{"id":18978,"date":"2012-01-18T14:38:00","date_gmt":"2012-01-18T14:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18978"},"modified":"2012-01-18T14:38:00","modified_gmt":"2012-01-18T14:38:00","slug":"venham-nos-ajudar-temos-dificuldades-e-a-diocese-nao-tem-padres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/venham-nos-ajudar-temos-dificuldades-e-a-diocese-nao-tem-padres\/","title":{"rendered":"&#8220;Venham-nos ajudar. Temos dificuldades e a diocese n\u00e3o tem padres&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Passando uns breves dias em Portugal, no final de 2011, o P.e Manuel Neves, 70 anos, da Sociedade Mission\u00e1ria Boa-Nova, visitou o Correio do Vouga, acompanhado pelo P.e Pedro Jos\u00e9, que durante nove anos foi colega de miss\u00e3o no estado do Maranh\u00e3o. Cansado, como disse, mas sempre animado, o P.e Neves respira paix\u00e3o pela miss\u00e3o e defende que todas as igrejas diocesanas t\u00eam a ganhar quando incentivam os seus padres a partirem por uns anos em miss\u00e3o. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; Est\u00e1 h\u00e1 34 anos no Brasil, na diocese do Brejo, estado do Maranh\u00e3o, uma das regi\u00f5es mais pobres do pa\u00eds\u2026<\/p>\n<p>MANUEL NEVES &#8211; Sim, demo-nos bem com o povo e parece que o povo n\u00e3o se deu mal connosco. A realidade do Maranh\u00e3o \u00e9 muito adversa a tudo, \u00e0 lei, \u00e0 justi\u00e7a, a uma certa conviv\u00eancia social. Fui daqui sabendo como era aquilo por causa das telenovelas com fazendeiros e coron\u00e9is. Pensava que era tudo fic\u00e7\u00e3o. Cheguei l\u00e1 e era verdade. Ent\u00e3o, proclam\u00e1mos a liberdade no meio do povo. Fomos demasiado apressados, mas fizemos como quando se tem que arrancar um dente. Ou sai de repente ou d\u00f3i mais.<\/p>\n<p>Essa a\u00e7\u00e3o libertadora, em favor do povo, trouxe-lhe dissabores?<\/p>\n<p>Sofremos muito. Fui julgado tr\u00eas vezes. Primeiro por ser comunista, depois por ser agitadora das popula\u00e7\u00f5es. Eu era agitador porque quando era julgado levava duas ou tr\u00eas mil pessoas comigo. Aquilo era um problema para a pol\u00edcia. Em vez de eu ter medo, eles \u00e9 que ficavam amedrontados, tudo por causa dos conflitos de terra.<\/p>\n<p>O P.e Neves defendia a reforma agr\u00e1ria?<\/p>\n<p>A terra estava toda dividida por grandes fazendas, algumas de 50 mil hectares. Dentro havia pessoas que apenas tinham o direito de viver, os moradores. N\u00e3o tinham direito de ter uma \u00e1rvore sequer. Perante situa\u00e7\u00f5es destas, tivemos de enfrentar e assumir. Isto foi no princ\u00edpio. Proclam\u00e1mos a reforma agr\u00e1ria. A minha par\u00f3quia deve ser o munic\u00edpio do Maranh\u00e3o que tem mais assentamentos [aldeamentos] da reforma agr\u00e1ria. As fazendas eram tiradas dos coron\u00e9is e dadas a uma comiss\u00e3o de moradores. Agora elas t\u00eam a propriedade, mas n\u00e3o podem vender. Sen\u00e3o, passado pouco tempo est\u00e1 tudo outra vez na m\u00e3o dos coron\u00e9is.<\/p>\n<p>No entanto, os resultados da reforma ficaram um pouco aqu\u00e9m do esperado\u2026<\/p>\n<p>Eu pensava que ia dar mais do que deu, porque deram a terra, mas n\u00e3o deram condi\u00e7\u00f5es para trabalhar nela e o povo passa fome como antigamente. Est\u00e3o melhores, porque n\u00e3o pagam metade do que cultivavam. Mas n\u00e3o trabalham bem na terra. O nosso trabalho passa tamb\u00e9m por fazer reuni\u00f5es e semin\u00e1rios em que vem gente de outras dioceses e ensina a trabalhar na terra.<\/p>\n<p>Agora, desde os tempos do Lula [anterior presidente do Brasil], manda o agroneg\u00f3cio. Vieram os ga\u00fachos do sul e compraram as terras ao desbarato onde n\u00e3o havia reforma agr\u00e1ria. A minha par\u00f3quia foi totalmente invadida por quatro mil fam\u00edlias que vieram desses terrenos comprados para cultivar soja. Os novos agricultores n\u00e3o precisam de m\u00e3o-de-obra porque t\u00eam grandes m\u00e1quinas. Pulverizam de avi\u00e3o e t\u00eam tratores como nunca vi na Europa. O povo s\u00f3 teve trabalho nas fazendas da soja no primeiro ano, a limpar as terras. O povo veio para a cidade. De que \u00e9 que vive? Tamb\u00e9m me interrogo. O Maranh\u00e3o era o segundo e agora \u00e9 o estado mais pobre da federa\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>Mas na Europa h\u00e1 a ideia de que o Brasil est\u00e1 a dar um grande salto no combate \u00e0 pobreza\u2026<\/p>\n<p>Noto que houve uma melhoria. O Lua foi um bom pai para os pobres, mas foi uma boa e generosa m\u00e3e para ao ricos. Ele p\u00f4s energia em todo o interior, ajudou os bancos, o agroneg\u00f3cio, paga 80 reais por cada filho das fam\u00edlias pobres, paga 2000 reais por cada parto que a Igreja lhe faz. Arranjou as estradas. Foi um homem que nunca se afastou da base, continuou muito sens\u00edvel \u00e0 problem\u00e1tica da m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o social. Tirou 30 milh\u00f5es de pessoas da mis\u00e9ria para a classe m\u00e9dia. Os professores da minha par\u00f3quia quase todos t\u00eam carro. Vive-me muito melhor. Quando cheguei ao Brasil, andava de burro. O burro era t\u00e3o pequeno que os meus p\u00e9s tocavam no ch\u00e3o e estragava os sapatos. Depois arranjei uma bicicleta. Depois comprei uma moto. Agora ando de carro e o povo tamb\u00e9m, gra\u00e7as a Deus.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco tempo, os mission\u00e1rios da Boa Nova tiveram que deixar algumas par\u00f3quias\u2026<\/p>\n<p>T\u00ednhamos tr\u00eas par\u00f3quias na diocese de Coroat\u00e1 e cinco na diocese do Brejo. Mas tivemos que deixar algumas. Se eu tenho uma palavra a dizer \u00e9 um grande agradecimento ao P.e Pedro Jos\u00e9 [atual vig\u00e1rio paroquial da Gafanha da Nazar\u00e9 e da Encarna\u00e7\u00e3o] e a D. Ant\u00f3nio Marcelino. O D. Ant\u00f3nio Marcelino teve um projeto para que a diocese de Aveiro tivesse sempre uma presen\u00e7a de mission\u00e1rios. Ultimamente isso acabou porque voc\u00eas t\u00eam muita necessidade. Mas a miss\u00e3o de Igreja n\u00e3o \u00e9 como o fado, que precisa de uma aprova\u00e7\u00e3o l\u00e1 longe para n\u00f3s o estimarmos aqui. Est\u00e1 na ess\u00eancia da pr\u00f3pria Igreja. A miss\u00e3o \u201cad gentes\u201d n\u00e3o empobrece nenhuma diocese. A Santa S\u00e9 e o n\u00fancio v\u00eam buscar gente ao nosso instituto para p\u00f4r nas dioceses [refer\u00eancia a D. Ant\u00f3nio Couto, novo bispo de Lamego, que era padre da Boa Nova]\u2026. Tivemos que deixar quatro par\u00f3quias. Agora s\u00f3 temos duas. Chapadinha e outra a 110 quil\u00f3metros, entregue a outro padre do nosso instituto, Santa Quit\u00e9ria.<\/p>\n<p>Quantas pessoas tem, afinal, a sua par\u00f3quia?<\/p>\n<p>Quando cheguei tinha 45 mil pessoas, agora tem 100 mil. E n\u00f3s, padres, estamos velhos. Temos no interior 127 comunidades, isto \u00e9, grupinhos, uns pequenos e outros grandes, que temos de visitar pelo menos duas vezes por ano. A par\u00f3quia tem 170 quil\u00f3metros de comprimento de e 60 de largura. O D. Ant\u00f3nio Couto vai ter uma diocese com 130 mil habitantes\u2026 <\/p>\n<p>Como \u00e9 a realidade pastoral?<\/p>\n<p>O brasileiro \u00e9 um homem festivo. O europeu \u00e9 laborioso. Gostam muito de correr a plantar um pau de mandioca e depois ficam na varanda a olhar para o pau de mandioca a crescer. Quantas vezes passo por algu\u00e9m e lhe pergunto porque j\u00e1 est\u00e1 sentado pela manh\u00e3\u2026 Ele responde-me que est\u00e1 cansado porque o sono da noite foi intenso.<\/p>\n<p>De que \u00e9 que aquele povo vive? H\u00e1 muita gente que faz uma refei\u00e7\u00e3o s\u00f3 de farinha de pau [mandioca] para dar algum arroz aos filhos. <\/p>\n<p>A realidade pastoral tamb\u00e9m mudou muito em comunidade. Na cidade, como veio muita gente do interior, constru\u00edmos muitas igrejas. Ao princ\u00edpio tinham 26 metros por 9. Agora fa\u00e7o-as a 35 por 13 metro. Fiz quatro nestes \u00faltimos dois anos.<\/p>\n<p>O P.e Neves \u00e9 que faz as igrejas? Quem as projeta?<\/p>\n<p>Temos umas 95 capelas feitas de tijolo e cobertas com telha. Na cidade temos 18 igrejas. Uma igreja com 13 por 35 metros \u00e9 muito grande. Gra\u00e7as a Deus, enchem-se. Eu fa\u00e7o aquilo depressa. N\u00e3o tem arquitetura. Fiz uma e deu certo. Agora s\u00f3 lhe mudo a frente, de resto \u00e9 um barrac\u00e3o. Se eu fosse a demorar muito\u2026 Comiss\u00e3o de arte sacra? Nem arte nem muita sacralidade. Faz-se muito depressa para n\u00e3o chegar o tempo do paisag\u00edstico, do arquiteto, do engenheiro. O arquiteto e o engenheiro sou eu. O que a gente quer \u00e9 um espa\u00e7o grande para o povo reunir-se, e que tenha uma boa ventila\u00e7\u00e3o e bancos. L\u00e1 a liturgia \u00e9 vivida. O povo ri. Faz perguntas&#8230;<\/p>\n<p>Ainda sobre as igrejas, como arranja o dinheiro para as construir?<\/p>\n<p>O povo \u00e9 pobre, mas tamb\u00e9m n\u00e3o quero levar muito dinheiro daqui de Portugal. N\u00e3o quero andar por aqui a pedir. Eu costumo dizer-lhes: \u201cVou fazer esta igreja. Vou precisar de 100 mil reais (40 mil euros), mas j\u00e1 h\u00e1 esse dinheiro. Esse dinheiro j\u00e1 existe. S\u00f3 tem um problema: \u00e9 que eu tenho de tir\u00e1-lo do vosso bolso\u201d. Na brincadeira, na brincadeira, tenho levado o povo a colaborar. Os pobres s\u00e3o mais generosos do que os ricos. Os ricos ficam logo todos atrapalhados, os pobres ajudam. Fazem um leil\u00e3o, uma festinha, um bingo, vendem doces e comida t\u00edpica\u2026<\/p>\n<p>Venham-nos ajudar. Temos dificuldades e a diocese n\u00e3o tem padres. N\u00f3s, mission\u00e1rios da Boa Nova, quer\u00edamos deixar as par\u00f3quias. Est\u00e3o a faltar as for\u00e7as. Temos 70, 72, 82 anos, o que vamos fazer? Dividir a par\u00f3quia? Mas entregar a quem?<\/p>\n<p>O P.e Neves insiste no apelo. O que pode oferecer a miss\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 um povo que aceita bem, temos a pastoral familiar, da juventude, da crian\u00e7a, e a pastoral do sentadinho, que consiste em sentar e falar ao cora\u00e7\u00e3o. Sendo um povo afetuoso, gosta que se lhe d\u00ea import\u00e2ncia. <\/p>\n<p>\u00c9 um povo desprendido. Quando querem mudar de resid\u00eancia, basta uma carro\u00e7a para levar tudo e ainda levam tr\u00eas ou quatro filhos em cima. Adere ao Evangelho com mais facilidade? Talvez. Passamos pela mata e vemos tanta pobreza, mas chegam \u00e0 igreja e s\u00e3o a coisa mais alegre, cantam, dan\u00e7am\u2026<\/p>\n<p>No Brasil, a Igreja \u00e9 mais laical, mais leve, n\u00e3o \u00e9 de cimento. Vive-se a f\u00e9, com os olhos na realidade. Os padres t\u00eam \u00e9 que se preocupar com a forma\u00e7\u00e3o dos leigos para agentes da pastoral e presidentes das comunidades lit\u00fargicas. H\u00e1 pouco tempo fomos \u00e0 rua: 10 mil pessoas contra o aborto e o casamento gay. O povo n\u00e3o concorda, embora mais tarde ou mais cedo o casamento gay seja aprovado. A Igreja \u00e9 mais comprometida, mais ativa, mais atenta \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 de comida. \u201cBarriga de padre \u00e9 cemit\u00e9rio de galinha\u201d, costumo dizer. Eles tratam-nos bem. Mas \u00e9 o cansa\u00e7o, o carro que atola, as dist\u00e2ncias e os caminhos n\u00e3o cuidados. Vamos e ficamos abandonados. O \u00fanico bispo que nos visitou foi D. Ant\u00f3nio Marcelino. Visitou-nos e animou-nos. O povo ficou muito admirado.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o faz bem \u00e0s igrejas que enviam?<\/p>\n<p>Sem d\u00favida que faria bem aos padres e \u00e0s comunidades de c\u00e1. Partir exige um pouco de aventura. Deixar a terra, a cultura, a l\u00edngua, a maneira de ver a Igreja. Mas entramos em contacto com uma realidade mais animadora, mais jovem. Isso poderia dar um certo impulso \u00e0s comunidades de c\u00e1. Tudo \u00e9 miss\u00e3o, claro que \u00e9, mas o ir tamb\u00e9m anima muito os que c\u00e1 ficam. Os bispos \u00e0s vezes dispensam um padre, mas depois arrependem-se como se isso fosse pecado. Mas \u00e9 uma virtude que se deveria impor a todos os bispos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passando uns breves dias em Portugal, no final de 2011, o P.e Manuel Neves, 70 anos, da Sociedade Mission\u00e1ria Boa-Nova, visitou o Correio do Vouga, acompanhado pelo P.e Pedro Jos\u00e9, que durante nove anos foi colega de miss\u00e3o no estado do Maranh\u00e3o. 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