{"id":18898,"date":"2012-01-04T17:56:00","date_gmt":"2012-01-04T17:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18898"},"modified":"2012-01-04T17:56:00","modified_gmt":"2012-01-04T17:56:00","slug":"palavras-caras-em-tempo-de-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/palavras-caras-em-tempo-de-crise\/","title":{"rendered":"Palavras caras em tempo de crise"},"content":{"rendered":"<p>\u00abEpifania\u00bb \u00e9 uma delas. No antigo grego significava simplesmente o \u00abaspecto vis\u00edvel de qualquer coisa\u00bb, a sua \u00abrevela\u00e7\u00e3o\u00bb. Com o correr dos anos, passou a significar particularmente a impress\u00e3o causada pelo \u00abaspecto majestoso\u00bb dessa coisa ou pessoa, acabando por se aplicar \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o da divindade como salvadora, quer atrav\u00e9s de um acontecimento fora do comum quer atrav\u00e9s de uma pessoa que se assumia como Deus (como foi o caso dos imperadores romanos, e por isso os crist\u00e3os foram perseguidos por n\u00e3o os aceitarem como \u00abDeus\u00bb). Os templos e as festas religiosas s\u00e3o o lugar e o tempo especiais da \u00abmanifesta\u00e7\u00e3o gloriosa\u00bb (\u00abepifania\u00bb) da divindade.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o grega do Antigo Testamento utiliza v\u00e1rias vezes essa \u00abpalavra cara\u00bb, para exprimir a poderosa (e tamb\u00e9m terr\u00edvel) interven\u00e7\u00e3o de Deus como salvador e juiz dos povos. Era natural que os crist\u00e3os a utilizassem para designar a apari\u00e7\u00e3o vis\u00edvel do seu \u00abSalvador\u00bb, tanto no nascimento como na futura \u00abvinda final\u00bb.<\/p>\n<p>Mas o Novo Testamento nem sequer utiliza a palavra \u00abepifania\u00bb (s\u00f3 aparece 6 vezes e nas cartas mais tardias, atribu\u00eddas a S. Paulo). Os evangelistas apenas contaram hist\u00f3rias ou reflex\u00f5es pr\u00f3prias, em que \u00abapresentavam\u00bb ou \u00abmanifestavam\u00bb a import\u00e2ncia de Jesus. Os relatos \u00e0 volta do nascimento e baptismo de Jesus, das Bodas de Can\u00e1, da Samaritana e de outros encontros, correspondem ao sentido da palavra \u00abepifania\u00bb, como quem diz: \u00abassim se mostrou Jesus\u00bb. <\/p>\n<p>S\u00f3 o olhar da f\u00e9 \u00e9 que descobre, nos casos hist\u00f3ricos, bem vis\u00edveis, a presen\u00e7a de Deus. Por\u00e9m, no caso de Jesus, era mesmo preciso um grande acto de f\u00e9, capaz de ver \u00abo Senhor\u00bb na fragilidade e simplicidade com que nasceu e viveu, sem nunca se confundir com os grandes senhores e poderosos do seu tempo, nem sequer com os da classe sacerdotal.<\/p>\n<p>Podemos dizer que n\u00e3o lhe ficava bem uma \u00abpalavra cara\u00bb porque ele \u00abn\u00e3o se fazia caro\u00bb. Era t\u00e3o simples, t\u00e3o sem preconceitos, que se dava com toda a esp\u00e9cie de pessoas. <\/p>\n<p>Talvez por isso \u00e9 que S. Mateus mistura pastores com anjos e ricos s\u00e1bios do Oriente, junto do filho de Maria e Jos\u00e9. At\u00e9 as estrelas do c\u00e9u se concertaram para permitir a \u00abepifania\u00bb de Jesus\u2026<\/p>\n<p>S\u00f3 faltavam os que viviam no meio de \u00abcaras epifanias\u00bb em pal\u00e1cios e na ostenta\u00e7\u00e3o do seu dom\u00ednio sobre os povos.<\/p>\n<p>\u00c9 natural a tend\u00eancia para ver em Deus \u00abo rei dos reis\u00bb, a quem deveriam ser consagrados verdadeiros pal\u00e1cios luxuosos com verdadeiras cortes principescas, em que vivam os altos dignit\u00e1rios religiosos, promovendo rituais de pomposas \u00abepifanias\u00bb.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria mostra como os templos crist\u00e3os e as hierarquias religiosas reflectem esta tend\u00eancia (sobretudo em s\u00e9culos passados). Como a humanidade n\u00e3o se sente segura sem manifesta\u00e7\u00f5es de poder por parte dos seus l\u00edderes, precisava de sentir o \u00abpoder da lideran\u00e7a\u00bb de Deus ou de Jesus, no esplendor de templos e rituais, juntando os materiais mais preciosos com o mais precioso engenho de artistas de toda a esp\u00e9cie (pintores, escultores, m\u00fasicos, arquitectos, engenheiros\u2026). T\u00e3o magn\u00edfico era o resultado que Deus parecia necessariamente presente (por isso David queria construir para Deus um pal\u00e1cio bem superior ao dele \u2013 o Templo). Mas se Deus ou os seus intermedi\u00e1rios pareciam longe, como Mois\u00e9s no monte Sinai, o povo recorria, como foi o caso, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de art\u00edsticos e valios\u00edssimos \u00abbezerros de ouro\u00bb, como uma \u00abepifania\u00bb mais sens\u00edvel, mas que n\u00e3o dizia respeito ao verdadeiro Deus. <\/p>\n<p>A hist\u00f3ria mostra que todas as epifanias luxuosas nos afastam mais de Deus do que nos aproximam: excitam a vaidade e gan\u00e2ncia de poder e dinheiro, e facilitam que as pessoas fa\u00e7am dos \u00abbezerros de ouro\u00bb o objecto da religi\u00e3o. <\/p>\n<p>Com o desenvolvimento do pensamento cr\u00edtico e com a \u00absitua\u00e7\u00e3o cr\u00edtica\u00bb que vivemos, talvez os \u00abMois\u00e9s\u00bb do nosso tempo n\u00e3o se possam demorar tanto e muito menos passar a vida longe do povo, com a desculpa de estarem a falar com Deus. T\u00eam que \u00abdescer\u00bb depressa, para evitar que as riquezas materiais se transformem em falsos deuses, em vez de serem administradas para o bem comum. Vivendo como Jesus \u00abentre n\u00f3s\u00bb, ajudam-nos a descobrir, sem palavras caras nem com meios caros, a \u00abrevela\u00e7\u00e3o\u00bb de Deus como agrad\u00e1vel companheiro de todos os nossos momentos.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abEpifania\u00bb \u00e9 uma delas. No antigo grego significava simplesmente o \u00abaspecto vis\u00edvel de qualquer coisa\u00bb, a sua \u00abrevela\u00e7\u00e3o\u00bb. 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