{"id":19857,"date":"2012-04-04T16:45:00","date_gmt":"2012-04-04T16:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19857"},"modified":"2012-04-04T16:45:00","modified_gmt":"2012-04-04T16:45:00","slug":"liliana-segre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/liliana-segre\/","title":{"rendered":"Liliana Segre"},"content":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de Jacob &#8211; 101 <!--more--> Uma vida \u00e9 como um livro \u00fanico, escrito pela s\u00e1bia, amorosa, providente e delicada m\u00e3o de Deus. Claro que com a nossa colabora\u00e7\u00e3o. Todas as vidas, se quisermos, para Deus, s\u00e3o como os contos de fadas. Terminam sempre assim: Foram felizes para sempre! Pode aparecer a bruxa m\u00e1, o veneno que mata, a doen\u00e7a, a velhice, o erro, o pecado, a desilus\u00e3o\u2026 Cada vida \u00e9 tecida dessa mat\u00e9ria, tamb\u00e9m de atos her\u00f3icos de amor, fidelidade, f\u00e9, dor, generosidade. Ora repleta de alegria, ora de tristeza. Ora de sorrisos, ora de l\u00e1grimas, ora de vida, ora de morte. Nisso, o livro de Coelet ou Eclesiastes \u00e9 uma joia de sabedoria e de deliciosas palavras.<\/p>\n<p>Cada pessoa poderia escrever o livro da sua vida. Ou algu\u00e9m poderia escrever sobre n\u00f3s depois que partirmos. Todas s\u00e3o admir\u00e1veis, ainda que marcadas pelo \u00f3dio. S\u00f3 Deus sabe o que se passa no cora\u00e7\u00e3o dos homens.<\/p>\n<p>Quando presido a um funeral, vejo ali, naquele corpo morto, uma hist\u00f3ria admir\u00e1vel que teve o seu ponto final. \u00c0s vezes conseguimos sublinhar um cap\u00edtulo para edifica\u00e7\u00e3o da comunidade. Outras vezes, sem nada para contar, deixamos tudo na leitura de Deus. Tamb\u00e9m se dizia de santa Teresinha que n\u00e3o havia nada para contar dela e, no entanto, em cada ano que passa, s\u00e3o publicados livros sobre ela, de modo inesgot\u00e1vel. \u201cHist\u00f3ria de uma alma\u201d \u00e9 dos livros mais lidos no mundo\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 folhas que s\u00f3 Deus pode ler. H\u00e1 cap\u00edtulos que poderiam n\u00e3o estar no gui\u00e3o original, mas o uso da nossa liberdade, bem ou mal, deu-lhes a orienta\u00e7\u00e3o e o sentido que Deus ousou. Ele escreve direito por linhas tortas.<\/p>\n<p>\u201cA minha vida dava um romance\u201d. Ou\u00e7o isso v\u00e1rias vezes por ano. \u00c9 verdade. A vida de cada um de n\u00f3s dava um romance, porque \u00e9 uma hist\u00f3ria de amor. Uma delas \u00e9 a de Liliana Segre. O livro est\u00e1 por a\u00ed \u00e0 venda. Delicioso, na dor.<\/p>\n<p>Sobrevivente de Auschwitz, viveu l\u00e1 precisamente no \u00faltimo ano da guerra. Ali perdeu o seu pai. A sua m\u00e3e j\u00e1 tinha falecido antes da guerra. Tinha s\u00f3 13 anos quando foi deportada desde Mil\u00e3o. Judia, mas sem f\u00e9 ainda hoje, como ela diz. Conta-nos a experiencia da pris\u00e3o, o horror da viagem de seis dias num vag\u00e3o de gado, sem comer nem beber, a chegada, a sele\u00e7\u00e3o repetida v\u00e1rias vezes para ver quem morria ou quem ficava mais uns dias vivo, a fome, o mau cheiro, o ego\u00edsmo para sobreviver, a generosidade quando poss\u00edvel, o desfile intermin\u00e1vel de pessoas para serem gazeadas, os insultos, as rea\u00e7\u00f5es dos guardas, o trabalho na f\u00e1brica e a \u00fanica refei\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, o desprezo da popula\u00e7\u00e3o, a liberta\u00e7\u00e3o do campo e a caminhada da morte, o estar livre e ningu\u00e9m acreditar nela, o bicho raro em que se transformou no p\u00f3s-guerra\u2026 Enfim, uma vida que, saboreada, nos leva a dar gra\u00e7as a Deus pela que temos. E n\u00f3s que nos queixamos tanto!<\/p>\n<p>Mas, entre muitas coisas que ela ainda hoje conta por todo o mundo, numa humildade imensa, na alegria de ter a sua fam\u00edlia constitu\u00edda, h\u00e1 um momento da sua vida que comove profundamente, tamb\u00e9m revolta e nos obriga a pensar no que far\u00edamos naquele momento: Ao fugir do campo, v\u00ea ao seu lado um guarda-chefe tenebroso e cruel do campo para onde lhe levou a caminhada da morte, na Alemanha, e repara que ele despe a sua farda porque quer ir ter com a sua fam\u00edlia, pelo que deita fora tudo quanto o possa comprometer perante as tropas russas e americanas. Nesse entretanto, deixa cair a sua arma aos p\u00e9s de Liliana. Ou\u00e7am: \u201cQuando atirou a pistola aos meus p\u00e9s, com todo o \u00f3dio que tinha dentro de mim, e a viol\u00eancia sofrida que me invadia o corpo, pensei: \u00abNo meio desta confus\u00e3o, pego na pistola e mato este homem!\u00bb Seria a a\u00e7\u00e3o mais justa. Foi um instante important\u00edssimo na minha vida, que me fez compreender que, por motivo nenhum do mundo, eu poderia ter matado. Que na fraqueza extrema em que me encontrava, a minha \u00e9tica e o amor recebido em crian\u00e7a, me impediam de me tornar igual a esse homem. Nunca poderia apanhar a pistola para o matar! Eu sempre, no campo, escolhi a vida. Quando se escolhe a vida, n\u00e3o se pode tirar a vida a ningu\u00e9m. E desde aquele momento, passei a ser livre\u201d. Sem mais palavras.<\/p>\n<p>Vitor Espadilha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de Jacob &#8211; 101<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-19857","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19857","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19857"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19857\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19857"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19857"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19857"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}