{"id":19575,"date":"2012-03-14T16:06:00","date_gmt":"2012-03-14T16:06:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19575"},"modified":"2012-03-14T16:06:00","modified_gmt":"2012-03-14T16:06:00","slug":"olhos-nos-olhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/olhos-nos-olhos\/","title":{"rendered":"Olhos nos olhos"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil falar de olhos nos olhos. Sobretudo para quem se debate com sentimentos de culpa ou de inferioridade (esta fraqueza \u00e9 bem explorada por muitos a quem o poder desequilibrou: sofrem e fazem sofrer). <\/p>\n<p>Nos encontros apaixonados, \u00e9 que n\u00e3o custa nada: nesses momentos, n\u00e3o importam qualidades e defeitos: \u00abapenas\u00bb nos amamos, e este \u00abapenas\u00bb \u00e9 tudo. E deseja-se ficar assim por toda uma eternidade! \u00c9 por isso que o amor precisa de tintas garantidas contra o desgaste do tempo (ver o sketch publicit\u00e1rio da 1.\u00aa carta aos Cor\u00edntios 13: \u00ab\u00c9 uma tinta que tudo suporta! N\u00e3o tem manchas de inveja nem de fanfarronice! Tudo perdoa, e as cores s\u00e3o ainda mais festivas quando olha o bem dos outros! Cr\u00ea na bondade de todos os olhos e n\u00e3o perde a cor, por muito tempo que fique \u00e0 espera!\u00bb). <\/p>\n<p>A 1.\u00aa leitura lembra que, cerca de 600 anos antes de Cristo, teve lugar a grande reforma religiosa do rei Josias, contempor\u00e2neo do profeta Jeremias. Um rei que \u00abagradou a Deus\u00bb, mas que n\u00e3o evitou a trag\u00e9dia: teimou em fazer frente ao rei do Egipto, quando este se preparava para atacar o reino da Babil\u00f3nia. N\u00e3o teve olhos para ver a decis\u00e3o mais s\u00e1bia \u2013 \u00abolhos nos olhos com Deus\u00bb \u00e9 coisa in\u00fatil se n\u00e3o nos conseguimos libertar dos preconceitos e da pris\u00e3o de busca de vantagens a todo o custo.<\/p>\n<p>Josias morreu no combate, e poucos meses depois ca\u00eda o reino de Jud\u00e1, \u00e0s m\u00e3os dos Caldeus. Come\u00e7ara o cativeiro de Babil\u00f3nia. O \u00abpovo de Deus\u00bb, que n\u00e3o tivera nem coragem nem a humildade da sabedoria para procurar os olhos de Deus, viu-se obrigado a encontr\u00e1-los atrav\u00e9s do sofrimento de um \u00abdescanso for\u00e7ado\u00bb de 70 anos \u2013 quando foi libertado por Ciro, um rei pag\u00e3o. S\u00f3 ent\u00e3o \u00e9 que o \u00abpovo escolhido\u00bb voltou a construir uma sociedade onde houvesse um templo incentivador da justi\u00e7a: pois s\u00f3 quem \u00abtem fome e sede de justi\u00e7a\u00bb \u00e9 capaz de um confiante \u201colhos nos olhos\u201d com Deus (Mateus 5,3-12).<\/p>\n<p>A Carta aos Ef\u00e9sios (da autoria de um disc\u00edpulo de S. Paulo) enfatiza a novidade de Cristo: Deus relaciona-se connosco como um pai com os filhos e n\u00e3o como um patr\u00e3o em cujas boas gra\u00e7as tentamos cair. Basta que os filhos se assumam como filhos, sem calar nem a revolta nem a confian\u00e7a \u2013 olhos nos olhos. O sofrimento tanto nos pode subjugar e aviltar como fazer-nos crescer e encontrar a sabedoria do olhar de Deus. <\/p>\n<p>S. Paulo, ali\u00e1s, procurava dar exemplo de como \u00e9 falar com Deus \u00abolhos nos olhos\u00bb: mesmo quando perseguia os disc\u00edpulos de Cristo, ou quando discordava de S. Pedro (G\u00e1latas 2,11-14), ou no meio das aventuras mais espinhosas para propagar o evangelho (1.\u00aa Cor\u00edntios 4,9-13), S. Paulo olhava para Deus como um filho, sem esconder nem defeitos nem virtudes. <\/p>\n<p>Olhar nos olhos \u00e9 poder sustentar o olhar de quem nos olha. \u00c9 gratificante quando partilhamos alegrias e sofrimentos, incertezas e desilus\u00f5es, desespero e esperan\u00e7a \u2013 como ter\u00e1 acontecido entre Nicodemos e Jesus. Mas s\u00f3 depois da morte de Jesus \u00e9 que os seus seguidores, pelos s\u00e9culos fora, descobriram que ele n\u00e3o partilhou apenas quanto amou e sofreu: partilhou a luz do seu olhar e a esperan\u00e7a de uma exist\u00eancia radicalmente nova. Sentiram em Jesus Cristo a \u00abvida eterna\u00bb (evangelho) \u2013 a for\u00e7a plena da Vida, que j\u00e1 sustenta esta vida mortal. (O adjectivo \u00abeterno\u00bb significa uma qualidade divina, acima da experi\u00eancia temporal).<\/p>\n<p>No evangelho, lemos que Nicodemos procurou Jesus, para falar com ele olhos nos olhos. \u00c9 verdade que veio de noite, mas n\u00e3o ter\u00e1 sido um acto de prud\u00eancia  para proteger a amizade? Na B\u00edblia, quantas vezes lemos que Deus se queixa de lhe dedicarem solenes festividades, bem \u00e0 luz do dia, mas sem terem coragem de falar com Deus \u00abolhos nos olhos\u00bb?<\/p>\n<p>Jesus, provavelmente j\u00e1 no seu tempo, daria a impress\u00e3o de algu\u00e9m \u00absempre vencido e sempre vencedor\u00bb: desprezado e crucificado, amado e corajosamente seguido. Um homem que nunca foi prisioneiro das situa\u00e7\u00f5es. Valia bem a pena aceitar a interroga\u00e7\u00e3o do seu olhar e n\u00e3o ter medo de apresentar o que nos vai na alma. <\/p>\n<p>O evangelho atribu\u00eddo a S. Jo\u00e3o cultiva especialmente o s\u00edmbolo da luz. Aceitar Deus \u00e9 n\u00e3o ter medo da luz. S\u00f3 prefere as trevas quem n\u00e3o faz jogo limpo. Aceitar Deus \u00e9 confiar no sucesso final de quem trabalha para que a humanidade n\u00e3o se envergonhe da maneira de gerir a sua hist\u00f3ria. Para n\u00e3o se desviar da justi\u00e7a e aprender com os erros, precisa de ter a coragem de sustentar uma conversa com Deus \u00abolhos nos olhos\u00bb.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt  <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-19575","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19575","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19575"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19575\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19575"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19575"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19575"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}