{"id":19517,"date":"2012-03-07T15:56:00","date_gmt":"2012-03-07T15:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19517"},"modified":"2012-03-07T15:56:00","modified_gmt":"2012-03-07T15:56:00","slug":"padre-armenio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/padre-armenio\/","title":{"rendered":"Padre Arm\u00e9nio"},"content":{"rendered":"<p>DOMINGOS CERQUEIRA<\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem porqu\u00ea, h\u00e1 dias dei comigo a recordar a minha rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de paroquiano mas de uma grande amizade com o P.e Arm\u00e9nio Costa (04-07-1933 \u2013 15-02-1997 ). N\u00e3o sei bem porqu\u00ea n\u00e3o \u00e9 bem verdade. Houve tr\u00eas factos que me trouxeram \u00e0 mem\u00f3ria o tempo que passei num relacionamento muito pr\u00f3ximo com o P.e Arm\u00e9nio: primeiro, foi o meu compromisso com a par\u00f3quia por essas alturas; depois a \u201crece\u00e7\u00e3o\u201d da Gl\u00f3ria ao novo p\u00e1roco, P.e Arm\u00e9nio; e depois a recente sa\u00edda daqui de mais dois sacerdotes. <\/p>\n<p>Em primeiro lugar, com o P.e Arm\u00e9nio, foram as obras de restauro do edif\u00edcio da S\u00e9 e o ter de arranjar o dinheiro para essas obras. Foram os cortejos de oferendas (como me lembro das aut\u00eanticas revela\u00e7\u00f5es de dedicados pregoeiros nos leil\u00f5es); foram horas e horas de conversa na resid\u00eancia paroquial, na S\u00e9 ou em minha casa, em ser\u00f5es fant\u00e1sticos; e foram at\u00e9 as tentativas do P.e Arm\u00e9nio para me p\u00f4r a cantar &#8211; eu, que nem nas missas canto por ter vergonha de cantar, pois tenho sempre a ideia de p\u00f4r toda a gente a olhar para mim tal seria a desafina\u00e7\u00e3o! Pois na altura, ao fim de algumas tentativas do P.e Arm\u00e9nio, e minhas tamb\u00e9m, e com muita paci\u00eancia dele, dei comigo a cantar afinadinho, para grande espanto meu! E depois foi a minha colabora\u00e7\u00e3o na catequese dos jovens mais velhos e o meu empenhamento na comiss\u00e3o fabriqueira, na divulga\u00e7\u00e3o do Estatuto Econ\u00f3mico dos Sacerdotes e em tudo o mais que na altura foi a vida na par\u00f3quia e tamb\u00e9m na Diocese. Este v\u00edcio de trabalhar na Igreja ficou-me muito para al\u00e9m do P.e Arm\u00e9nio. E tudo isto me veio \u00e0 mem\u00f3ria nestes \u00faltimos tempos e me fez recordar tantos momentos fant\u00e1sticos vividos com este grande padre, at\u00e9 porque hoje, talvez porque as pessoas me veem j\u00e1 com uma certa inutilidade, deixei de ser preciso. Quem sabe se Deus n\u00e3o me quer noutros trabalhos e noutras fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, n\u00e3o me posso esquecer da rece\u00e7\u00e3o ao P.e Arm\u00e9nio, quando ele veio da Vera Cruz para o lado de c\u00e1 da Ria. Uns dias depois da sua chegada \u00e0 Gl\u00f3ria, e depois de ter sido alugado um andar ali na Rua do Pr\u00edncipe Perfeito para resid\u00eancia paroquial, fui com a Eneida at\u00e9 l\u00e1 a casa ver como as coisas estavam a correr. E fic\u00e1mos siderados! N\u00e3o havia m\u00f3veis, cadeiras, tachos, roupas, lou\u00e7as, n\u00e3o havia praticamente nada. Como paroquiano, senti vergonha de receber assim o novo p\u00e1roco. \u00c9 que o p\u00e1roco anterior, convencido de que tudo o que os paroquianos teriam dado para a casa eram bens pessoais, quando foi embora, tudo levou. Esse ser\u00e3o foi passado com o P.e Arm\u00e9nio e comigo, sentados em cima de uma mesa que tinha ficado por ser grande demais, com o P.e Pinho, que tamb\u00e9m tinha vindo trabalhar para a par\u00f3quia, sentado no ch\u00e3o \u00e0 nossa frente, e com a Eneida ao lado e em p\u00e9. Est\u00e1vamos os dois desolados e trist\u00edssimos pela falta de uma resid\u00eancia paroquial, pela falta do m\u00ednimo que era exig\u00edvel para os nossos padres poderem viver com algum conforto. E em oposi\u00e7\u00e3o ao nosso desanimado estado de esp\u00edrito, era manifesta a boa disposi\u00e7\u00e3o dos dois sacerdotes e a total confian\u00e7a que manifestavam. E o espantoso \u00e9 que foram eles a animar-nos a n\u00f3s! E com a solidariedade de todos, a casa foi-se enchendo do necess\u00e1rio. Nesses tempos, a mando de D. Manuel de Almeida Trindade, and\u00e1mos pela Diocese a procurar dar testemunho da nossa vida de crist\u00e3os. E encontr\u00e1mos sacerdotes a viver em situa\u00e7\u00f5es de verdadeira pobreza. Penso e espero que toda esta situa\u00e7\u00e3o tenha mudado. Passados alguns anos, o P.e Arm\u00e9nio foi para o Semin\u00e1rio e n\u00e3o levou nada, pois entendeu que o que lhe deram para a resid\u00eancia pertencia \u00e0 resid\u00eancia e por isso \u00e0 par\u00f3quia. Fa\u00e7o votos muito sinceros para que hoje as par\u00f3quias disponham de resid\u00eancias mobiladas e recheadas do que \u00e9 necess\u00e1rio, para que os nossos padres vivam decentemente de modo a n\u00e3o sermos n\u00f3s, os leigos, a sentir vergonha de casos como aqueles a que me refiro. Ainda agora sa\u00edram da nossa par\u00f3quia mais dois padres, que o nosso Bispo mandou para onde entendeu serem mais precisos. Um foi para a Barra e Costa Nova e o outro para Oliveira do Bairro e Sangalhos. Pela muita amizade e grande respeito que me ficaram a ligar a estes dois sacerdotes, pelo muito que conhe\u00e7o daquelas terras e das suas gentes, sei que o entusiasmo e todos os festejos com que receberam os seus novos p\u00e1rocos h\u00e3o de ter tido, estou certo disso, correspond\u00eancia nas condi\u00e7\u00f5es que eles foram encontrar para viver.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, talvez porque ultimamente se tem falado de um \u00f3rg\u00e3o para a S\u00e9, tive mais um motivo para me recordar do P.e Arm\u00e9nio. Seria quase ofensivo vir eu agora recordar as imensas qualidades que ele tinha de grande apaixonado pela m\u00fasica. Ali\u00e1s, foi esta tamb\u00e9m uma raz\u00e3o que muito me aproximou do P.e Arm\u00e9nio,  n\u00e3o s\u00f3 apenas porque os meus filhos pertenciam aos Pequenos Cantores da Gl\u00f3ria, mas porque tamb\u00e9m eu sempre fui um apaixonado pela m\u00fasica, embora um total analfabeto musical. Ainda andei, juntamente com o P.e Jo\u00e3o Gon\u00e7alves, no Conservat\u00f3rio, a aprender a tocar guitarra cl\u00e1ssica. Mas o 25 de Abril acabou por me levar por outros caminhos e fui tocar para outras bandas, com pautas muito pouco musicais. Mas ainda me lembro de dedilhar a guitarra algumas vezes em minha casa, com a aten\u00e7\u00e3o do mestre P.e Arm\u00e9nio. Se durante estes anos todos o \u00f3rg\u00e3o da S\u00e9 \u00e9 para mim uma esp\u00e9cie de espinho encravado na garganta, o desgosto que n\u00e3o seria para o P.e Arm\u00e9nio, ver diariamente, aquele \u00f3rg\u00e3o t\u00e3o bonito e a merecer um restauro, para ali, pendurado na parede, surdo e mudo! Mas um dia o P.e Arm\u00e9nio p\u00f4s m\u00e3os \u00e0 obra. Nunca  foi sua inten\u00e7\u00e3o restaurar o \u00f3rg\u00e3o. Isso seria trabalho muito caro, e para t\u00e9cnicos especializados. Mas de m\u00fasica o mestre era ele. E com a ajuda do Henrique Lemos, outro paroquiano elevado a organista  oficial da S\u00e9,  passaram horas a tentar dar voz aquela carca\u00e7a velhinha! E com muita arte, com muito amor pela m\u00fasica, e com uma for\u00e7a de vontade enorme, o \u00f3rg\u00e3o ressuscitou. E muitos de n\u00f3s ainda nos lembramos das celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas acompanhadas musicalmente  pelo Henrique Lemos, que estando de costas para o altar, via atrav\u00e9s de um espelho tudo o que ali se passava. Mas iam surgindo algumas dificuldades de ordem t\u00e9cnica que foram sendo dif\u00edceis de ultrapassar. Com a sa\u00edda do P.e Arm\u00e9nio e com o falecimento do Henrique Lemos, o \u00f3rg\u00e3o morreu mais uma vez. Mas que fique claro que n\u00e3o era sua inten\u00e7\u00e3o restaurar o \u00f3rg\u00e3o, mas enquanto isso n\u00e3o fosse poss\u00edvel, pelo menos dar-lhe voz. Fa\u00e7o votos  para que agora, que tanto se vai falando na Rota das Catedrais, seja poss\u00edvel incluir nesse programa o restauro do nosso \u00f3rg\u00e3o. Eu, que durante alguns meses at\u00e9 fui nomeado conservador do Museu da S\u00e9, acho que ser\u00e1 uma grande oportunidade que n\u00e3o de deve perder. Mesmo com \u201cTroika\u201d, espero e desejo que haja arte e engenho que leve os governantes a n\u00e3o se esque\u00e7am da S\u00e9 de Aveiro.<\/p>\n<p>Para finalizar, n\u00e3o \u00e9 preciso motivo nenhum especial para eu me lembrar amiudadamente do meu grande amigo que foi o P.e Arm\u00e9nio. \u00c9 que um dia, em que eu desabafava que amiudadamente acordava de manh\u00e3 com muita m\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o (como diz o povo, acordava com os p\u00e9s de fora), ele deu-me a receita:  que logo pela manh\u00e3, ao acordar, pusesse um r\u00e1dio a tocar m\u00fasica que enchesse a casa. Foi receita de que nunca mais me esqueci, e tamb\u00e9m por isso tenho sempre presente este amigo.<\/p>\n<p>Penso que n\u00e3o \u00e9 preciso qualquer data especial para recordar os amigos. Mas quando me ponho a recordar os anos que passei nos meus trabalhos, h\u00e1 amigos que est\u00e3o presentes nos momentos mais dif\u00edceis e nos que mais alegrias me t\u00eam dado.<\/p>\n<p>E hoje apeteceu-me escrever estas linhas muit\u00edssimo despretensiosas, a recordar alguns momentos vividos com este meu prior, o P.e Arm\u00e9nio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOMINGOS CERQUEIRA N\u00e3o sei bem porqu\u00ea, h\u00e1 dias dei comigo a recordar a minha rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de paroquiano mas de uma grande amizade com o P.e Arm\u00e9nio Costa (04-07-1933 \u2013 15-02-1997 ). N\u00e3o sei bem porqu\u00ea n\u00e3o \u00e9 bem verdade. 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