{"id":19585,"date":"2012-02-22T14:45:00","date_gmt":"2012-02-22T14:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19585"},"modified":"2012-02-22T14:45:00","modified_gmt":"2012-02-22T14:45:00","slug":"a-escrita-e-um-dispositivo-de-procura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-escrita-e-um-dispositivo-de-procura\/","title":{"rendered":"A escrita \u00e9 um dispositivo de procura"},"content":{"rendered":"<p>O escritor portuense M\u00e1rio Cl\u00e1udio (autor de \u201cTocata para Dois Clarins\u201d, \u201cPeregrina\u00e7\u00e3o de Barnab\u00e9 das \u00cdndias\u201d, \u201cCamilo Broca\u201d, \u201cTiago Veiga\u201d, entre outros t\u00edtulos de fic\u00e7\u00e3o, poesia e teatro) esteve no Centro Universit\u00e1rio, a convite do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA) para responder \u00e0 quest\u00e3o \u201cQue Deus se esconde na literatura?\u201d \u201cN\u00e3o se esconde. Revela-se\u201d, respondeu de rajada. A tert\u00falia, na noite de 1 de fevereiro, foi moderada pela professora universit\u00e1ria Cristina Carrington. Aqui ficam as principais ideias de M\u00e1rio Cl\u00e1udio numa recolha de Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>Lugar de revela\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Deus n\u00e3o se esconde na literatura. Revela-se.  A literatura \u00e9 lugar da f\u00e9 e de Deus \u2013 respondo de imediato. N\u00e3o se esconde em parte nenhuma. Mas revela-se na literatura como se releva em muitos outros lugares e situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por camadas<\/p>\n<p>Deus releva-se em termos de palimpsesto, como texto antigo sobre o qual foi escrito outro texto. \u00c9 necess\u00e1rio eliminar o mais recente para descobrir o mais antigo. O que escrevo anda sempre em torno de um texto precedente, um texto que n\u00e3o existe em mim, mas que vem ter comigo. Na minha escrita h\u00e1 uma busca que n\u00e3o \u00e9 consciente nem programada para chegar ao texto que est\u00e1 para l\u00e1 do texto. Quanto mais me aproximo, mais pr\u00f3ximo estou de Deus.<\/p>\n<p>Escada de Jacob<\/p>\n<p>A escrita \u00e9 uma forma de medita\u00e7\u00e3o, de subida, como a escada de Jacob, mas nos dois sentidos: sobe-se para chegar a Deus e desce-se em atitude de humildade, prostra\u00e7\u00e3o. A escada \u00e9 uma escada de eus at\u00e9 chegar ao Eu superior, Eu mai\u00fasculo, que \u00e9 Deus. Ao subir, procuro a pujan\u00e7a, a luz, o triunfo, o esplendor. Ao descer, imerjo na escurid\u00e3o, na \u201cnoite escura\u201d. H\u00e1 dois paradigmas: o barroco, do triunfo, e o rom\u00e2nico-cl\u00e1ssico, do despojamento.<\/p>\n<p>\u201cEscreviver\u201d<\/p>\n<p>Escrever \u00e9, como dizia David Mour\u00e3o-Ferreira, \u201cescreviver\u201d. Escrevo para recuperar a inoc\u00eancia perdida. \u00c9 uma atitude religiosa. Quem escreve ou cria atrav\u00e9s das artes o que procura, no fundo, \u00e9 descobrir-se antes do pecado original, recolocar-se no para\u00edso, revelar-se na dimens\u00e3o ad\u00e2mica.<\/p>\n<p>Procura<\/p>\n<p>A escrita \u00e9 um dispositivo de procura. N\u00e3o h\u00e1 escrita sem solid\u00e3o, isolamento, uma certa contempla\u00e7\u00e3o da vida similar \u00e0 de quem ingressa numa ordem religiosa. Significa isso um enfeudamento da escrita? N\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por ser apolog\u00e9tica e publicit\u00e1ria que a literatura aproxima de Deus. O que faz dela arte \u00e9 o talento, n\u00e3o a mat\u00e9ria religiosa. H\u00e1 muita escrita religiosa que n\u00e3o abre \u00e0 dimens\u00e3o divina. E h\u00e1 muita escrita n\u00e3o religiosa que nos leva a dizer: \u201cEste anda \u00e0 procura de Deus\u201d.<\/p>\n<p>Tenta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>H\u00e1, por outro lado, uma tenta\u00e7\u00e3o pante\u00edsta. Atrav\u00e9s da escrita revelamos o mundo e n\u00e3o nos conseguimos distinguir de Deus. Estamos, por assim dizer, no \u201cmilieu divin\u201d. A distin\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s e Deus \u00e9 praticamente invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Lermo-nos<\/p>\n<p>Escrever \u00e9 ler, \u00e9 lermo-nos, \u00e9 ler o mundo. Ler \u00e9 rescrever o que est\u00e1 escrito. N\u00e3o podemos passar sem o texto, como Teresa de \u00c1vila (que escrevia em cima de uma mula; n\u00e3o sei como era poss\u00edvel, porque os manuscritos t\u00eam uma caligrafia perfeit\u00edssima) ou Jacques Pr\u00e9vert, que falava da \u201ctristeza dos iletrados\u201d, dos que n\u00e3o t\u00eam para onde olhar, olham mas n\u00e3o veem, o seu olhar dissolve-se na paisagem.<\/p>\n<p>Lugar do outro<\/p>\n<p>O grande esfor\u00e7o que temos de fazer sempre \u00e9 colocarmo-nos no lugar do outro. \u00c9 mais f\u00e1cil citar o catecismo, como no caso dos divorciados recasados, que n\u00e3o podem comungar. <\/p>\n<p>Texto<\/p>\n<p>Deus existe sem texto. N\u00e3o h\u00e1 religi\u00f5es que n\u00e3o tenham textos. Deus revela-se no texto, mas est\u00e1 para al\u00e9m do texto. O g\u00e9nero humano vai deixar de existir, os textos v\u00e3o desaparecer. Deus vai continuar.<\/p>\n<p>Escritores ateus?<\/p>\n<p>N\u00e3o acredito em escritores ateus. Insurgem-se contra Deus. Afirmam presuntivamente que Deus n\u00e3o existe, mas fazem-no de forma magoad\u00edssima. Estamos todos a pensar no mesmo escritor. O que magoa o ateu \u00e9 a incapacidade de justificar o seu ate\u00edsmo. O ateu n\u00e3o pode provar. O crente tem s\u00e9culos e s\u00e9culos de reflex\u00e3o sobre Deus. O ateu est\u00e1 de m\u00e3os vazias. O ateu \u00e9 um homem em grande rebeli\u00e3o consigo pr\u00f3prio. H\u00e1 ateus dentro da comunidade de n\u00e3o ateus. E h\u00e1 crentes na comunidade dos ateus. N\u00e3o se revelam para n\u00e3o serem criticados.<\/p>\n<p>Fonte<\/p>\n<p>A fonte \u00e9 um lugar para onde tende a escrita e que est\u00e1 antes do pecado original. Teresa de \u00c1vila j\u00e1 dizia que n\u00e3o h\u00e1 apet\u00eancia por Deus se n\u00e3o houver Deus. \u00c9 algo que pr\u00e9-existe. N\u00e3o \u00e9 descoberta, \u00e9 revelada. \u00c9 completamente independente de n\u00f3s. De repente, contactamos com ela.<\/p>\n<p>Sacristia<\/p>\n<p>Nos anos 70, falar de Deus era quase uma obscenidade. Hoje h\u00e1 uma toler\u00e2ncia maior. E havia uma s\u00e9rie de escritores cat\u00f3licos oficiais que cheiravam a sacristia. Nas sacristias, h\u00e1 flores que apodrecem nos jarros, falta arejamento, h\u00e1 velas\u2026<\/p>\n<p>P\u00e9ssima arte<\/p>\n<p>Nos tempos recentes, entrou a m\u00fasica de p\u00e9ssima qualidade na Igreja Cat\u00f3lica, que era a igreja da grande m\u00fasica europeia. Consequ\u00eancia do Vaticano II? N\u00e3o sei. Dizem-me que n\u00e3o. H\u00e1, \u00e9 certo, uma tenta\u00e7\u00e3o do facilitismo, do feio, do grotesco. E isso \u00e9 diab\u00f3lico. Se \u00e9 para chamar os jovens, estes jovens n\u00e3o prestam para nada. Foi um \u201caggiornamento\u201d desastroso. Prefiro uma cerim\u00f3nia sem m\u00fasica a ter que sofrer aquela tortura. Se eu fosse mais novo, pela m\u00fasica e pelos textos (a \u201cFiloc\u00e1lia \u201d- cole\u00e7\u00e3o ortodoxa de textos de espiritualidade), convertia-me aos ortodoxos.<\/p>\n<p>Leitor da B\u00edblia<\/p>\n<p>Sou um leitor ass\u00edduo da B\u00edblia, dos Salmos, do Livro de Job, o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, de toda a B\u00edblia em geral, exceto o Livro do Apocalipse \u2013 o livro preferido dos surrealistas. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor portuense M\u00e1rio Cl\u00e1udio (autor de \u201cTocata para Dois Clarins\u201d, \u201cPeregrina\u00e7\u00e3o de Barnab\u00e9 das \u00cdndias\u201d, \u201cCamilo Broca\u201d, \u201cTiago Veiga\u201d, entre outros t\u00edtulos de fic\u00e7\u00e3o, poesia e teatro) esteve no Centro Universit\u00e1rio, a convite do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA) para responder \u00e0 quest\u00e3o \u201cQue Deus se esconde na literatura?\u201d \u201cN\u00e3o se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-19585","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19585","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19585"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19585\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19585"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19585"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}