo escolhido\u00bb, pois \u00abber\u00eet\u00bb n\u00e3o \u00e9 um c\u00f3digo nem a express\u00e3o mais ou menos pormenorizada da vontade de Deus (n\u00e3o da sua \u00ab\u00faltima vontade\u00bb!). \u00abBer\u00eet\u00bb \u00e9 um acto, um acordo ritual e solene entre duas partes (designa frequentemente o pacto entre rei e vassalo). Implica um historial das partes inclu\u00eddas e suas rela\u00e7\u00f5es, termos da negocia\u00e7\u00e3o, e vantagens ou penaliza\u00e7\u00f5es ao n\u00e3o cumpridor. Os \u00abaliados\u00bb podiam passar entre as duas metades sangrentas de um animal imolado e aspergir-se com o sangue \u2013 que tanto significa vida como puni\u00e7\u00e3o de morte. <\/p>\n<p>Trata-se portanto de uma \u00abalian\u00e7a\u00bb. No caso de Deus e \u00abseu povo\u00bb (Israel), encontramos muitas vezes estes elementos, seja na hist\u00f3ria de No\u00e9 ou dos Patriarcas, de Mois\u00e9s ou do Deuteron\u00f3mio, seja nos livros prof\u00e9ticos e nos salmos. A\u00ed aparece o ser humano ardentemente convidado a participar numa verdadeira \u00abjoint-venture\u00bb com Deus. Note-se que, ao longo da B\u00edblia, o \u00abpovo escolhido\u00bb para ser \u00abluz das na\u00e7\u00f5es\u00bb progressivamente se identifica com todos os seres humanos que aderem \u00e0 \u00abboa vontade de Deus\u00bb (Lucas 2,14).<\/p>\n<p>Esta alian\u00e7a estabelece uma rela\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de parentesco, utilizando os termos da rela\u00e7\u00e3o conjugal \u2013 amor e fidelidade. A for\u00e7a da \u00abalian\u00e7a\u00bb n\u00e3o reside portanto nem no ritual nem nos termos do contracto (orais ou escritos). Se \u00e9 verdade que estes eram frequentemente relembrados (como na noite pascal), tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a alian\u00e7a podia ser, na for\u00e7a do termo, renovada: o profeta Jeremias (31,31-34) afirma solenemente o estranho caso de que as instru\u00e7\u00f5es da alian\u00e7a ser\u00e3o doravante inscritas no cora\u00e7\u00e3o de cada qual, num ser vivo e n\u00e3o numa pedra ou pergaminho.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 esta a nova \u00abalian\u00e7a\u00bb de Jesus Cristo? Nem sequer baptizou com \u00e1gua, como Jo\u00e3o Baptista. A \u00e1gua \u00e9 o grande s\u00edmbolo do afogamento do mal e de nova vida em \u00abroupa lavada\u00bb. Jesus mostrou compreender bem o valor deste ritual de alian\u00e7a. (Ali\u00e1s, na \u00ab\u00faltima ceia\u00bb, a sua morte e o seu sangue lembram os aspectos sangrentos das primeiras alian\u00e7as). Mas o pr\u00f3prio Baptista refor\u00e7ou a vis\u00e3o de Jeremias: Deus quer estar em n\u00f3s, ser o mais \u00edntimo amigo, com a criatividade e for\u00e7a do seu \u00abesp\u00edrito\u00bb. Como diz a 2.\u00aa leitura, \u00e9 um Deus que nos protege e cria connosco \u00abum novo c\u00e9u e nova terra onde habitar\u00e1 a justi\u00e7a\u00bb. Todos n\u00f3s podemos sentir esse Deus aproximar-se de n\u00f3s, como quem nos vem encher de presentes (1.\u00aa leitura) e multiplicar a nossa alegria de viver, mesmo nas coisas que nos parecem (erradamente) nada terem a ver com Deus.<\/p>\n<p>O Baptista e Jesus podem simbolizar \u00abo mist\u00e9rio dos dois testamentos\u00bb, que para os crist\u00e3os deu origem ao \u00abVelho testamento\u00bb e ao \u00abNovo testamento\u00bb. Na realidade, por\u00e9m, n\u00e3o se resolve o mist\u00e9rio, embora muitos \u00abdetectives\u00bb (te\u00f3logos e outros) gastem a vida em encontrar novos aspectos do \u00abestranho caso de dois testamentos\u00bb: tanto definidos em termos orais ou escritos, como coincidentes com a vida pr\u00f3pria das partes envolvidas \u2013 a de Deus e a da Humanidade.<\/p>\n<p>N\u00f3s \u00e9 que podemos deixar sempre um testamento: a arte de limpar caminhos\u2026<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-18653","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18653"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18653\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}