{"id":1923,"date":"2010-06-23T16:34:00","date_gmt":"2010-06-23T16:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1923"},"modified":"2010-06-23T16:34:00","modified_gmt":"2010-06-23T16:34:00","slug":"morreu-um-justo-incompreendido-por-si-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/morreu-um-justo-incompreendido-por-si-mesmo\/","title":{"rendered":"Morreu um justo incompreendido por si mesmo"},"content":{"rendered":"<p>Num tempo em que acreditava piamente na investiga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia teol\u00f3gica, quando em 1991 lan\u00e7ou o seu Cristo excessivamente humanizado em \u201cO Evangelho Segundo Jesus Cristo\u201d, o evangelho do Saramago, eu estudava em Coimbra, e fui com dois companheiros, \u00e0 sess\u00e3o p\u00fablica de apresenta\u00e7\u00e3o do romance, envolvido em pol\u00e9mica gratuita. N\u00e3o fiz perguntas. O meu colega fez uma pergunta de dimens\u00e3o teol\u00f3gica, sobre a quest\u00e3o dos g\u00e9neros liter\u00e1rios, e a ignor\u00e2ncia religiosa de Saramago impressionou-me sobremaneira. Pensei comigo: um g\u00e9nio perdido no seu narcisismo. Recolhi o seu aut\u00f3grafo no romance e depois que o li com muita sofreguid\u00e3o&#8230; vendi-o a outro colega de estudos. Hoje estou quase arrependido. J\u00e1 comprei outra edi\u00e7\u00e3o de bolso, na Editora Companhia de Letras, para talvez reler na minha futura \u201cdispensa laboral\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessa primeira leitura traum\u00e1tica, li todas as suas entrevistas que achei na imprensa. Li tamb\u00e9m \u201cTodos os Nomes\u201d e mais uma obra que n\u00e3o lembro agora. Ao todo tr\u00eas obras completas&#8230; que segundo os cr\u00edticos nem ser\u00e3o futuramente as mais importantes. Espero um dia poder ler os seus Ensaios (Cegueira e Lucidez). Coisas de leitor endividado. Nessa qualidade gostava do Saramago, na sua eterna d\u00edvida para com o Transcendente e pela aus\u00eancia exagerada da pontua\u00e7\u00e3o expl\u00edcita (implicitamente havia sempre pistas e indicativos, sen\u00e3o seria o caos hermen\u00eautico&#8230;), talvez a\u00ed encontre uma pequena empatia pela dificuldade imensa que tenho ao pontuar os textos que vou tentando escrever.<\/p>\n<p>Era um provocador nato. Sabia tirar partido disso como ningu\u00e9m. Por essa raz\u00e3o s\u00f3 me consola a eterna provoca\u00e7\u00e3o m\u00fatua: nunca mereceu o pr\u00e9mio Nobel&#8230; foi uma fuga de (in)forma\u00e7\u00e3o da academia sueca. Lament\u00e1vel, pelo menos, por uma quest\u00e3o de justi\u00e7a, existiam tr\u00eas nomes \u00e0 sua frente: Miguel Torga, Sofia de Mello Breyner ou Agustina Bessa-Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Como mau aprendiz de \u201cte\u00f3logo no fio da navalha\u201d, demonstrou ser uma aberra\u00e7\u00e3o completa. As entrevistas sobre a obra Caim foram gritantes. A sua e nossa intelig\u00eancia n\u00e3o mereciam tanto. Falta da mais elementar sensibilidade. Seu ate\u00edsmo, supostamente radical, n\u00e3o ajuda os bons ateus\u2026 quanto mais os maus crentes. Afirmam que escrevia bem. Em termos de imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, sim. Nisso a sua criatividade era exemplar&#8230; Era quase um g\u00e9nio! Embora existisse sempre excessivo marketing, \u00e0 volta do lan\u00e7amento das obras e apari\u00e7\u00f5es em p\u00fablico. O seu profetismo era o do ateu convicto e vai-nos fazer alguma falta dial\u00f3gica, embora ele s\u00f3 dialogasse com o seu pr\u00f3prio umbigo.<\/p>\n<p>Nunca o vi crescer em pensamento e abertura religiosa. Um desperd\u00edcio not\u00e1vel. Tinha os seus inimigos de culto, sempre escoltando pelos seus ac\u00f3litos, fi\u00e9is servidores e propagandistas dos seus dogmas inquestion\u00e1veis. O seu telhado n\u00e3o era de vidro, o do pr\u00f3ximo era! Deveria ser enterrado em Lanzarote pois decidiu viver ilhado, como ilhado deveria ser sepultado, em coer\u00eancia absoluta at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>Perdi um inimigo virtual. Vou rezar respeitosamente por ele na missa de hoje [18 de Junho de 2010], s\u00f3 pela sua dimens\u00e3o corporal. A mente e o esp\u00edrito dele n\u00e3o precisam!? Seja cumprida a justi\u00e7a do corpo. Morreu um justo incompreendido por si mesmo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num tempo em que acreditava piamente na investiga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia teol\u00f3gica, quando em 1991 lan\u00e7ou o seu Cristo excessivamente humanizado em \u201cO Evangelho Segundo Jesus Cristo\u201d, o evangelho do Saramago, eu estudava em Coimbra, e fui com dois companheiros, \u00e0 sess\u00e3o p\u00fablica de apresenta\u00e7\u00e3o do romance, envolvido em pol\u00e9mica gratuita. N\u00e3o fiz perguntas. 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