{"id":19239,"date":"2012-02-09T11:34:00","date_gmt":"2012-02-09T11:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19239"},"modified":"2012-02-09T11:34:00","modified_gmt":"2012-02-09T11:34:00","slug":"moral-de-sacristia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/moral-de-sacristia\/","title":{"rendered":"&#8220;Moral de sacristia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Pode-se dizer que em todas as culturas conhecidas se d\u00e1 particular import\u00e2ncia \u00e0 harmonia do universo, como algo que importa conhecer, defender e imitar: \u00e9 uma quest\u00e3o de sabedoria \u2013 que n\u00e3o nos conv\u00e9m transformar em perigosa quest\u00e3o de mero poder. <\/p>\n<p>E em todas as culturas encontramos a tend\u00eancia de polarizar o bem e o mal (o \u201cpuro\u201d e o \u201cimpuro\u201d), dando origem a rebuscad\u00edssimas e infindas descri\u00e7\u00f5es e classifica\u00e7\u00f5es. Estas classifica\u00e7\u00f5es sempre foram manipul\u00e1veis, mas a arg\u00facia e ast\u00facia humanas, com doses vari\u00e1veis de oportunismo e maldade, t\u00eam desenvolvido uma verdadeira rede que aprisiona quem n\u00e3o sabe resistir (muitas vezes devido \u00e0 pregui\u00e7a para pensar sem preconceitos e para agir correctamente). Mas s\u00f3 pensando honestamente \u00e9 que podemos aproximar-nos da verdade latente nestas formas hist\u00f3ricas do bem e do mal \u2013 e a Humanidade progride quando perscruta continuamente o seu segredo e mant\u00e9m uma saud\u00e1vel inquieta\u00e7\u00e3o acerca da raz\u00e3o de ser da vida.<\/p>\n<p>O agrado ou repugn\u00e2ncia, no campo dos cinco sentidos, estar\u00e3o na origem destas sensa\u00e7\u00f5es e sentimentos: tudo o que destr\u00f3i a beleza, a conveni\u00eancia, numa palavra, a ordem\u2026 \u00e9 mau, \u00e9 pecaminoso (na ordem moral) \u2013 \u00e9 impuro. <\/p>\n<p>A pr\u00f3pria palavra grega \u201ccosmos\u201d significa ordem, beleza e gl\u00f3ria. As religi\u00f5es integram na sua mundivid\u00eancia estes conceitos e os sentimentos a eles ligados. O Antigo Testamento considera a \u201cordem c\u00f3smica\u201d na figura de tr\u00eas c\u00edrculos conc\u00eantricos: o impuro, o puro e o santo (ou sagrado). O puro tanto pode ser degradado pelo impuro como aperfei\u00e7oado pelo sagrado. Pertence ao ser humano manter ou n\u00e3o o ideal de um mundo de beleza e harmonia, e por isso o pr\u00f3prio Livro dos Levitas (dedicados \u00e0 administra\u00e7\u00e3o e ordem do sagrado) prop\u00f5e a todos os membros do povo esta divisa: \u201cSede santos\u201d (Lev\u00edtico 11,44). De certo modo, \u00e9 um \u201cpovo escolhido\u201d para manifestar a perfei\u00e7\u00e3o divina do universo.<\/p>\n<p>Como natural \u201ccentro do universo\u201d, pelo menos do ponto de vista funcional, o ser humano \u00e9 alvo preferido das injun\u00e7\u00f5es sobre pureza e impureza: o seu aspecto tem que reflectir agrado (beleza), pelo que as doen\u00e7as de pele s\u00e3o \u201cimpuras\u201d; e na sua rela\u00e7\u00e3o com os outros, com os animais e os alimentos, tem que se abster de comportamentos \u201cabjectos\u201d, como o homic\u00eddio, adult\u00e9rio e o contacto com o que \u00e9 expelido do corpo, com os cad\u00e1veres e qualquer objecto manchado. A actividade sexual tamb\u00e9m torna o ser humano momentaneamente impuro (a origem desta listagem perde-se nos tempos mais antigos, sem rela\u00e7\u00e3o directa com a religi\u00e3o, a higiene ou a economia).<\/p>\n<p>O Homem \u00e9 o guardi\u00e3o da beleza do universo, do equil\u00edbrio est\u00e9tico, da qualidade de vida, da harmonia social. Se permite que o impuro afecte o sagrado, d\u00e1-se a profana\u00e7\u00e3o (e portanto, no pensamento primitivo, infelizmente ainda bastante em vigor, o seu respons\u00e1vel merece ser destru\u00eddo).<\/p>\n<p>O evangelho de hoje mostra que Jesus quis superar a segrega\u00e7\u00e3o dos \u00abimpuros leprosos\u00bb, n\u00e3o com palavras bonitas mas trazendo-lhes a cura, sem esquecer que se devem apresentar perante os sacerdotes, para n\u00e3o terem medo da uni\u00e3o com \u00abo sagrado\u00bb. No seguimento de Jesus, os disc\u00edpulos acabariam por abolir a distin\u00e7\u00e3o entre coisas puras e impuras, colocando no cora\u00e7\u00e3o de cada pessoa a responsabilidade pelo bem e pelo mal (Marcos 7,14-23).<\/p>\n<p>No domingo de hoje, at\u00e9 a 2.\u00aa leitura toca o mesmo tema: conv\u00e9m n\u00e3o ferir os preconceitos dos outros, mas ajud\u00e1-los a ver melhor e sobretudo a ver que em todas as coisas podemos e devemos encontrar e saborear o Bem: \u201ca comer, a beber, em qualquer outra coisa\u2026 em tudo se pode dar gl\u00f3ria a Deus\u201d \u2013 a fonte da Beleza e do Prazer.<\/p>\n<p>E a que prop\u00f3sito \u201cmoral de sacristia\u201d?<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cde sacristia\u201d evoca uma esp\u00e9cie de cheiro a mofo, a baixo n\u00edvel de qualidade, a beatice, ritualismo, servid\u00e3o\u2026 E no entanto, a sacristia, como o pr\u00f3prio nome indica, deveria ser \u201co vest\u00edbulo do sagrado\u201d e como tal, da fonte de beleza e perfei\u00e7\u00e3o do universo.<\/p>\n<p>Mas a \u201cmoral de sacristia\u201d \u00e9 uma \u00abmoral engavetada\u00bb como as alfaias lit\u00fargicas. \u201cDeitar discurso na sacristia\u201d \u00e9 falar como se fosse a \u00fanica autoridade (ou talvez como a \u00fanica pessoa que lida de perto com pessoas e objectos do mundo do sagrado \u2013 um mundo que para muitos n\u00e3o passa de \u00eddolos frios de bom metal ou \u00eddolos fugazes de carne e osso\u2026). <\/p>\n<p>Como Jesus Cristo deu exemplo, a cura faz-se contactando as pessoas e n\u00e3o legislando sobre as pessoas. A lei deve reflectir a proximidade e an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es de vida humana. \u00c9 muito c\u00f3modo falar e dar receitas de dentro da (m\u00e1!) sacristia, sem a coragem de contactar e comprometer-se verdadeiramente com a ordem do universo e particularmente com a justi\u00e7a entre os seres humanos. <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt   <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-19239","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19239","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19239"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19239\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19239"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19239"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19239"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}