{"id":19200,"date":"2012-02-09T09:58:00","date_gmt":"2012-02-09T09:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19200"},"modified":"2012-02-09T09:58:00","modified_gmt":"2012-02-09T09:58:00","slug":"na-fazenda-da-esperanca-descobre-se-que-eu-sou-amado-e-posso-amar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/na-fazenda-da-esperanca-descobre-se-que-eu-sou-amado-e-posso-amar\/","title":{"rendered":"Na Fazenda da Esperan\u00e7a descobre-se que &#8220;eu sou amado e posso amar&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Paulo Stapel, 66 anos, padre diocesano alem\u00e3o, \u00e9 o respons\u00e1vel pela Fazenda da Esperan\u00e7a na Europa, \u00c1frica e \u00c1sia. Fala portugu\u00eas porque viveu 15 anos no Brasil, onde o seu irm\u00e3o g\u00e9meo, Fr. Hans, padre franciscano, fundou e dirige a Fazenda da Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>O que \u00e9 a Fazenda da Esperan\u00e7a? \u00c9 uma comunidade religiosa que acolhe e trata toxicodependentes. Est\u00e1 em crescimento explosivo, pois desde 1983 surgiram 40 comunidades deste g\u00e9nero no Brasil, mais outras tantas no resto do mundo. No dia 6 de maio, na freguesia de Ma\u00e7al do Ch\u00e3o (concelho de Celorico da Beira), ser\u00e1 inaugurada a primeira Fazenda da Esperan\u00e7a em Portugal.<\/p>\n<p>A comunidade chegou a Portugal por meio da irm\u00e3 dominicana Maria Alice, que, na Casa das Dominicanas de Aveiro, proporcionou o encontro do P.e Paulo Stapel com o Correio do Vouga. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA \u2013 O P.e Paulo Stapel acompanha desde o in\u00edcio este movimento, esta comunidade da Fazenda da Esperan\u00e7a. O seu irm\u00e3o, Fr. Hans, criou a primeira, em Guaratinguet\u00e1, diocese da Aparecida, e o sr. acompanhou a segunda, em Coroat\u00e1, estado do Maranh\u00e3o, at\u00e9 regressar \u00e0 Alemanha, passados 15 anos. Como \u00e9 que tudo surgiu? Qual foi a ideia incial?<\/p>\n<p>PAULO STAPEL \u2013 O meu irm\u00e3o nunca teve uma ideia. Simplesmente, achamos que o Evangelho n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para ser lido, meditado e estudado. \u00c9 para ser vivido no dia a dia, momento a momento. Isso teve uma consequ\u00eancia. Quando chega um jovem com problemas de droga, n\u00e3o podemos dizer: \u201cDesculpe, mas voc\u00ea n\u00e3o pode entrar. Tenho medo de voc\u00ea. Vou por outro caminho\u201d. N\u00e3o. Dentro dele vive Jesus. Voc\u00ea ama-o e isso tem consequ\u00eancias. Ele sente isso e come\u00e7a a melhorar. Abrimos a porta, chega um, a seguir aparece outro e com um pequeno grupo come\u00e7amos a viver juntos o Evangelho.<\/p>\n<p>Quer dizer que nunca pensaram em fazer uma obra\u2026<\/p>\n<p>O meu irm\u00e3o era p\u00e1roco. Costumava ver um grupo de jovens, drogados, na esquina. Tinha receio e passava por outro caminho. Depois percebeu que o amor \u00e9 para todos e foi falar com eles, at\u00e9 que um deles pediu: \u201cAjude-me. Preciso de pessoas que estejam 24 horas comigo\u201d. O meu irm\u00e3o convidou para a igreja este grupo, que partilhava a sua experi\u00eancia, e foi assim  que apareceu o primeiro grupo em 1983.<\/p>\n<p>Hoje, s\u00e3o oitenta as comunidades, e haver\u00e1 inaugura\u00e7\u00f5es nos pr\u00f3ximos meses na Alemanha, Su\u00ed\u00e7a e Portugal. A que se deve o sucesso?<\/p>\n<p>Sem d\u00favida que Deus tinha um plano, mas n\u00e3o o conhec\u00edamos. A nossa vontade \u00e9 de amar a todos. Vai crescendo, sempre chegando mais jovens, e alguns querem ficar para sempre como o primeiro, Nelson. Depois a Igreja viu que sempre t\u00ednhamos uma boa rela\u00e7\u00e3o com os bispos, pelo que o cardeal Lorscheider disse em Aparecida ao meu irm\u00e3o: \u201cAqui nasceu uma coisa de Deus. Voc\u00ea tem de fazer uns estatutos para que este grupo continue a existir quando voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o viver. Voc\u00ea \u00e9 respons\u00e1vel por isso\u201d. O meu irm\u00e3o apanhou um choque, nunca tinha pensado nisso. Levou a quest\u00e3o ao cap\u00edtulo [reuni\u00e3o dos franciscanos] e o superior disse-lhe: \u201cAqui est\u00e1, como Francisco de Assis abra\u00e7a o leproso, voc\u00ea abra\u00e7a leprosos de hoje. N\u00f3s libertamos voc\u00ea para este trabalho com mais dois outros padres. Voc\u00ea viva com o seu pr\u00f3prio trabalho, porque n\u00e3o temos nem dinheiro nem mais padres para dar\u201d.<\/p>\n<p>Criaram ent\u00e3o os estatutos, que foram aprovados pelo cardeal Lorscheider, na arquidiocese de Aparecida. Quando a Fazenda se expandiu para o mundo inteiro, fez-se um pedido a Roma. No ano passado, em 24 de maio, Roma aprovou a Fazenda como um novo carisma da Igreja. Somos uma comunidade de padres, consagrados, irm\u00e3s e leigos reconhecida pelo Conselho Pontif\u00edcio para os Leigos.<\/p>\n<p>A Fazenda, contudo, est\u00e1 aberta a todas as pessoas\u2026<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o existe uma droga cat\u00f3lica, luterana ou ortodoxa. A droga une todo o mundo. Na Fazenda temos de tudo: mu\u00e7ulmanos, ortodoxos, judeus, luteranos, cat\u00f3licos. E vivem juntos com amor, centrados no amor rec\u00edproco dos Evangelhos. Quando vivemos o Evangelho, Ele, como prometeu, est\u00e1 no meio de n\u00f3s. Quem curou as pessoas, no tempo de Jesus, foi Jesus. Quando Ele est\u00e1 no meio de n\u00f3s, continua a curar do mesmo modo. Conhece cada um, sabe do problema de cada um. Ele cura. A nossa \u00fanica miss\u00e3o \u00e9 viver o amor rec\u00edproco para Ele estar connosco.<\/p>\n<p>Surgem voca\u00e7\u00f5es nos ex-toxicodependentes?<\/p>\n<p>Muitos daqueles que estavam na droga acabam por ter algo novo, descobrem a viv\u00eancia da Palavra. \u201cEu sou amado e posso amar\u201d. T\u00eam o desejo de viver na radicalidade. H\u00e1 v\u00e1rios que estiveram na droga e na cadeia e hoje consagram a vida a Deus como celibat\u00e1rios. Em 2007, Bento XVI visitou a nossa casa-m\u00e3e e disse aos jovens marginalizados que eles eram embaixadores da esperan\u00e7a, respons\u00e1veis por levar a esperan\u00e7a ao mundo que n\u00e3o tem esperan\u00e7a nem perspetivas. \u00c9 poss\u00edvel ser diferente. Quando se conhece Deus, a vida transforma-se.<\/p>\n<p>Sendo a droga algo t\u00e3o complicado, de dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o, a Fazenda tem com certeza uma estrutura pesada de t\u00e9cnicos, psic\u00f3logos, m\u00e9dicos\u2026 <\/p>\n<p>A nossa experi\u00eancia \u00e9 diferente. Se algu\u00e9m precisa de aux\u00edlio, levamos ao m\u00e9dico. \u00c9 como na minha fam\u00edlia. Nunca tivemos um m\u00e9dico na fam\u00edlia. Quando um filho est\u00e1 doente, a m\u00e3e leva-o ao m\u00e9dico ou chama o m\u00e9dico a casa. O mesmo acontece na Fazenda. Os problemas resolvem-se em fam\u00edlia. A maior parte n\u00e3o precisa de m\u00e9dicos nem de psic\u00f3logo. \u00c9 interessante que por baixo da droga est\u00e1 um grito de amor. Muitos deles n\u00e3o foram amados, os pais est\u00e3o separados, as fam\u00edlias destro\u00e7adas. Quando se sentem amados, quando se sentem bem na fam\u00edlia, recuperam tudo. Vive-se o amor do Evangelho e quem \u00e9 curado torna-se ele pr\u00f3prio evangelizador. A todas as Fazendas chega uma multid\u00e3o de gente porque sente \u201caqui tenho uma coisa nova\u201d. Por outro lado, quando um jovem vai a um lugar e conta como recuperou, como vive em pobreza, obedi\u00eancia e castidade, isso \u00e9 um sinal muito muito forte e toca no cora\u00e7\u00e3o das pessoas. <\/p>\n<p>Em que se baseia a metodologia da Fazenda?<\/p>\n<p>Temos tr\u00eas colunas. Primeiro, o trabalho &#8211;  os membros da comunidade trabalham e produzem v\u00e1rias coisas. Isto devolve o amor pr\u00f3prio. Sabem que podem fazer algo valioso. Segundo, a viv\u00eancia em comunidade. As casas s\u00e3o mistas. As pessoas aprendem a respeitar e conviver com o outro. Muitos n\u00e3o tiveram isto na fam\u00edlia. Ali aprende-se a entrar em di\u00e1logo, a respeitar. A terceira coluna \u00e9 a espiritualidade, a viv\u00eancia do Evangelho. Em cada dia, logo de manh\u00e3, lemos o Evangelho e procuramos uma palavra que d\u00ea o sentido ao dia. <\/p>\n<p>Em largos tra\u00e7os, como \u00e9 o ritmo di\u00e1rio de uma comunidade?<\/p>\n<p>Acordamos \u00e0s seis da manh\u00e3. Temos o pequeno almo\u00e7o e depois a ora\u00e7\u00e3o \u2013 ora\u00e7\u00e3o do ter\u00e7o, leitura do Evangelho e a medita\u00e7\u00e3o em que escolhemos uma palavra para ser vivida durante esse dia. \u00c0s oito horas dividimos os trabalhos: cozinha, limpar a casa, produzir as coisas, trabalhar na horta, cuidar dos animais\u2026 Nunca se trabalha sozinho. Sempre dois a dois. Temos o almo\u00e7o ao meio-dia e a seguir uma pausa. Depois voltamos ao trabalho at\u00e9 \u00e0s cinco da tarde. A parte da noite \u00e9 sempre variada. \u00c0s vezes temos Missa, outras vezes temos partilha de experi\u00eancias, adora\u00e7\u00e3o do Sant\u00edssimo, etc. E h\u00e1 sempre espa\u00e7o para o desporto e a conversa.<\/p>\n<p>Na casa que v\u00e3o inaugurar no 6 de maio, quantas pessoas v\u00e3o viver?<\/p>\n<p>Antes da inaugura\u00e7\u00e3o, vamos ter uma miss\u00e3o. Membros da Fazenda da Esperan\u00e7a v\u00e3o \u00e0s igrejas, \u00e0s escolas, aos meios de comunica\u00e7\u00e3o social. O m\u00eas da miss\u00e3o \u00e9 para come\u00e7arem a trabalhar juntos, para criar o clima da Fazenda. O grupo da miss\u00e3o \u00e9 constitu\u00eddo por 15 pessoas. Depois da miss\u00e3o, ficam tr\u00eas ou quatro na casa. E depois, chega um ou outro, nunca sabemos quantos v\u00e3o chegar.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a capacidade da casa de Ma\u00e7al do Ch\u00e3o?<\/p>\n<p>Para 18 pessoas. Na Alemanha, perto de Col\u00f3nia, uma casa tem 17 pessoas de nove nacionalidades. Pessoas que tinham problemas de droga e \u00e1lcool e agora vivem em paz. Isso \u00e9 um aut\u00eantico milagre que s\u00f3 Deus pode fazer. Celebramos a missa num antigo convento franciscano. No in\u00edcio apenas apareciam alguns velhinhos, como \u00e9 normal. Agora a missa est\u00e1 cheia de jovens e h\u00e1 grupos de prepara\u00e7\u00e3o para o Crisma.<\/p>\n<p>Em termos de espiritualidade, quais s\u00e3o as ra\u00edzes da Fazenda?<\/p>\n<p>Vivemos a espiritualidade franciscana e temos um bom contacto com a espiritualidade da unidade dos Focolares de Chiara Lubich. A estas duas colunas acrescentamos a esperan\u00e7a do Evangelho. Vivemos a pobreza, a obedi\u00eancia, o amor rec\u00edproco, a humildade, a unidade. Aprendemos com os nossos pais Chiara e Francisco.<\/p>\n<p>Como se sustentam economicamente?<\/p>\n<p>Vivemos do trabalho. \u00c9 muito importante para os jovens que cada um viva com o seu pr\u00f3prio. Isso d\u00e1 dignidade. Para construir a casa portuguesa, confiamos na Provid\u00eancia. \u00c9 outro cap\u00edtulo, outro milagre como conseguimos tudo isso. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m, mas chego l\u00e1 e vejo a casa num meio de um povo simples e pobre. Custou 191 mil euros. Eles [v\u00e1rias aldeias nas imedia\u00e7\u00f5es de Ma\u00e7al do Ch\u00e3o, como acrescenta a Ir. Maria Aice] cantaram as janeiras, fizeram magustos, organizaram atividades\u2026<\/p>\n<p>Sabendo que sair da droga \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil, como ultrapassam fases complicadas como a da ressaca?<\/p>\n<p>\u00c9 uma fase dif\u00edcil, sem d\u00favida. Como temos pessoas que j\u00e1 passaram pela mesma experi\u00eancia, elas ajudam muito, acompanham, fazem o ch\u00e1, levam a comida, cuidam como se fossem da fam\u00edlia. H\u00e1 muita dor, v\u00f3mitos, tonturas. \u00c9 um tempo dif\u00edcil em que mais se pode amar essas pessoas. <\/p>\n<p>Na Fazenda n\u00e3o h\u00e1 drogas, cigarros, \u00e1lcool. A \u00fanica coisa importante \u00e9 eles quererem. Tiramos tudo: televis\u00e3o, computador, telem\u00f3vel. Fica um vazio, sem d\u00favida, que h\u00e1 de ser enchido com Deus. A cura  implica um novo estilo de vida para se viver feliz aqui na terra sem droga. Quando aprendem isto, s\u00e3o capazes de continuar.<\/p>\n<p>Desde o momento em algu\u00e9m entra na Fazenda at\u00e9 ficar curada, quanto tempo leva?<\/p>\n<p>Um ano. O per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o, processo em que a pessoa ganha uma vida nova, dura um ano.<\/p>\n<p>No final\u2026<\/p>\n<p>No final, pode sair. Tem de sair. Passa um tempo fora. Depois h\u00e1 a possibilidade de voltar para a Fazenda, integrando uma escola mission\u00e1ria, com um acompanhamento vocacional para fazer parte da comunidade. Muitos v\u00e3o trabalhar, voltam a estudar. Esse \u00e9 o objetivo da fazenda: reinserir na sociedade. Os grupos de ex-toxicodependentes encontram-se uma ou duas vezes por anos. Vivem o estilo da Fazenda, mas fora, no mundo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 casos de insucesso\u2026<\/p>\n<p>Os primeiros tr\u00eas meses s\u00e3o cr\u00edticos. Depois de passarem um ano connosco, voltam para fora. 80 por cento fica firme; 20 por cento cai novamente na droga e alguns deles t\u00eam coragem de voltar para a Fazenda. Normalmente mantemos contactos com os ex-toxicodependentes. S\u00e3o poucos os que n\u00e3o querem mais contato. Quando algu\u00e9m cai, h\u00e1 sempre algu\u00e9m que para ajudar e isso \u00e9 muito bonito.<\/p>\n<p>O sr. padre tem um anel de tucum (anel madeira preta da Amaz\u00f3nia). Significa uma op\u00e7\u00e3o pelos pobres?<\/p>\n<p>Sim, op\u00e7\u00e3o pelos pobres. \u00c9 tamb\u00e9m s\u00edmbolo do acolhimento do pai ao filho pr\u00f3digo. O pai abra\u00e7a o filho e d\u00e1-lhe roupa nova e um anel. Significa: \u201cVoc\u00ea agora \u00e9 meu filho de novo\u201d. Quando o Papa foi \u00e0 Fazenda, deu um anel para os meninos da rua. \u201cAgora voc\u00eas est\u00e3o de novo em casa\u201d.<\/p>\n<p>Fala com entusiasmo da Fazenda. Sente-a como obra sua?<\/p>\n<p>Num quadro bonito, o pincel fica de lado. \u00c9 o artista que faz, n\u00e3o o pincel. O pincel est\u00e1 na m\u00e3o do artista. N\u00e3o faz parte da pintura. Somos o pincel na m\u00e3o de Deus. Acho isso bonito e diz tudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Stapel, 66 anos, padre diocesano alem\u00e3o, \u00e9 o respons\u00e1vel pela Fazenda da Esperan\u00e7a na Europa, \u00c1frica e \u00c1sia. Fala portugu\u00eas porque viveu 15 anos no Brasil, onde o seu irm\u00e3o g\u00e9meo, Fr. Hans, padre franciscano, fundou e dirige a Fazenda da Esperan\u00e7a. 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