{"id":19092,"date":"2011-01-26T10:25:00","date_gmt":"2011-01-26T10:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19092"},"modified":"2011-01-26T10:25:00","modified_gmt":"2011-01-26T10:25:00","slug":"cinco-perguntas-e-respostas-de-introducao-a-teologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/cinco-perguntas-e-respostas-de-introducao-a-teologia\/","title":{"rendered":"Cinco perguntas e respostas de Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Teologia"},"content":{"rendered":"<p>Pode haver te\u00f3logos ateus?<\/p>\n<p>Sim, claro que os h\u00e1, como tamb\u00e9m j\u00e1 houve papas \u00edmpios e moralmente conden\u00e1veis. Mas em rigor, a teologia crist\u00e3 implica a f\u00e9 de quem a faz e ensina ou estuda. Segundo a defini\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, teologia \u00e9 a busca de uma compreens\u00e3o racional, enquanto for poss\u00edvel, do mist\u00e9rio da Revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Isto pressup\u00f5e, \u00e0 partida, que se aceita a Revela\u00e7\u00e3o, ou seja, que Deus se revela, se comunica. Ora, aceitar a Revela\u00e7\u00e3o \u00e9 ter f\u00e9.<\/p>\n<p>A teologia \u00e9 o esfor\u00e7o humano, racional, \u00e0 volta desta Revela\u00e7\u00e3o &#8211; facto primordial e fundamental do cristianismo. Se se o nega a Revela\u00e7\u00e3o, nega-se a possibilidade da teologia crist\u00e3. Em rigor, n\u00e3o \u00e9 l\u00f3gico admitir a Revela\u00e7\u00e3o (a comunica\u00e7\u00e3o de Deus) e, ao mesmo tempo, n\u00e3o ter f\u00e9. <\/p>\n<p>Por outro lado, seguindo uma c\u00e9lebre express\u00e3o latina, quando a \u201cfides quaerens intellectum\u201d (\u201ca f\u00e9 busca a inteligibilidade\u201d), acontece teologia. Podemos simplificar que primeiro existe o crer (a vida crist\u00e3) e depois surge o reflectir sobre esse crer (a teologia). Mais uma vez, n\u00e3o faz sentido teologia sem f\u00e9.<\/p>\n<p>No entanto pode haver, como certamente h\u00e1, especialistas em religi\u00f5es ou em hist\u00f3ria da teologia, por exemplo, que n\u00e3o s\u00e3o crentes. Em alguns contextos, pensemos em pa\u00edses como a Alemanha, onde a teologia cat\u00f3lica est\u00e1 presente em universidades estatais, \u00e9 poss\u00edvel, pelo menos teoricamente, fazer uma carreira acad\u00e9mica na teologia sem ter f\u00e9. Mas a sanidade mental \u00e9 capaz de ficar um bocado afectada&#8230;<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito da liga\u00e7\u00e3o teologia-Esp\u00edrito-vida, vale a pena recordar as palavras de Bento XVI aos alunos da Universidade Gregoriana (Roma), no dia 3 de Novembro de 2006:<\/p>\n<p>\u201cDe facto, o objecto imediato da ci\u00eancia teol\u00f3gico \u00e9 o pr\u00f3prio Deus, revelado em Jesus Cristo. (\u2026) N\u00e3o basta por\u00e9m, conhecer Deus; para pod\u00ea-lo realmente encontrar, \u00e9 preciso tamb\u00e9m am\u00e1-lo. O conhecimento deve tornar-se amor. O estudo da Teologia, do Direito Can\u00f3nico e da Hist\u00f3ria da Igreja n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 conhecimento das proposi\u00e7\u00f5es da f\u00e9 na sua formula\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, e na sua aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, mas \u00e9 sempre tamb\u00e9m intelig\u00eancia dessas mesmas, na f\u00e9, na esperan\u00e7a e na caridade. S\u00f3 o Esp\u00edrito perscruta as profundidades de Deus; portanto, s\u00f3 na escuta do Esp\u00edrito se pode perscrutar a profundidade da riqueza, da sapi\u00eancia e da ci\u00eancia de Deus\u201d.<\/p>\n<p>Qual o conceito fundamental <\/p>\n<p>da teologia?<\/p>\n<p>O conceito fundamental da teologia \u00e9 a Revela\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a autocomunica\u00e7\u00e3o de Deus \u00e0 humanidade e a toda a Cria\u00e7\u00e3o, Revela\u00e7\u00e3o essa que tem um ponto m\u00e1ximo em Jesus Cristo. A Revela\u00e7\u00e3o significa que Algu\u00e9m se revela (Deus) e que algu\u00e9m acolhe a Revela\u00e7\u00e3o (o ser humano). N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o h\u00e1 um abismo intranspon\u00edvel entre Deus e o ser humano, como este tem capacidade para acolher o divino \u2013 o que \u00e9 negado \u00e0 partida por ateus e agn\u00f3sticos. \u00c9 a partir deste conceito fundamental que surge o m\u00e9todo da teologia, chamado precisamente \u201cm\u00e9todo da releva\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Os m\u00e9todos, nas ci\u00eancias, s\u00e3o, por assim dizer, caminhos para construir o conhecimento. Tal como as ci\u00eancias positivas t\u00eam um m\u00e9todo (o m\u00e9todo experimental, feito de observa\u00e7\u00f5es, que levam a lan\u00e7ar hip\u00f3teses, que s\u00e3o testadas em experi\u00eancias e que d\u00e3o origem a teorias), a teologia descobre e constr\u00f3i o seu conhecimento escutando a Releva\u00e7\u00e3o (\u201cauditus fidei\u201d), nomeadamente a Escritura e a Tradi\u00e7\u00e3o, e inquirindo-a com uma racionalidade crente (\u201cintellectus fidei\u201d), o que implica, por exemplo, o confronto com os outros campos do saber. Conv\u00e9m ressalvar, no entanto, que a linguagem da teologia \u00e9 anal\u00f3gica, isto \u00e9, afirma a semelhan\u00e7a entre Deus e a criatura a partir da enorme diferen\u00e7a. Deus est\u00e1 sempre para al\u00e9m dos nossos conceitos humanos. A humildade tem de ser uma atitude conatural \u00e0 teologia e aos te\u00f3logos.<\/p>\n<p>H\u00e1 modelos para os te\u00f3logos?<\/p>\n<p>Os grandes modelos dos te\u00f3logos s\u00e3o os Padres da Igreja, isto \u00e9, os grandes mestres dos s\u00e9culos II a VII (no Ocidente, o \u00faltimo \u00e9 Isidoro de Sevilha) ou VIII (no Oriente, o \u00faltimo \u00e9 Jo\u00e3o Damasceno). Nenhum deles em vida foi reconhecido como te\u00f3logo, porque os termos \u201cte\u00f3logo\u201d e \u201cteologia\u201d, com o sentido actual, s\u00e3o do s\u00e9culo XII, do tempo do professor parisiense Pedro Abelardo. <\/p>\n<p>A Igreja apresenta-os como modelos por causa de algumas caracter\u00edsticas: ortodoxia do seu pensamento; santidade das suas vidas; rela\u00e7\u00e3o com a Escritura; interesse pela vida do dia-a-dia; confronto com a cultura ambiente, especialmente a prestigiada filosofia grega; riqueza e criatividade de pensamento.<\/p>\n<p>H\u00e1 oito grandes Padres da Igreja que se destacam de entre os outros: Greg\u00f3rio Magno, Ambr\u00f3sio de Mil\u00e3o, Agostinho de Hipona e Jer\u00f3nimo (os chamados \u201cquatro doutores do Ocidente\u201d; escreviam em latim); e Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, Bas\u00edlio de Cesareia, Greg\u00f3rio de Nazianzo e Atan\u00e1sio de Alexandria (\u201cquatro doutores do Oriente\u201d; escreviam em grego). Refira-se que nem todos os Padres da Igreja era eclesi\u00e1sticos. H\u00e1 leigos entre eles. Mas n\u00e3o h\u00e1 nenhuma mulher.<\/p>\n<p>O que \u00e9 um doutor da Igreja?<\/p>\n<p>Os doutores da Igreja s\u00e3o homens e mulheres que nas suas prega\u00e7\u00f5es e escritos deixaram contributos importante para a f\u00e9 e reflex\u00e3o crist\u00e3 e, consequentemente, para a teologia. O t\u00edtulo de doutor \u00e9 atribu\u00eddo pelo Papa. Al\u00e9m dos oito referidos no ponto anterior, h\u00e1 mais 25. Ou seja, s\u00e3o 33 ao todo.<\/p>\n<p>Ei-los, os 25 restantes, pela ordem de proclama\u00e7\u00e3o papal: Tom\u00e1s de Aquino; Boaventura de Bagnoregio, Anselmo de Cantu\u00e1ria, Isidoro de Sevilha; Pedro Cris\u00f3logo; Le\u00e3o Magno; Pedro Dami\u00e3o; Bernardo de Claraval; Hil\u00e1rio de Poitiers; Afonso de Lig\u00f3rio; Francisco de Sales; Cirilo de Alexandria; Cirilo de Jerusal\u00e9m; Jo\u00e3o Damasceno; Beda, o Vener\u00e1vel; Efr\u00e9m da S\u00edria; Pedro Can\u00edsio; Jo\u00e3o da Cruz; Roberto Belarmino; Alberto Magno; Ant\u00f3nio de Lisboa; Louren\u00e7o de Brindisi; Teresa de \u00c1vila; Catarina de Siena; e Teresa de Lisieux.<\/p>\n<p>Note-se a exist\u00eancia de um portugu\u00eas (S.to Ant\u00f3nio). Os tr\u00eas \u00faltimos nomeados s\u00e3o mulheres: duas carmelitas (Teresa de \u00c1vila, nomeada por Paulo VI em 1970; e St. Teresinha, nomeada por Jo\u00e3o Paulo II em 1997) e uma leiga (Catarina de Sena, nomeada por Paulo VI em 1970).<\/p>\n<p>Para que serve hoje a teologia?<\/p>\n<p>Serve, como sempre serviu, para reflectir sobre o que cremos, por que cremos, como cremos, para que cremos.<\/p>\n<p>Na enc\u00edclica de 1998 \u201cFides et Ratio\u201d, de Jo\u00e3o Paulo II (uma piada: a enc\u00edclica ficou tamb\u00e9m conhecida por \u201cFisichella et Ratzinger\u201d, por terem sido estes os dois te\u00f3logos a dar-lhe forma), apontam-se especialmente duas \u201ctarefas actuais\u201d: por um lado, \u201crenovar metodologias, tendo em vista um servi\u00e7o mais eficaz \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d; por outro, \u201cmanter o olhar fixo sobre a verdade \u00faltima que lhe foi confiada por meio da Revela\u00e7\u00e3o\u201d, sem receio de a apresentar ao mundo no tempo erosivo em que vivemos.<\/p>\n<p>\u00c9 na teologia, necessariamente, que se pode e deve dar o encontro entre os diversos saberes e racionalidades. A teologia e os te\u00f3logos t\u00eam, por isso, um papel inquestion\u00e1vel de di\u00e1logo (aprendizagem, questionamento, debate, interpela\u00e7\u00e3o) com as culturas, as artes, as ci\u00eancia. Algu\u00e9m chamou a isso \u201cpastoral da intelig\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Respostas de Ant\u00f3nio Jorge <\/p>\n<p>Pires Ferreira, professor de Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Teologia no ISCRA.<\/p>\n<p>P\u00e1gina da responsabilidade do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA). Sai na 4.\u00aa quarta-feira de cada m\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pode haver te\u00f3logos ateus? Sim, claro que os h\u00e1, como tamb\u00e9m j\u00e1 houve papas \u00edmpios e moralmente conden\u00e1veis. Mas em rigor, a teologia crist\u00e3 implica a f\u00e9 de quem a faz e ensina ou estuda. 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