{"id":19174,"date":"2012-02-02T10:29:00","date_gmt":"2012-02-02T10:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19174"},"modified":"2012-02-02T10:29:00","modified_gmt":"2012-02-02T10:29:00","slug":"furia-de-viver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/furia-de-viver\/","title":{"rendered":"\u00abF\u00faria de viver\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> H\u00e1 quem defina a esp\u00e9cie humana como um conjunto de \u00abanimais doentes\u00bb. De acordo com as regras de classifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o seria prefer\u00edvel dizer \u00abanimais cur\u00e1veis\u00bb?<\/p>\n<p>\u00abDoente\u00bb \u00e9 um adjectivo indicador de sujei\u00e7\u00e3o a um estado. \u00abCur\u00e1vel\u00bb aponta para a capacidade de cura. Ora que tem feito o ser humano ao longo da sua hist\u00f3ria, sen\u00e3o desenvolver t\u00e9cnicas \u00abmilagrosas\u00bb, n\u00e3o s\u00f3 para combater a doen\u00e7a como para aumentar o n\u00edvel e a variedade de qualidade de vida (embora com uma justi\u00e7a ainda pouco liberta de \u00abdoen\u00e7as cr\u00f3nicas\u00bb)?<\/p>\n<p> \u00abT\u00e9cnica\u00bb e \u00abarte\u00bb (cujo significado fundamental se sobrep\u00f5e) s\u00e3o dois termos extremamente anal\u00f3gicos, ricos de conota\u00e7\u00f5es e de deriva\u00e7\u00f5es, remontando \u00e0 mais alta estirpe etimol\u00f3gica: a raiz indo-europeia teks significa \u00abfabricar, tecer\u00bb enquanto que ar remete para harmonia, originalidade, ritmo e rito\u2026 com o sentido geral de adapta\u00e7\u00e3o e actividade (donde \u00abinerte\u00bb, por oposi\u00e7\u00e3o). Ambas se referem ao \u00absaber fazer\u00bb exclusivo da esp\u00e9cie humana, que a distancia positivamente do que se concebe geralmente por \u00abnatureza\u00bb. <\/p>\n<p>Tendencialmente, por\u00e9m, \u00abt\u00e9cnica\u00bb aplica-se aos meios e processos \u00abobjectivos\u00bb do fazer, enquanto \u00abarte\u00bb se estende para a capacidade \u00absubjectiva\u00bb de fazer e criar.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica rege-se mais pela \u00abordem\u00bb (do mesmo radical de arte \u2013  ar) enquanto a arte gera o mundo fant\u00e1stico da originalidade (e des-ordem e sinfonias dissonantes&#8230;).<\/p>\n<p>Mas s\u00e3o duas faces da insatisfa\u00e7\u00e3o humana, da provoca\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, do equil\u00edbrio inst\u00e1vel da longa cadeia de vida humana. Insatisfa\u00e7\u00e3o que leva \u00e0 \u00abf\u00faria de viver\u00bb protagonizada pelo m\u00edtico James Dean num filme cujo t\u00edtulo original, mais \u00e0 letra, poderia ser \u00abrebeldia pura\u00bb (data de 1955 e ficou entre os cem melhores de Hollywood, com um tema de todos os tempos \u2013 \u00abF\u00faria de viver\u00bb \u00e9 t\u00edtulo de v\u00e1rias telenovelas europeias). <\/p>\n<p>A arte, porque tem paix\u00e3o, porque tem alma, porque facilmente entra em atritos com institu\u00eddas \u00abregras do bem fazer\u00bb (a tal \u00ablei sem esp\u00edrito\u00bb), \u00e9 facilmente acusada de desordem. Mas, em harmonia com a t\u00e9cnica, aproveita ao m\u00e1ximo a fonte inesgot\u00e1vel de energia renov\u00e1vel que \u00e9 a afectividade: \u00e9 esta energia que d\u00e1 beleza ao mundo e sabor ao agir humano; \u00e9 a energia que pode resistir e at\u00e9 transformar as epidemias de cegueira e injusti\u00e7a desencadeadas por gente que tem poder.<\/p>\n<p>E para que a t\u00e9cnica n\u00e3o seja cega e n\u00e3o caia no abismo, a arte descobre horizontes novos donde possa contemplar toda a longa hist\u00f3ria dos horizontes humanos. Para que o tratamento n\u00e3o degenere em infec\u00e7\u00f5es mais graves.<\/p>\n<p>Do lend\u00e1rio Job (1.\u00aa leitura) conhecemos a grande riqueza transformada em desgra\u00e7a total. Porque o Tentador do equil\u00edbrio humano o queria p\u00f4r \u00e0 prova: seria capaz de se manter na corda bamba? Mas nem era preciso transform\u00e1-lo num monte de chagas e de mis\u00e9ria: bastaria enlouquec\u00ea-lo, como testemunha o texto de hoje, com a ang\u00fastia da solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Solid\u00e3o exacerbada pela presen\u00e7a de pretensos amigos, que mais pareciam sugar a pouca energia que lhe restava. Nem doutra maneira parecia agir o pr\u00f3prio Deus \u2013 o grande quebra-cabe\u00e7as para quem nele quer pensar.<\/p>\n<p>Job, por\u00e9m, n\u00e3o quis perder a voz. Gritou, desde h\u00e1 mil\u00e9nios atr\u00e1s, a revolta contra Deus e contra a falsidade humana; proclamou o desequil\u00edbrio e a injusti\u00e7a da vida e como todas as coisas do nosso universo s\u00e3o falhas de consist\u00eancia.<\/p>\n<p>Era o \u00abevangelho\u00bb nascido da dor, a \u00abboa nova\u00bb de que o Homem n\u00e3o \u00e9 joguete de um Deus que premeia ou castiga \u2013 mas que cada um de n\u00f3s pode escolher ir de bra\u00e7o dado com Deus, mesmo que este pare\u00e7a \u00abcoxo, cego e surdo\u00bb.<\/p>\n<p>Estranho \u00abquebra-cabe\u00e7as\u00bb que nos incita a \u00abevangelizar\u00bb (2.\u00aa leitura):<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o porque eu me sinta bem \u2013 mas porque \u00ab\u00e9 bom\u00bb faz\u00ea-lo;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o porque digam bem de mim \u2013 mas porque quero o bem dos outros;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o porque tenha lucros \u2013 mas porque acredito na bondade dos outros;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o porque tenha for\u00e7a \u2013 mas porque acredito que a for\u00e7a n\u00e3o me falta;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o porque saiba claramente o que devo fazer \u2013 mas porque me preparo para fazer o que fundamentadamente julgo ser melhor.<\/p>\n<p>Que \u00e9 tudo isto sen\u00e3o um n\u00famero prodigioso de equilibrista?<\/p>\n<p>Para n\u00e3o cair, tenho que sentir dentro de mim o centro de gravidade \u2013 com este centro \u00e9 que me posso lan\u00e7ar na \u00abf\u00faria de viver\u00bb que me mant\u00e9m longe da \u00abin\u00e9rcia\u00bb.<\/p>\n<p>Tenho que sentir dentro de mim a fonte da sa\u00fade.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi o que fez Jesus (evangelho) depois de curar a sogra de Pedro? Retirou-se para um local onde calmamente pudesse caminhar de bra\u00e7o dado com Deus \u2013 com essa fonte de que s\u00f3 ouvimos o murm\u00fario da dist\u00e2ncia, mas que d\u00e1 sa\u00fade: porque convida a descobrir em todas as coisas \u2013 na seiva, na flor, no fruto, na folha que cai, no sol que d\u00e1 cor e na tempestade que amea\u00e7a e fortalece \u2013 a paix\u00e3o pela vida e a arte de viver.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt   <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-19174","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19174","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19174"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19174\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19174"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19174"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19174"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}