{"id":189,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=189"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"o-oitavo-pecado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-oitavo-pecado\/","title":{"rendered":"O oitavo pecado"},"content":{"rendered":"<p>Contava-me, aqui h\u00e1 dias, uma dessas almas simples pela grandeza e boas pela simplicidade, dessas que transportam as mis\u00e9rias  do mundo em cada olhar e em cada gesto e fazem da vida um hino \u00e0 alegria, uma hist\u00f3ria que, se n\u00e3o fosse verdade podia ser inventada: na aldeia pobre em que viviam, uma crian\u00e7a, antes de ir para a escola parava junto \u00e0 casa, batia \u00e0 porta das Irm\u00e3s e pedia um copo de \u00e1gua. A princ\u00edpio nada de anormal, apenas admira\u00e7\u00e3o e suspeita: \u201cum copo de \u00e1gua!\u201d E veio  a pergunta: \u201cEnt\u00e3o, mas tu n\u00e3o tens \u00e1gua em casa?\u201d Tenho, mas a vossa \u00e9 melhor, \u00e9 \u00e1gua de Deus. E, passados dias, veio a explica\u00e7\u00e3o: a \u00e1gua era um simples pretexto para um beijo que aquela crian\u00e7a queria em cada dia antes de entrar no espa\u00e7o da escola. Depois dela vieram outras e mais outras e institu\u00edram a hora do beijo de tal modo que as Irm\u00e3s tiveram de explicar que em cada dia, \u00e0quela hora, s\u00f3 a Irm\u00e3 que estivesse em casa \u00e9 que poderia receber e dar tanto  beijo. E instituiu-se a hora do beijo.<\/p>\n<p>Achei piada \u00e0 hist\u00f3ria \u2014 que \u00e9 um facto \u2014 e recordei todas as perip\u00e9cias de um ano escolar que come\u00e7ou e um sem-n\u00famero de dificuldades vindas dos mais diversos quadrantes onde cada um exige aquilo que pensa que \u00e9 o melhor sem olhar \u00e0quilo que \u00e9 o bem de todos. Foram port\u00f5es fechados pelos pais porque o Governo devia construir aqui outra escola e n\u00f3s n\u00e3o temos rendimentos para mandar os filhos para outro lado&#8230; mesmo que o outro lado n\u00e3o seja muito longe desta aldeia; vimos crian\u00e7as do s\u00e9timo ano transformadas em professores porque a nossa escola \u00e9 a melhor, o nosso projecto reconhecido e o senhor ministro tem de vir c\u00e1&#8230; se n\u00e3o, as crian\u00e7as v\u00e3o continuar assim; vimos pais sem dinheiro para comprarem tantos livros, que mudam em cada ano e s\u00e3o \u00e0s dezenas em cada disciplina; vimos ministros e secret\u00e1rios para quem tudo se vai resolver e \u00e0 \u00faltima hora cortam no or\u00e7amento que antes tinha sido aprovado com as escolas particulares; vimos reitores que n\u00e3o assumem as propinas porque n\u00e3o se querem comprometer. Vimos, enfim, crian\u00e7as com discursos de adultos e pais a falarem como crian\u00e7as num pa\u00eds onde toda a gente sabe de tudo, fala de tudo, tudo critica e todos em nome da compet\u00eancia que a seus olhos julgam possuir.<\/p>\n<p>O mundo da escola \u00e9 o mundo dos sonhos e da utopia que se realiza em cada ano e se transporta em cada sacola e se abre para a vida quando um professor a desperta e descobre em cada letra, n\u00famero ou experi\u00eancia. Nunca est\u00e1 feito porque \u00e9 projecto; nunca \u00e9 perfeito porque \u00e9 constru\u00e7\u00e3o; nunca \u00e9 meu porque  \u00e9 um espa\u00e7o de confronto entre o passado e o futuro num hoje que \u00e9 o presente. <\/p>\n<p>Se houve tempos em que o ensino se centrou na figura do professor que do alto da sua c\u00e1tedra tudo comandava, outros houve (e h\u00e1) em que os alunos imperavam e em nome deles e dos poss\u00edveis traumatismos, muitas ofensas ficaram sem desculpas e muita ignor\u00e2ncia ganhou foros de esperteza. Hoje, os tempos est\u00e3o mais calmos e chegou a hora de centrarmos a escola no ensino \u2013 como dizia, h\u00e1 dias, um professor \u2013 sem esquecer o aluno como centro e raz\u00e3o de ser  da Escola, mas tamb\u00e9m o professor e o auxiliar como agentes de um processo que se faz em cada dia e em cada ano com a participa\u00e7\u00e3o de todos e tamb\u00e9m dos pais. <\/p>\n<p>Da pena dos nossos Bispos surgiu, h\u00e1 dias, um documento dirigido \u00e0 sociedade portuguesa onde definem os sete pecados sociais e falam de ego\u00edsmos, consumismos, corrup\u00e7\u00e3o, desarmonia do sistema fiscal, irresponsabilidade na estrada, comercializa\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno desportivo e exclus\u00e3o social. Sem querer comentar o documento, nem era este o espa\u00e7o ou o momento, penso faltar-lhe um oitavo pecado: a aus\u00eancia da hora do beijo. Ele \u00e9, sem d\u00favida, o motor duma escola em que a pessoa da crian\u00e7a ou do adulto \u00e9 o centro, mas uma pessoa que queremos ver feliz e esse \u00e9 o segredo da escola.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contava-me, aqui h\u00e1 dias, uma dessas almas simples pela grandeza e boas pela simplicidade, dessas que transportam as mis\u00e9rias do mundo em cada olhar e em cada gesto e fazem da vida um hino \u00e0 alegria, uma hist\u00f3ria que, se n\u00e3o fosse verdade podia ser inventada: na aldeia pobre em que viviam, uma crian\u00e7a, antes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[61],"tags":[],"class_list":["post-189","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-actualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/189","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=189"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/189\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=189"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=189"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=189"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}