{"id":19734,"date":"2011-02-09T10:00:00","date_gmt":"2011-02-09T10:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19734"},"modified":"2011-02-09T10:00:00","modified_gmt":"2011-02-09T10:00:00","slug":"presenca-publica-contra-a-resignacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/presenca-publica-contra-a-resignacao\/","title":{"rendered":"Presen\u00e7a p\u00fablica contra a resigna\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Vivemos num tempo de escombros, de perda de refer\u00eancias. Pela primeira vez, a gera\u00e7\u00e3o mais nova tem um futuro frustrante pela frente. \u00c9 poss\u00edvel mudar? \u00c9. E aos cat\u00f3licos cabe estar no palco social com a sua \u201cdiferen\u00e7a positiva\u201d. Ecos da conversa com Jos\u00e9 Manuel Fernandes e D. Manuel Clemente.<\/p>\n<p>Falou-se de crise econ\u00f3mica e esperan\u00e7a, de perda de refer\u00eancias e mudan\u00e7a de mentalidades, de resigna\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a p\u00fablica dos crist\u00e3os. Mas no princ\u00edpio, foi a crise.  \u201cAt\u00e9 agora vivemos tempos dif\u00edceis, mas estamos a entrar numa fase mais dif\u00edcil e complexa. Foi uma d\u00e9cada perdida, mas olhamos para a frente e n\u00e3o vemos como podemos sair deste ramerrame\u201d, afirmou Jos\u00e9 Manuel Fernandes, jornalista, a quem coube abrir a \u201cconversa sobre a Igreja, Portugal e o mundo\u201d com D. Manuel Clemente, Bispo do Porto.<\/p>\n<p>O ex-director do \u201cP\u00fablico\u201d apontou como hino da gera\u00e7\u00e3o que tem agora menos de 30 anos a can\u00e7\u00e3o \u201cQue parva sou\u201d, do grupo Deolinda, que tem versos como estes: \u201cSou da gera\u00e7\u00e3o sem remunera\u00e7\u00e3o \/ E n\u00e3o me incomoda esta condi\u00e7\u00e3o \/ Que parva que eu sou \/ Porque isto est\u00e1 mal e vai continuar \/ J\u00e1 \u00e9 uma sorte eu poder estagiar (\u2026) \/ E fico a pensar, \/ Que mundo t\u00e3o parvo \/ Onde para ser escravo \u00e9 preciso estudar\u201d. E explicou: \u201cA democracia contribuiu para o crescimento econ\u00f3mico e redistribui\u00e7\u00e3o dos recursos, mas, pela primeira vez, h\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a viver pior do que a anterior. Em Portugal, o desemprego anda pelos 10 %. Entre os jovens, \u00e9 20 %. Entre os jovens licenciados \u00e9 25%. Trata-se de uma gera\u00e7\u00e3o posta de lado porque os mais velhos taparam os empregos, os lugares nas chefias\u201d.<\/p>\n<p>O jornalista considera que \u201ch\u00e1 muitas raz\u00f5es para estarmos preocupados e inquietos\u201d, porque cada empr\u00e9stimo [contra\u00eddo por Portugal] \u00e9 mais uma cavadela no buraco em que vamos cair\u201d. J\u00e1 no final da conversa, diria que Portugal foi um dos pa\u00edses que perdeu com a globaliza\u00e7\u00e3o, a par da It\u00e1lia e da Gr\u00e9cia. \u201cO que aconteceu com a globaliza\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que se dizia h\u00e1 10 ou 15 anos, foi que muita gente saiu da pobreza na \u00cdndia, na China, na Indon\u00e9sia. Nunca houve nada assim na hist\u00f3ria da humanidade. Mas n\u00f3s estamos na parte do mundo que est\u00e1 a perder devido \u00e0 nossa incapacidade de mudar\u201d. <\/p>\n<p>Tudo negativo? \u201cOs escombros s\u00e3o tamb\u00e9m morais \u2013 continua Jos\u00e9 Manuel Fernandes \u2013 porque muitas das refer\u00eancias se perderam. (Mas) h\u00e1 sinais positivos, como as manifesta\u00e7\u00f5es organizadas atrav\u00e9s das redes sociais. \u00c9 necess\u00e1rio criar esse tipo de movimentos. N\u00e3o fiquem a pensar nas reivindica\u00e7\u00f5es ou que algu\u00e9m, o Estado, trate desse problema, mas perguntem o que podemos fazer para mudar\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil conversar\u201d<\/p>\n<p>D. Manuel Clemente teve um discurso mais positivo, embora come\u00e7asse por refor\u00e7ar que \u201cos escombros s\u00e3o econ\u00f3micos, culturais, restos de coisas, de refer\u00eancias\u201d, e notasse o ocaso da conversa\u00e7\u00e3o como sintoma do mal-estar actual. \u201c\u00c9 dif\u00edcil conversar. Dizem-se umas coisas. Saltita-se de um lado para o outro sem um fio coerente. Algu\u00e9m dizia: \u00abEu c\u00e1 n\u00e3o sei, mas digo que\u2026\u00bb Torna-se dif\u00edcil o di\u00e1logo assim. H\u00e1 confus\u00e3o de pensamento, perde-se o fio \u00e0 meada por causa de uma ret\u00f3rica vazia feita de mil estratagemas e frases repetidas\u201d. Os sinais positivos v\u00eam das pr\u00f3prias pessoas, como n\u00e3o poderia deixar de ser. \u201cH\u00e1 ind\u00edcios de constru\u00e7\u00e3o, gente que acorda, detecta, procura. Encontro muita gente dispon\u00edvel durante visitas pastorais nas escolas, associa\u00e7\u00f5es, IPSS\u2026 Voluntariado para criar e inovar. H\u00e1 uma disponibilidade-base que \u00e9 garantia de que as coisas se podem resolver\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Das palavras do Bispo do Porto e Pr\u00e9mio Pessoa 2009 destaca-se a preocupa\u00e7\u00e3o com a presen\u00e7a crist\u00e3 no espa\u00e7o p\u00fablico. D. Manuel Clemente nota que houve uma mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o com a liberdade, que passou a ser entendida como possibilidade de escolha em meados da d\u00e9cada de 1980, quando at\u00e9 ent\u00e3o era essencialmente \u201cliberdade pol\u00edtica, institucional\u201d. A liberdade passou a ser mais individualista e em \u201cchoque com o institucional\u201d, o que dificulta a afirma\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a crist\u00e3. Este individualismo coexiste com os \u201cpreconceitos oitocentistas que reduziam a religi\u00e3o no espa\u00e7o p\u00fablico\u201d. \u201cSomos temerosos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a da religi\u00e3o no espa\u00e7o p\u00fablico. Por isso, um meu colega padre chamou \u00e0 capela mortu\u00e1ria \u201ccentro interpretativo do divino\u201d. E um dia perguntei a um cangalheiro porque \u00e9 que tinha um barrete no seu carro f\u00fanebre. Respondeu-me: \u00ab\u00c9 para enfiar no crucifixo\u00bb. H\u00e1 gente que se incomoda\u201d.<\/p>\n<p>D. Manuel Clemente defende que \u201cse h\u00e1 sensibilidades diferentes, em vez de tirar, \u00e9 preciso p\u00f4r\u201d, pois como estamos, a \u201cp\u00f3s-modernidade n\u00e3o \u00e9 espa\u00e7o de ningu\u00e9m. Nenhum de n\u00f3s l\u00e1 se reencontra\u201d. Na mesma linha, afirmou que \u201ca toler\u00e2ncia n\u00e3o chega. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mau. \u00c9 melhor do que oprimir os outros. Mas \u00e9 preciso respeito m\u00fatuo. S\u00f3 com respeito se pode mobilizar\u201d. Este respeito cria espa\u00e7o para as diferentes propostas, incluindo a crist\u00e3. \u201cComo crist\u00e3os cat\u00f3licos temos de estar no debate social porque temos propostas espec\u00edficas para o futuro, numa diferen\u00e7a positiva, sempre com quatro refer\u00eancias\/princ\u00edpios: dignidade da pessoa humana, bem comum, subsidiariedade, solidariedade\u201d.<\/p>\n<p>A \u201cconversa\u201d com o Bispo e o jornalista, que publicaram um livro conjunto \u00e0 volta destes temas, foi promovida pela Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura de Aveiro, com o apoio da C\u00e2mara Municipal. A iniciativa decorreu no Teatro Aveirense, na noite de 3 de Fevereiro, abrindo com uma pe\u00e7a de dan\u00e7a da Companhia de Dan\u00e7a Aveiro. A ades\u00e3o dos que quiseram ouvir a conversa surpreendeu a organiza\u00e7\u00e3o, que, ap\u00f3s a lota\u00e7\u00e3o da plateia, teve de abrir o balc\u00e3o \u2013 o que n\u00e3o estava previsto.<\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos num tempo de escombros, de perda de refer\u00eancias. Pela primeira vez, a gera\u00e7\u00e3o mais nova tem um futuro frustrante pela frente. \u00c9 poss\u00edvel mudar? \u00c9. E aos cat\u00f3licos cabe estar no palco social com a sua \u201cdiferen\u00e7a positiva\u201d. Ecos da conversa com Jos\u00e9 Manuel Fernandes e D. Manuel Clemente. 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