{"id":19633,"date":"2012-03-01T10:16:00","date_gmt":"2012-03-01T10:16:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19633"},"modified":"2012-03-01T10:16:00","modified_gmt":"2012-03-01T10:16:00","slug":"o-sorriso-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-sorriso-de-deus\/","title":{"rendered":"O sorriso de Deus"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Algu\u00e9m pode acreditar num Deus que exige submiss\u00e3o a ordens claramente inaceit\u00e1veis, contra a dignidade do ser humano? <\/p>\n<p>O drama da 1.\u00aa leitura levanta esta e outras quest\u00f5es: Abra\u00e3o tem idade avan\u00e7ada, sem filhos de Sara, est\u00e9ril e agora velha. Por\u00e9m, Deus teima que \u00e9 de Sara (e n\u00e3o da escrava dela) que nascer\u00e1 o futuro pai do \u00abPovo escolhido\u00bb. Tudo isto \u00e9 t\u00e3o rocambolesco que Abra\u00e3o e Sara \u00abse riem\u00bb perante ideia t\u00e3o absurda (G\u00e9nesis 17,15-19). Mas n\u00e3o \u00e9 que Sara tem mesmo um filho? Deu-lhe o nome de Isaac (que significa \u00absorriso de Deus, Deus favor\u00e1vel\u00bb), dizendo: \u00abDeus deu-me uma raz\u00e3o para rir, e todos os que souberem o que se passou comigo me dar\u00e3o o seu sorriso\u00bb (Gn 21,6). Por\u00e9m, ainda Isaac era jovem, que pede Deus a Abra\u00e3o? \u2013 Que mate esse mesmo filho, como quem mata um animal num rito religioso!<\/p>\n<p>Abra\u00e3o cumpre o que lhe parece uma ordem divina. Levanta o bra\u00e7o para cravar o punhal \u2013 e se n\u00e3o fora o pr\u00f3prio Deus a travar-lhe o gesto, logo ali teria acabado a gera\u00e7\u00e3o dos patriarcas\u2026<\/p>\n<p>Sabemos hoje que, para os historiadores desse tempo, o mais importante era tirar li\u00e7\u00f5es das \u00abhist\u00f3rias\u00bb (mais ou menos lend\u00e1rias) que podem formar a \u00abhist\u00f3ria\u00bb. Neste caso, importava dar relevo \u00e0 f\u00e9 de Abra\u00e3o, que teve a coragem de deixar o seu ambiente seguro para embarcar numa aventura em que entram batalhas, destrui\u00e7\u00e3o de cidades, conflitos familiares\u2026 e a confian\u00e7a absoluta em que Deus, embora contra as apar\u00eancias, s\u00f3 quer o nosso bem.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, esta hist\u00f3ria t\u00e3o pouco pr\u00f3pria da religi\u00e3o judaica tamb\u00e9m cumpria o objectivo de condenar os costumes religiosos de alguns povos, que achavam ser \u00fatil sacrificar a Deus a vida das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Nenhum homem \u201cde boa f\u00e9\u201d poderia obedecer como Abra\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 verdade que muitas vezes desculpamos as nossas ac\u00e7\u00f5es, mesmo se p\u00e9rfidas e cru\u00e9is, dizendo que s\u00e3o da vontade de Deus? Que salva\u00e7\u00e3o podemos esperar com as guerras e chacinas do passado e presente \u2013 sem esquecer as \u201cchacinas soft\u201d causadas por pol\u00edticas perversas e pelo nosso ego\u00edsmo, sob a capa de uma economia mais \u00absaud\u00e1vel\u00bb ou de expans\u00e3o de uma dada religi\u00e3o? <\/p>\n<p>Deus ensinou a Abra\u00e3o que a vida n\u00e3o pode estar contra a vida. E para isso, \u00e9 preciso p\u00f4r claramente em primeiro lugar a vida: \u00e9 o sentido de \u00abamar a Deus sobre todas as coisas\u00bb, isto \u00e9, de se orientar pela exig\u00eancia divina da dignidade humana. Ao mesmo tempo, embora sob forma excessivamente dram\u00e1tica, lembra-nos que o amor exige desprendimento. N\u00e3o \u00e9 verdade que, se amamos os filhos, temos que nos saber desprender deles? E de quantas coisas temos n\u00f3s que nos desprender por amor a uma vida que valha a pena viver?<\/p>\n<p>O cristianismo viu nesta hist\u00f3ria o pren\u00fancio da hist\u00f3ria de Jesus Cristo: t\u00e3o amado por Deus e t\u00e3o abandonado na cruz.<\/p>\n<p> O epis\u00f3dio da transfigura\u00e7\u00e3o, provavelmente, \u00e9 uma forma imaginosa de exprimir a experi\u00eancia posterior de Jesus \u00abglorificado\u00bb (\u00abressuscitado\u00bb) por Deus: esse homem cruelmente desprezado e executado surgia vivo de um modo acima da compreens\u00e3o \u2013 que pode ser a nova vida da humanidade inteira. <\/p>\n<p>Todos os elementos da \u00abtransfigura\u00e7\u00e3o\u00bb remetem para antigos s\u00edmbolos da experi\u00eancia do divino, em si indescrit\u00edvel: resplendor das vestes, temor, nuvens\u2026 Jesus ser\u00e1 pois o verdadeiro Profeta (acima de Mois\u00e9s e Elias), o Messias prometido, que devemos escutar: s\u00f3 ele fala de Deus como um filho pode falar do pai (e o importante \u00e9 a maneira como um filho fala com os pais&#8230;). Esta cena do evangelho revela tamb\u00e9m como os ap\u00f3stolos tiveram consci\u00eancia da dificuldade em discernir \u00abo sorriso de Deus\u00bb!\t<\/p>\n<p>Em Jesus Cristo, Deus revelou-se como estando totalmente por n\u00f3s (2.\u00aa leitura). Porque ser\u00e1 que usamos (talvez cada vez menos) a express\u00e3o \u00abamo-te para sempre\u00bb? O amor, como a alegria, requer eternidade, ou n\u00e3o passa de um engano. <\/p>\n<p>Mas j\u00e1 nesta vida breve, precisamos de sorrisos: s\u00e3o os momentos de transfigura\u00e7\u00e3o, mesmo quando os outros e o pr\u00f3prio Deus fazem cara de poucos amigos.<\/p>\n<p> \u00c9 caso para \u00abarregalar os olhos\u00bb: haver\u00e1 sempre \u00absorrisos de Deus\u00bb no meio dos desconcertos da vida \u2013 e temos o poder de \u00abtransfigurar\u00bb o mundo com a Justi\u00e7a e a Beleza!  <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt   <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-19633","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19633","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19633"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19633\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}