{"id":18657,"date":"2011-11-30T17:05:00","date_gmt":"2011-11-30T17:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18657"},"modified":"2011-11-30T17:05:00","modified_gmt":"2011-11-30T17:05:00","slug":"a-guerra-fria-de-bento-xvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-guerra-fria-de-bento-xvi\/","title":{"rendered":"A guerra fria de Bento XVI"},"content":{"rendered":"<p>GUIACOMO GALEAZZI<\/p>\n<p>Jornalista<\/p>\n<p>A luta contra a fome \u00e9 a nova Guerra Fria. O muro da desigualdade econ\u00f3mica divide o mundo entre sul e norte como ontem as ideologias o dividiam em dois, entre Ocidente capitalista e Oriente comunista. No est\u00e1dio de Cotonou [no Benim] transformado numa festa da f\u00e9 muito colorida e ensurdecedora, Bento XVI assegura a \u00c1frica que a Igreja tornar-se-\u00e1 a voz dos \u00faltimos.<\/p>\n<p>O Papa, cada vez mais pastor do que te\u00f3logo, actualiza no terceiro mil\u00e9nio globalizado a promessa do rec\u00e9m-eleito Karol Wojtyla aos crentes do outro lado da Cortina de Ferro. Em Assis, h\u00e1 33 anos, em plena contraposi\u00e7\u00e3o dos blocos, Jo\u00e3o Paulo II rezou diante do t\u00famulo de S\u00e3o Francisco e antecipou o projecto geopol\u00edtico do seu pontificado: \u201cA \u00abIgreja do Sil\u00eancio\u00bb n\u00e3o o ser\u00e1 mais porque ir\u00e1 falar atrav\u00e9s da minha voz\u201d.<\/p>\n<p>Neste domingo [20 de Novembro], Joseph Ratzinger entrou em campo na primeira linha da mis\u00e9ria e, no quarto pa\u00eds mais pobre do mundo, reafirmou a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, lan\u00e7ando uma teologia da liberta\u00e7\u00e3o depurada dos excessos do marxismo e da aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 luta de classes. Uma solidariedade \u201cglobal\u201d capaz de romper \u201co bem-estar ego\u00edsta, o lucro f\u00e1cil, o poder como objectivo \u00faltimo da vida humana\u201d.<\/p>\n<p>O \u00faltimo dia africano do pont\u00edfice come\u00e7ou com um intermin\u00e1vel percurso do papam\u00f3vel num mar de fi\u00e9is. Uma onda ininterrupta de c\u00e2nticos tradicionais e hinos lit\u00fargicos. Mais de 50 mil pessoas entraram na missa concelebrada por 200 bispos de todo o continente negro. Centenas de milhares permaneceram do lado de fora do complexo desportivo para abra\u00e7\u00e1-lo festivamente com o ass\u00e9dio, enquanto o Papa entrega \u00e0s confer\u00eancias episcopais a Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica \u201cO Servi\u00e7o da \u00c1frica\u201d: o manifesto da catolicidade do amanh\u00e3.<\/p>\n<p>A cerim\u00f3nia \u00e9 uma Babel sem precedentes: o pont\u00edfice fala franc\u00eas e latim, com leituras numa mistura jamais ouvida: bariba, ingl\u00eas, portugu\u00eas, mina, yaruba, dendi. E a b\u00ean\u00e7\u00e3o final em fon, a l\u00edngua local. No meio da cerim\u00f3nia, um raio finalmente fende as nuvens da manh\u00e3, e o manto de chumbo de humidade (95% e uma temperatura de 34 graus) e, quase numa explos\u00e3o espont\u00e2nea de \u201csincretismo\u201d, um rugido da multid\u00e3o presta homenagem \u00e0s for\u00e7as da natureza. Um rito do sol dentro da liturgia cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>As pessoas vieram de toda a regi\u00e3o, devastada pela pobreza e pela sida. De p\u00e9, com as mulas empoeiradas, ou em motorizadas movidas a gasolina vendida nos bairros em garrafas de Coca-Cola. De vilarejo em vilarejo, as irm\u00e3s de vestes vistosas, diferentes de acordo com a congrega\u00e7\u00e3o, orientam a peregrina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do palco, os discursos oficiais sa\u00fadam Joseph Ratzinger como \u201camigo e defensor da \u00c1frica\u201d, que dedicou ao continente negro, como Papa, o S\u00ednodo e, como cardeal, uma profecia: a Igreja est\u00e1 pronta para um Papa negro. Estimulando em chave cada vez mais social os seus discursos, o pont\u00edfice deplora \u201ca opress\u00e3o dos fracos\u201d e exorta a \u201cderrubar os muros da divis\u00e3o\u201d para \u201cviver na justi\u00e7a e na paz\u201d.<\/p>\n<p>Ao lado dos \u00faltimos, naquela que foi a costa dos escravos e hoje \u00e9 o epicentro da fome, o Papa lan\u00e7a um alerta ao mundo inteiro: n\u00e3o se pode mais ignorar \u201co grito do pobre, do fraco, do marginalizado\u201d. Tudo ao redor \u00e9 uma festa multicolorida da f\u00e9, com milhares de crian\u00e7as, mulheres em trajes tradicionais e homens com os bra\u00e7os levantados.<\/p>\n<p>No continente negro perpassado por violent\u00edssimas persegui\u00e7\u00f5es anticrist\u00e3s, Joseph Ratzinger mostra como o baptizado sabe que \u201ca sua decis\u00e3o de seguir Cristo pode conduzi-lo a grandes sacrif\u00edcios, \u00e0s vezes at\u00e9 mesmo ao da vida\u201d. Adverte os crist\u00e3os que ser\u00e3o \u201cjulgados\u201d pela forma como se comportarem para com os estrangeiros e todos aqueles que s\u00e3o postos de lado. Indica o modelo de Jesus, que \u201cquis assumir o rosto daqueles que t\u00eam fome e sede, est\u00e3o doentes ou prisioneiros, enfim, de todas as pessoas que sofrem\u201d.<\/p>\n<p>Ele infunde \u201ccoragem\u201d aos pobres e \u00e0s pessoas com sida, uma das pandemias africanas: \u201cTenham coragem, o Papa est\u00e1 perto de voc\u00eas\u201d. A sida \u00e9 \u201cum problema n\u00e3o s\u00f3 ao n\u00edvel sanit\u00e1rio e farmac\u00eautico, mas tamb\u00e9m \u00e9tico\u201d. Os tratamentos devem ser gratuitos. A Igreja est\u00e1 com aqueles que mais precisam.<\/p>\n<p>Publicado originalmente no di\u00e1rio italiano \u201cLa Stampa\u201d de 21-11-2011. Tradu\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s Sbardelotto (www.ihu.unisinos.br).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GUIACOMO GALEAZZI Jornalista A luta contra a fome \u00e9 a nova Guerra Fria. O muro da desigualdade econ\u00f3mica divide o mundo entre sul e norte como ontem as ideologias o dividiam em dois, entre Ocidente capitalista e Oriente comunista. 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