{"id":18961,"date":"2012-01-11T14:34:00","date_gmt":"2012-01-11T14:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18961"},"modified":"2012-01-11T14:34:00","modified_gmt":"2012-01-11T14:34:00","slug":"diz-me-com-quem-andas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/diz-me-com-quem-andas\/","title":{"rendered":"\u00abDiz-me com quem andas&#8230;\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> O autor do que se poderia chamar \u00abDi\u00e1rio de Jo\u00e3o disc\u00edpulo de Jo\u00e3o o baptista\u00bb (mais conhecido por \u00abEvangelho de S. Jo\u00e3o\u00bb ou \u00ab4.\u00ba evangelho\u00bb) sublinha bem o fasc\u00ednio que o desconhecido Jesus exerceu sobre os primeiros disc\u00edpulos. E de boca em boca se fez a melhor publicidade. Ao longo dos tempos, surgiram hist\u00f3rias contradit\u00f3rias, umas achincalhantes, outras fogosamente apolog\u00e9ticas\u2026 e muitos escritos repercutiram estas tend\u00eancias, mesmo no mais alto n\u00edvel de especula\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e teol\u00f3gicas, ajustando-se com maior ou menor honestidade \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. O fasc\u00ednio da figura central, por\u00e9m, n\u00e3o decresceu, e as d\u00favidas, interroga\u00e7\u00f5es, desilus\u00f5es, press\u00f5es pol\u00edticas e religiosas (pr\u00f3 e contra), o \u00abcarneirismo\u00bb ou os \u00abbandeirantes\u00bb de paisagens novas\u2026 parecem ati\u00e7ar a quest\u00e3o de Jesus, juntando toda essa gente numa grande marcha: milh\u00f5es de pessoas, mais ou menos sens\u00edveis ao testemunho de Jo\u00e3o Baptista e pelo menos curiosos pelo convite de Jesus: \u00abvinde e vereis\u00bb \u2013 o verbo no futuro simboliza a f\u00e9 que se vai desenvolvendo, \u00e0 medida que a gente se aventura.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u00abcordeiro de Deus\u00bb s\u00f3 \u00e9 usada, em todo o Novo testamento, neste cap\u00edtulo do 4.\u00ba evangelho. A ter sido proferida, seria prov\u00e1vel que suscitasse nos ouvintes o paralelo com o \u00abcordeiro pascal\u00bb (\u00caxodo 12,1-28), s\u00edmbolo da reden\u00e7\u00e3o de Israel, oferecido a Deus no dia da grande marcha de todo o povo para a liberta\u00e7\u00e3o; ou com o \u00abservo de Iav\u00e9\u00bb, carregando os pecados de todo o povo (Isa\u00edas 52,13-53,12) e aceitando a morte como um cordeiro. Esta passagem de Isa\u00edas ficou presente no cristianismo como s\u00edmbolo da paix\u00e3o de Cristo. A sua resson\u00e2ncia encontra-se bem nas cartas de S. Paulo (p.ex., Romanos 3,24-26): com a morte e vida de Jesus Cristo, a humanidade deixa de estar submetida ao mal, \u00abpassando\u00bb (significado de \u00abP\u00e1scoa\u00bb) ao estado de \u00abliberta\u00e7\u00e3o\u00bb \u2013 Deus n\u00e3o nos criou para a morte (Sabedoria 1,13-15), mas para a perfeita unidade de corpo e esp\u00edrito num mundo sempre novo. O pano de fundo destas viv\u00eancias \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de Deus como amigo do ser humano, defensor da liberdade e da vida, desejoso de \u00abcriar um cora\u00e7\u00e3o novo\u00bb (Ezequiel 11,19) em todos os que \u00abd\u00e3o tempo a Deus\u00bb (como o jovem Samuel, na 1.\u00aa leitura). <\/p>\n<p>A 2.\u00aa leitura reflecte a preocupa\u00e7\u00e3o de S. Paulo por que as novas comunidades crist\u00e3s fossem exemplo de uma moral irrepreens\u00edvel. Logo desde o princ\u00edpio que a expans\u00e3o do cristianismo defrontou o problema da acultura\u00e7\u00e3o: \u00e9 preciso muito discernimento e abertura de esp\u00edrito (por outras palavras: \u00e9 preciso um esp\u00edrito genuinamente crist\u00e3o!) para respeitar e at\u00e9 tirar partido dos costumes locais e simultaneamente clarificar o n\u00facleo da \u00abboa nova\u00bb. <\/p>\n<p>Acontece que a cidade de Corinto, como outros portos do Mediterr\u00e2neo, era bem conhecida pela libertinagem e tr\u00e1fego sexual. Utilizando os seus conhecimentos e estrat\u00e9gico poder l\u00f3gico, S. Paulo p\u00f5e em cheque um dos lemas dos cor\u00edntios: \u00abTudo me \u00e9 permitido\u00bb. Sublinha que de facto o crist\u00e3o \u00e9 eminentemente livre, mas que deve usar essa liberdade para o bem da comunidade. A unidade perfeita de corpo e esp\u00edrito \u00e9 fruto de uma sexualidade orientada para o prazer da comunica\u00e7\u00e3o e de bem-fazer a todos os seres humanos \u2013 o contr\u00e1rio \u00e9 ego\u00edsmo e falta de maturidade. Por isso, o acto sexual sem aut\u00eantica comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 um acto falhado. Compete-nos criar a mais profunda uni\u00e3o poss\u00edvel com quem desejamos que seja \u00aba nossa metade\u00bb (G\u00e9nesis 2,18.24).<\/p>\n<p>Note-se, por\u00e9m, que para S. Paulo (pelo menos nas primeiras cartas, como a de hoje) e muitos dos primeiros crist\u00e3os, o \u00abfim do mundo\u00bb estava iminente. Ora se os sacerdotes do Antigo Testamento (como noutras religi\u00f5es), s\u00f3 podiam entrar oficialmente no local mais sagrado do templo, para se aproximarem do Deus Vivo, depois de se terem purificado, por meio de minuciosos rituais, de tudo aquilo que podia ser considerado indigno da perfei\u00e7\u00e3o divina, muito mais os primeiros crist\u00e3os sentiam a necessidade de profunda purifica\u00e7\u00e3o para se poderem aproximar definitivamente de Deus \u2013 da Vida sem sombra de impureza (= sem sombra de falha).<\/p>\n<p>Entre as coisas tradicionalmente consideradas indignas da perfei\u00e7\u00e3o divina, estavam sobretudo as actividades relacionadas com o sangue, nascimento, morte e sexo. Particularmente a actividade sexual, pela \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com a vida, com o amor e o prazer profundo \u2013 podia desencadear for\u00e7as poderosas e perigosas para o equil\u00edbrio do ser humano consigo pr\u00f3prio, com os outros e com Deus (este \u00abequil\u00edbrio\u00bb sabe-se que \u00e9 bom, e j\u00e1 pertencia ao n\u00facleo do pensamento religioso e filos\u00f3fico da Gr\u00e9cia cl\u00e1ssica).<\/p>\n<p>Mas os rituais tendem a ser cumpridos superficialmente, sem comprometer o fundo de n\u00f3s pr\u00f3prios. Por isso, os Profetas e notoriamente Jesus Cristo alertaram fortemente que o que mais importa \u00e9 \u00abo que nos vai no cora\u00e7\u00e3o\u00bb. <\/p>\n<p>\u00abVinde\u00bb, j\u00e1 passastes por um ritual, e a partir de agora \u00abvereis\u00bb que a \u00abaventura com Deus\u00bb n\u00e3o \u00e9 uma pris\u00e3o em que Deus \u00e9 o carcereiro. <\/p>\n<p>Valha-nos Jesus Cristo\u2026 \u2013 \u00abesse tal\u00bb que tem sido e nos pode ser apontado como algu\u00e9m que vale a pena p\u00f4r no rol dos amigos!<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt   <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-18961","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18961","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18961"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18961\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18961"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18961"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18961"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}