{"id":19522,"date":"2012-03-14T14:58:00","date_gmt":"2012-03-14T14:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19522"},"modified":"2012-03-14T14:58:00","modified_gmt":"2012-03-14T14:58:00","slug":"para-acabar-com-a-solteironice","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/para-acabar-com-a-solteironice\/","title":{"rendered":"Para acabar com a solteironice"},"content":{"rendered":"<p>O que diz&#8230; <!--more--> Frei Fernando Ventura, frade franciscano capuchinho, esteve no Centro Universit\u00e1rio, na noite de 7 de mar\u00e7o, para mais uma tert\u00falia do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro. Autor de \u201cDo eu solit\u00e1rio ao n\u00f3s solid\u00e1rio\u201d (ed. Verso de Kapa), com o jornalista Joaquim Franco \u2013 com quem prepara mais um livro -, o franciscano de 52 anos, natural de Matosinhos, apelou \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o de cada um, da solteironice \u00e0 solidariedade, \u00e0 fraternidade. Talvez algumas express\u00f5es tenham chocado os ouvintes, ou agora os leitores, mas se fizerem pensar em mais solidariedade e a\u00e7\u00e3o, acertam no alvo. Texto de Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>Solteironice. O que \u00e9?<\/p>\n<p>Solteironice n\u00e3o vem nos dicion\u00e1rios. Mas \u00e9 palavra que existe, pelo menos desde quarta-feira passada. E agora passa a escrito (uma busca na Internet deu zero resultados). Da comunica\u00e7\u00e3o de Frei Ventura, deduz-se que n\u00e3o \u00e9 um estado civil para al\u00e9m do solteiro (solteirice existe), casado, divorciado, vi\u00favo. N\u00e3o \u00e9 um estado de vida. \u00c9 mais um modo de vida e pode coexistir com qualquer um dos estados de vida. Solteironice \u00e9 viver centrado em si pr\u00f3prio, ignorando o pr\u00f3ximo (o de casa, o vizinho, o do bairro) e o distante (o mo\u00e7ambicano, o santomense, o das lixeiras de Bombaim). Em resumo, a mensagem de Fernando Ventura foi um apelo a deixar o eu solit\u00e1rio para entrar no n\u00f3s solid\u00e1rio.<\/p>\n<p>Insolidariedade<\/p>\n<p>Num fr\u00e1gil equil\u00edbrio entre sensibilidade e sensacionalismo, a raiar a demagogia, Frei Ventura defendeu um nexo causal entre a especula\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica internacional, e tamb\u00e9m o \u201ceu ir de f\u00e9rias\u201d, e o aumento da pobreza no terceiro mundo, exemplificado com os milhares de pessoas que procuram comida na lixeira de Maputo, onde \u201ccada cami\u00e3o que chega \u00e9 uma travessa de comida fresca\u201d. Num s\u00fabito aumento dos cereais nos mercados internacionais atirou milh\u00f5es para a fome. Os emigrantes africanos afogam  que nem gatos no Mediterr\u00e2neo, tentando alcan\u00e7ar a ilha [italiana] de Lampedusa\u201d.<\/p>\n<p>Da centralidade para a periferia<\/p>\n<p>Conhecedor das l\u00ednguas b\u00edblicas (foi tradutor dos livros de Rute e Judite, na chamada \u201cB\u00edblia dos Capuchinos\u201d, que muitos t\u00eam em casa), Frei Ventura pontuou as suas palavras com passagens b\u00edblias conhecidas de todos, por vezes com piadas \u00e0 mistura. Se por um lado, \u201co Sr. Ad\u00e3o de Barros e a Sr.a Eva da Costa\u201d, ap\u00f3s o pegado originante, \u201cporque originais j\u00e1 h\u00e1 poucos\u201d, fizeram uma tanga para criar dist\u00e2ncia entre eles \u2013 \u201cse estavam \u00abde tanga\u00bb, deviam ser portugueses\u201d, comentou -, por outro, com o epis\u00f3dio de Ema\u00fas, a dist\u00e2ncia entre os disc\u00edpulos encurta-se. Caminhando da centralidade de Jerusal\u00e9m para a periferia, Ema\u00fas, os disc\u00edpulos s\u00e3o acompanhados por Jesus, que se aproxima, \u201cmas n\u00e3o fala\u201d, p\u00f5e-se a caminho com eles, \u201cmas n\u00e3o fala\u201d. Entra em empatia com os disc\u00edpulos e s\u00f3 depois fala. E eles, que \u201cn\u00e3o tinham percebido nada na \u00daltima Ceia\u201d, compreendem finalmente que \u00e9 Jesus que est\u00e1 na Eucaristia de Ema\u00fas. \u201cEstamos num tempo de urg\u00eancia urgente da eucaristiza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Temos de ir da missa \u00e0 vida\u201d, disse. Os crist\u00e3os, real\u00e7ou, t\u00eam de perder o medo dos imposs\u00edveis, dos r\u00f3tulos na testa, das conven\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Outras eucaristias: acolhimento e divis\u00e3o<\/p>\n<p>Como no Evangelho de Jo\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 relato da institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia, ao contr\u00e1rio dos tr\u00eas sin\u00f3ticos, Frei Fernando Ventura relacionou a Eucaristia com o epis\u00f3dio do lava-p\u00e9s. Perguntou: \u201cO que faz Jesus no lava-p\u00e9s?\u201d Alguns dos presentes responderam: \u201cServi\u00e7o\u201d. \u201cDeixem-se de peneiras teol\u00f3gicas\u201d, contrariou o conferencista (noutro momento, disse: \u201cN\u00e3o h\u00e1 aqui catequistas? Gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o costumam vir a esta coisas\u201d; mas havia catequistas no sal\u00e3o do Centro Universit\u00e1rio), argumentando pela ideia do acolhimento, pr\u00f3pria da cultura hebraica e dos povos de longas caminhadas ao sol e ao p\u00f3. Invocou, por outro lado, o epis\u00f3dio, tamb\u00e9m joanino, da multiplica\u00e7\u00e3o dos \u201ccinco p\u00e3es e dois peixes\u201d de um rapazito, para real\u00e7ar que o milagre da multiplica\u00e7\u00e3o \u00e9 um milagre de divis\u00e3o e partilha dos bens. \u201cNa aritm\u00e9tica de Deus, para multiplicar \u00e9 preciso dividir\u201d.<\/p>\n<p>Deus casado<\/p>\n<p>Continuando a provocar a audi\u00eancia, Frei Ventura lan\u00e7ou perguntas sobre o \u201cestado civil de Deus\u201d. \u201cComo come\u00e7a Deus no princ\u00edpio da B\u00edblia? Como est\u00e1 Deus quando termina a B\u00edblia, no final do Apocalipse? Deus come\u00e7a solteiro e termina casado na B\u00edblia. \u00abO Esp\u00edrito e a esposa dizem: Vem!\u00bb Casou com quem? Com a Igreja!? Coitado. Com toda a cria\u00e7\u00e3o. Com a humanidade, com todas as religi\u00f5es, at\u00e9 com os cat\u00f3licos. Deus \u00e9 polig\u00e2mico. Sabem qual \u00e9 o contr\u00e1rio de poligamia? Monotonia\u201d. Compreende-se a ideia. Com Deus termina a solid\u00e3o humana. \u201cE a nossa miss\u00e3o, afirmou, \u00e9 preencher a solid\u00e3o com fraternidade\u201d. \u201c\u00c9 preciso chorar porque se ama. Mas \u00e9 pecado n\u00e3o amar para n\u00e3o chorar\u201d.<\/p>\n<p>\u00c1gua choca no inferno<\/p>\n<p>Porque a nova ecologia \u00e9 a solidariedade e a nova \u00e9tica \u00e9 a fraternidade, o conferencista repudiou os que n\u00e3o fazem barulho nem ondas. \u201cPode chatear o barulho dos maus, mas incomoda muito mais o sil\u00eancio dos bons\u201d, disse, citando uma frase que, com formula\u00e7\u00e3o similar, \u00e9 de Martin Luther King. O drama de Caim, \u201co que tem\u201d, e Abel, \u201co que \u00e9 nada, buraco\u201d, com Caim a dizer que \u201cse est\u00e1 nas tintas para os seu irm\u00e3o\u201d, \u00e9 do drama do mundo de hoje. O medo de fazer ondas. O inferno n\u00e3o \u00e9 um fogo permanente, mas um \u201cpo\u00e7o de \u00e1gua choca at\u00e9 ao queixo\u201d. \u201cQuando chega alguma alma, todas dizem: N\u00e3o fa\u00e7as ondas\u201d.<\/p>\n<p>Os que choram<\/p>\n<p>No mesmo sentido, as Bem-Aventuran\u00e7as podem ser o texto mais perigoso e revolucion\u00e1rio ou o que mais serve para criar ateus e fazer \u201cterrorismo religioso\u201d. Este terrorismo acontece quando os \u201cprofissionais da esperan\u00e7a adiada\u201d dizem perante uma dificuldade ou dor: \u201cPaci\u00eancia. Deixe l\u00e1. \u00c9 a vontade de Deus\u201d. Nas Bem-Aventuran\u00e7as, face positiva do dec\u00e1logo dos n\u00e3os, os pobres em esp\u00edrito (ou atrav\u00e9s do esp\u00edrito, por causa do esp\u00edrito) n\u00e3o s\u00e3o miser\u00e1veis mas os que \u201creconhecem que tudo o que recebem \u00e9 de Deus\u201d. Bem-aventurados os que choram, n\u00e3o porque \u201cse n\u00e3o choras, n\u00e3o mamas\u201d, mas porque \u201cs\u00f3 chora quem ama\u201d &#8211; insistiu. Na linha dos tr\u00eas R da ecologia, \u00e9 preciso \u201creduzir o \u00f3dio\u201d, \u201creciclar o mau feito\u201d, \u201creutilizar a capacidade de dizer \u00abgosto de ti\u00bb\u201d.<\/p>\n<p>Teoria das pulgas<\/p>\n<p>Para aumentar a solidariedade, para incentivar a cidadania, para reformar o sistema, frei Ventura defendeu a \u201cteoria das pulgas\u201d. \u201cA pulga n\u00e3o para o comboio, mas chateia o maquinista. Temos de treinar muitas pulgas para chatear muitos maquinistas\u201d. Em vez de sermos gente com \u201cdeus na barriga\u201d, transformados em talib\u00e3s, podemos ser \u201cgente com gente para que cada vez mais gente seja gente sem deixar de ser pessoa\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que diz&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-19522","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19522","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19522"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19522\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19522"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19522"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19522"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}