{"id":19022,"date":"2012-01-18T15:56:00","date_gmt":"2012-01-18T15:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19022"},"modified":"2012-01-18T15:56:00","modified_gmt":"2012-01-18T15:56:00","slug":"precisamos-de-conversar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/precisamos-de-conversar\/","title":{"rendered":"Precisamos de conversar"},"content":{"rendered":"<p>Cat\u00f3licos do Reino e cat\u00f3licos da Comunh\u00e3o (2) <!--more--> As divis\u00f5es dentro da pr\u00f3pria Igreja cat\u00f3lica, que segundo a designa\u00e7\u00e3o de Timothy Radcliffe s\u00e3o entre os cat\u00f3licos do Reino e os da Comunh\u00e3o (ver CV da semana passada), n\u00e3o fizeram parar de respirar o Corpo de Cristo, mas deram-lhe, pelo menos, alguns \u201cataques de asma\u201d. Diz o frade dominicano que precisamos de aprender a respirar facilmente, que temos de curar as feridas do Corpo de Cristo. Tal tarefa, como explica no cap\u00edtulo 10 do seu livro \u201cSer crist\u00e3o para qu\u00ea?\u201d (ed. Paulinas), assemelha-se \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de pandas, tarefa dific\u00edlima, morosa \u2013 por isso \u00e9 que s\u00e3o raros.<\/p>\n<p>Por que \u00e9 que internamente os crist\u00e3os est\u00e3o divididos? Entre outras raz\u00f5es, porque as tens\u00f5es da sociedade, como \u00e9 inevit\u00e1vel, fazem-se sentir nas comunidades crist\u00e3s. Por outro lado, h\u00e1 como que um v\u00edrus de intoler\u00e2ncia que em vez de levar ambas as partes a dialogar, a tentar perceber, a querer esclarecer, leva \u00e0 condena\u00e7\u00e3o, \u00e0 exclus\u00e3o, a fechar portas na cara. Nem sempre assim foi. Timothy Radcliffe diz que foi a partir da Guerra dos Trinta Anos, no s\u00e9c. XVII, uma guerra entre cat\u00f3licos e protestantes, no centro da Europa, que o medo de falar entrou nas igrejas, quer cat\u00f3lica, quer protestantes. A partir de ent\u00e3o, \u201ctodo aquele que levantasse quest\u00f5es ou conservasse algumas d\u00favidas estava a subverter a causa comum\u201d. Na Idade M\u00e9dia n\u00e3o era assim. Contra a ideia que predomina sobre esse tempos, qualquer tese, por muito disparatada que fosse, obtinha amplo espa\u00e7o de discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, as dificuldades do di\u00e1logo persistem. H\u00e1 muitas mensagens, \u00e9 certo. Mas pouca comunica\u00e7\u00e3o. Muitos falam, alguns ouvem, poucos respondem, ainda menos dialogam. \u201cPor todos os lados, exercem-se press\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o de comunidades dos que pensam da mesma maneira\u201d. Um dos sintomas \u00e9 a \u201csubida do politicamente correto\u201d. \u201cFrequentemente a discuss\u00e3o \u00e9 proibida, n\u00e3o por causa do que \u00e9 dito, mas por causa do que se possa julgar que se quer dizer ou que possa ser utilizado para defender uma posi\u00e7\u00e3o de facto inaceit\u00e1vel\u201d. Ora, \u201ca Igreja tem de tornar-se um espa\u00e7o de uma liberdade provocadora, no qual ousamos lan\u00e7ar ideias, p\u00f4r \u00e0 prova hip\u00f3teses, afirmar uma verdade inc\u00f3moda e impopular, dizer ao rei que vai nu ou ouvir dizer que n\u00f3s \u00e9 que estamos nus. Nunca nos poderemos aproximar do mist\u00e9rio se n\u00e3o tivermos a l\u00fadica liberdade dos filhos de Deus, se n\u00e3o fizermos experi\u00eancias e errarmos e avan\u00e7armos \u00e0s apalpadelas para a verdade. (\u2026) Os crist\u00e3os deveriam ser aqueles que continuam a levantar quest\u00f5es, quando todos os outros pararam de o fazer\u201d.<\/p>\n<p>O antigo mestre geral dos frades dominicanos prop\u00f5e alguns princ\u00edpios para saber lidar com as tens\u00f5es e polariza\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; \u201cDevo alegrar-me com a diferen\u00e7a, v\u00ea-la como um outro lugar para estar de p\u00e9 e olhar para o alto\u201d, at\u00e9 porque \u201ca largueza de Deus \u00e9 mais entusiasmante do que a mera indiferen\u00e7a\u201d. A natureza ajuda a perceber isto. \u201cPara um acasalamento ter sucesso, \u00e9 preciso haver diferen\u00e7a, mas n\u00e3o uma incompatibilidade radical. N\u00e3o se pode fazer procriar ovelhas e bodes uns com os outros. Se cavalos e burros acasalam, s\u00f3 conseguem produzir mulas infecundas\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Ultrapassar o medo. \u201cO medo nunca \u00e9 \u00fatil \u00e0 prossecu\u00e7\u00e3o da verdade. \u00c9 da responsabilidade da ortodoxia n\u00e3o deixar que o p\u00e2nico suprima a reflex\u00e3o, ter a coragem de impedir condena\u00e7\u00f5es prematuras e assegurar que lhe damos o tempo necess\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Encontrar lugares para falar. \u201cPrecisamos de lugares onde se possa falar sem medo e sem preconceitos. Podemos ter necessidade de nos zangarmos uns com os outros e ainda haver tempo para nos reconciliarmos\u201d. \u201cPrecisamos tamb\u00e9m de muitas pequenas iniciativas a n\u00edvel diocesano e paroquial. (\u2026) Precisamos de muitas mais que abram espa\u00e7os e lugares nos quais possamos falar livremente com os que s\u00e3o diferentes e sermos f\u00e9rteis. Precisamos de criatividade institucional\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Precisamos de l\u00edderes, mas aten\u00e7\u00e3o que \u201ca lideran\u00e7a \u00e9 a tarefa de todo o crist\u00e3o batizado\u201d. \u201cA \u00fanica compreens\u00e3o da lideran\u00e7a crist\u00e3 que acho estar de acordo com o Evangelho \u00e9 a obriga\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s dar o primeiro passo\u201d. \u201cA grande virtude de que necessitamos hoje, na Igreja, \u00e9 a coragem de avan\u00e7ar, de tomar iniciativas, de pedir perd\u00e3o, de procurar dar aten\u00e7\u00e3o mesmo \u00e0queles que nos condenam. \u00c9 mais f\u00e1cil e mais seguro censurar os outros, em especial a hierarquia\u201d. \u201cTalvez gostemos de ter sempre alguma coisa de que nos possamos queixar. \u00c9 mais seguro do que correr o risco de avan\u00e7ar e arriscarmo-nos a ser feridos\u201d.<\/p>\n<p>Se seguirmos estas linhas, porque \u201co Esp\u00edrito Santo \u00e9 derramado sobre n\u00f3s para fazermos algo de novo\u201d, \u201cpodemos at\u00e9 ser mais criativos do que os pandas\u201d. E a Igreja \u201cser\u00e1 um melhor sinal da unidade de todo o g\u00e9nero humano em Cristo\u201d.<\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cat\u00f3licos do Reino e cat\u00f3licos da Comunh\u00e3o (2)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-19022","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19022","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19022"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19022\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19022"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19022"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19022"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}