{"id":19720,"date":"2011-01-26T09:34:00","date_gmt":"2011-01-26T09:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19720"},"modified":"2011-01-26T09:34:00","modified_gmt":"2011-01-26T09:34:00","slug":"as-pessoas-chegam-ao-casamento-sem-grande-conviccao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/as-pessoas-chegam-ao-casamento-sem-grande-conviccao\/","title":{"rendered":"&#8220;As pessoas chegam ao casamento sem grande convic\u00e7\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>P.e Manuel Joaquim Rocha publicou o livro \u201cAlian\u00e7as partidas\u201d (nas edi\u00e7\u00f5es Paulinas). Subt\u00edtulo: \u201cDivorciados recasados e outras situa\u00e7\u00f5es irregulares perante o matrim\u00f3nio\u201d. Nesta entrevista, o p\u00e1roco da Vera Cruz e juiz do Tribunal Diocesano de Aveiro, fala do drama dos cat\u00f3licos recasados, que n\u00e3o podem comungar, e das poss\u00edveis sa\u00eddas para esta situa\u00e7\u00e3o que causa ang\u00fastia em quem as vive e tamb\u00e9m naqueles que, em Igreja, os acompanham. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; Como surgiu o livro \u201cAlian\u00e7as partidas\u201d, que aborda principalmente a quest\u00e3o dos casais divorciados recasados ?<\/p>\n<p>MANUEL JOAQUIM ROCHA &#8211; Surgiu na sequ\u00eancia da tese de Direito Can\u00f3nico, em Salamanca, em que investiguei temas matrimoniais. Por outro lado, tinha acompanhado nas par\u00f3quias casais com estes problemas concretos. Achava que pod\u00edamos ir mais longe. Conhecia o trabalho desenvolvido em Lisboa e alguns passos dados na nossa Diocese\u2026<\/p>\n<p>\u2026um trabalho que entretanto esmoreceu\u2026<\/p>\n<p>Da minha parte, o tema n\u00e3o morreu nem o trabalho de acompanhamento. Posso falar em especial de um casal que veio ter comigo, vi a seriedade da vida deles, o interesse e ao mesmo tempo a amargura do testemunho. <\/p>\n<p>Amargura porque, sendo recasados, podem fazer quase tudo na Igreja menos comungar na Missa\u2026<\/p>\n<p>T\u00eam raz\u00e3o para sentir isso. Se o P\u00e3o \u00e9 partilhado por todos, n\u00f3s negamo-lo \u00e0queles que \u00e0s vezes mais precisavam dele para alimentar a sua vida, as suas dificuldades, os seus problemas e as suas revoltas anteriores?<\/p>\n<p>Mas temos de distinguir casal a casal, porque se h\u00e1 gente que sofre, quer mais, h\u00e1 gente que o faz s\u00f3 por fazer, que liga muito pouco \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3. O trabalho com estas pessoas tem de ser muito individualizado, casal a casal. Vemos que sofrem. E n\u00e3o temos mais nada para lhes dizer. Podem fazer tudo, tudo, \u201cmas s\u00f3 at\u00e9 aqui\u201d.<\/p>\n<p>O que se pode fazer, ent\u00e3o, com quem ap\u00f3s um primeiro casamento e div\u00f3rcio, refaz a sua vida e quer integrar a vida da Igreja?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, compreender a situa\u00e7\u00e3o, respeitar a realidade e ao mesmo tempo alimentar-lhe a esperan\u00e7a de que n\u00e3o \u00e9 \u00faltima palavra da Igreja. Outra via, ser\u00e1 abrir o processo no Tribunal Diocesano para que, se poss\u00edvel, seja declarado nulo o primeiro casamento. \u00c9 preciso anim\u00e1-los do ponto de vista da esperan\u00e7a e do ser Igreja. H\u00e1 muitas formas de participa\u00e7\u00e3o. Nem todas levam \u00e0 Reconcilia\u00e7\u00e3o e \u00e0 Comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Pensa que pode abrir-se dentro de pouco tempo a possibilidade de um segundo casamento cat\u00f3lico?<\/p>\n<p>Tinha a esperan\u00e7a de alguma mudan\u00e7a com este Papa. Dizia-se que quando o cardeal Ratzinger foi eleito Papa havia um documento no sentido de tratar este tema. Mas o assunto morreu. Ou nem sei se chegou a nascer. Este Papa reafirmou a doutrina que j\u00e1 estava.<\/p>\n<p>Mas a Igreja pode vir autorizar que os recasados se aproximem dos sacramentos?<\/p>\n<p>Penso que sim. Cada caso tem de ser analisado por si. N\u00e3o sou partid\u00e1rio de algumas coisas. O facto de permitir que eles v\u00e3o confessar-se comungar n\u00e3o resolve as situa\u00e7\u00f5es todas. H\u00e1 muitas formas de participa\u00e7\u00e3o, como temos vindo a reflectir.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o vejo inconvenientes numa solu\u00e7\u00e3o como a dos ortodoxos, atendendo a que Deus, como miseric\u00f3rdia, n\u00e3o abandona esta gente em situa\u00e7\u00f5es de crise. Os ortodoxos defendem como n\u00f3s a indissolubilidade do casamento, mas concedem uma b\u00ean\u00e7\u00e3o especial que permite participar na vida da igreja\u2026 Claro que n\u00e3o podemos banalizar as situa\u00e7\u00f5es, mas vendo casais que s\u00e3o s\u00e9rios, que se preocupam com a vida interior e com a educa\u00e7\u00e3o religiosa dos filhos, \u00e9 um caminho em que podemos pensar.<\/p>\n<p>Por que \u00e9 que o Bispo, que \u00e9 doutor na igreja e o garante da f\u00e9 nas comunidade, se pode permitir que um n\u00e3o baptizado case na igreja \u2013 limpa-lhe um impedimento que havia ali \u2013 , sendo pai na f\u00e9, n\u00e3o pode dizer: \u00abEst\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de assumir perante a comunidade a vossa participa\u00e7\u00e3o completa atrav\u00e9s da comunh\u00e3o\u00bb. Penso que se poderia delegar no Bispo este poder na sua diocese. J\u00e1 os bispos alem\u00e3es chegaram a sugerir que este papel pertencesse a um director espiritual\u2026<\/p>\n<p>Concebe, portanto, uma nova fun\u00e7\u00e3o episcopal\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o iria contra nada na Igreja. Simplesmente refor\u00e7aria a figura do bispo.<\/p>\n<p>Referiu a declara\u00e7\u00e3o da nulidade do casamento anterior.<\/p>\n<p>\u00c9 uma alternativa. Tem acontecido. H\u00e1 muitos processos. No ano passado, 2010, demos seis senten\u00e7as de nulidade. Este ano estamos com quatro processos em andamento.<\/p>\n<p>De qualquer modo, \u00e9 uma minoria que recorre a esta poss\u00edvel solu\u00e7\u00e3o. Seis num ano. S\u00e3o muit\u00edssimos mais os divorciados recasados.<\/p>\n<p>\u00c9 isso. Os tribunais, que s\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o apontada pela Igreja, n\u00e3o respondem. N\u00f3s demos seis. A n\u00edvel nacional, quantas senten\u00e7as deram? Em algumas dioceses o tribunal nem funciona. A solu\u00e7\u00e3o sendo objectiva, n\u00e3o se realiza nos casos concretos desta gente. As pessoas n\u00e3o acorrem, embora em Aveiro os padres estejam informados e as encaminhem. E depois, o processo \u00e9 moroso e tem custos. E nem sempre h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para alguns problemas. A solu\u00e7\u00e3o moral e espiritual do Bispo resolveria, sem diminuir o papel dos tribunais eclesi\u00e1sticos.<\/p>\n<p>Do seu pondo de vista de p\u00e1roco e juiz, por que acontecem tantos div\u00f3rcios? <\/p>\n<p>Das seis senten\u00e7as que demos, cinco empregaram um cap\u00edtulo que \u00e9 a \u201cfalta de descri\u00e7\u00e3o de ju\u00edzo\u201d, falta de maturidade. O que quer dizer que v\u00e3o para o matrim\u00f3nio sem saberem para onde v\u00e3o. E quando l\u00e1 entram, aparece uma vida em comum que n\u00e3o corresponde nada ao que tinham imaginado e com que se tinham comprometido. Isto acontece tamb\u00e9m por influ\u00eancia da sociedade em que vivemos \u2013 o Estado portugu\u00eas banalizou o casamento. O que \u00e9 que vale? Vale muito mais qualquer contrato de um neg\u00f3cio qualquer do que o do matrim\u00f3nio. Dissolve-se por m\u00fatuo acordo num not\u00e1rio\u2026 <\/p>\n<p>Os cursos de prepara\u00e7\u00e3o para o casamento n\u00e3o ajudam?<\/p>\n<p>Quando se pede um curso, o casamento j\u00e1 est\u00e1 decidido. Conhe\u00e7o somente um caso em que o casal adiou o casamento. E depois n\u00e3o houve casamento. As pessoas v\u00e3o sem grande convic\u00e7\u00e3o. H\u00e1 muito romantismo, muito idealismo, \u201ca gente resolve depois\u201d. Mas se n\u00e3o resolver antes, n\u00e3o resolve nada. A sociedade facilita muito e valoriza alguns princ\u00edpios que s\u00e3o prejudiciais: \u201cEu tenho sempre raz\u00e3o\u201d; \u201cEu fa\u00e7o o que quero\u201d; \u201cEu tenho os meus direitos\u201d; \u201cEu tenho direito a ser feliz\u201d. \u201cSe n\u00e3o est\u00e1 bem, mudas-te\u201d. E as pessoas mudam.<\/p>\n<p>Continua na pr\u00f3xima semana<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P.e Manuel Joaquim Rocha publicou o livro \u201cAlian\u00e7as partidas\u201d (nas edi\u00e7\u00f5es Paulinas). Subt\u00edtulo: \u201cDivorciados recasados e outras situa\u00e7\u00f5es irregulares perante o matrim\u00f3nio\u201d. 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