{"id":19863,"date":"2012-04-18T15:49:00","date_gmt":"2012-04-18T15:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19863"},"modified":"2012-04-18T15:49:00","modified_gmt":"2012-04-18T15:49:00","slug":"a-revolucao-trazida-pela-ressurreicao-fica-diluida-dentro-de-um-discurso-ja-resolvido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-revolucao-trazida-pela-ressurreicao-fica-diluida-dentro-de-um-discurso-ja-resolvido\/","title":{"rendered":"&#8220;A revolu\u00e7\u00e3o trazida pela ressurrei\u00e7\u00e3o fica dilu\u00edda dentro de um discurso j\u00e1 resolvido&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>O especialista de estudos de mercado e opini\u00e3o Carlos Liz explica que a P\u00e1scoa, sendo uma marca forte, \u00e9 t\u00edmida, porque perde for\u00e7a no an\u00fancio. A Igreja deveria investir numa nova linguagem e numa semana, \u00e0 semelhan\u00e7a da Semana Santa, dedicada \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o. \u201cDo ponto de vista simb\u00f3lico, de criar narrativas para a sociedade, temos muito de sofrimento, e pouco de ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d, afirma. Entrevista conduzida por L\u00edgia Silveira, da Ag\u00eancia Ecclesia.<\/p>\n<p>A marca \u00abP\u00e1scoa\u00bb \u00e9 apelativa?<\/p>\n<p>Carlos Liz &#8211; A ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 um tema muito forte e inesperado na vida das pessoas, das sociedades e da Hist\u00f3ria. Creio que uma das dimens\u00f5es mais interessantes da Igreja \u00e9 assumir a sua originalidade, a sua diferen\u00e7a sobre muitas outras coisas que acontecem no mundo.<\/p>\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o direta, vis\u00edvel, extraordin\u00e1ria de Deus na Hist\u00f3ria dos homens, muito mais forte do que o Natal, por exemplo. Nessa \u00e9poca nasce uma crian\u00e7a especial. Sabemos n\u00f3s ao que vinha e para onde ia. Existe uma certa normalidade com o Natal que n\u00e3o existe na P\u00e1scoa, por isso \u00e9 uma grande oportunidade para comunicar o transcendente no m\u00e1ximo da sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>O percurso de vida de Cristo, com uma interven\u00e7\u00e3o de Deus na anula\u00e7\u00e3o da morte e na cria\u00e7\u00e3o da vida, \u00e9 um caso \u00fanico. Do ponto de vista do marketing, esta \u00e9 uma marca sem compara\u00e7\u00e3o. As marcas s\u00e3o boas quando se conseguem distinguir umas das outras, quando os consumidores conseguem distinguir o melhor e o parecido com as demais. A marca ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fanica.<\/p>\n<p>O que pode acontecer, por a Igreja ter perdido import\u00e2ncia no mundo contempor\u00e2neo, \u00e9 que este extraordin\u00e1rio acontecimento dilui-se e os cat\u00f3licos n\u00e3o tiram, penso eu, todo o partido que deveriam tirar desta interven\u00e7\u00e3o do divino na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 uma marca muito forte, mas muito t\u00edmida, do ponto de vista da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A estranheza adv\u00e9m da falta de abertura ao transcendente?<\/p>\n<p>De facto, a ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 parecida com nada. Por muito que se tivesse escrito, que houvesse uma hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o, que se acreditasse do ponto de vista racional, uma coisa \u00e9 prever, outra \u00e9 ver.<\/p>\n<p>A P\u00e1scoa \u00e9 uma marca identit\u00e1ria da presen\u00e7a de Deus, \u00e9 a marca do Deus, tal como os crist\u00e3os entendem a abordagem do divino. Desse ponto de vista percebemos o porqu\u00ea de os textos sagrados falarem da centralidade da ressurrei\u00e7\u00e3o, da import\u00e2ncia da semana santa em que cada dia e hora contam. H\u00e1 um culminar no domingo de P\u00e1scoa. \u00c9 uma narrativa interessante e com muita audi\u00eancia, com certeza, se fosse contada corajosamente, como esta presen\u00e7a de Deus junto dos homens. Nem sempre \u00e9.<\/p>\n<p>Falta uma afinidade p\u00fablica, utilizando express\u00f5es da \u00e1rea publicit\u00e1ria? Que ingredientes faltam para tornar a mensagem comum?<\/p>\n<p>Falta sobretudo romper a linguagem habitual. Um dos grandes problemas na nossa Igreja e de todos n\u00f3s \u00e9 a circularidade da linguagem, ou seja, vamos repetindo, fazendo pequenas varia\u00e7\u00f5es e d\u00e1 a impress\u00e3o que j\u00e1 todos ouviram. Como n\u00e3o conseguimos ser inovadores na forma de comunicar, frequentemente tem-se a sensa\u00e7\u00e3o de ciclo repetido. Esta revolu\u00e7\u00e3o trazida pela ressurrei\u00e7\u00e3o acaba por ficar dilu\u00edda dentro de um discurso j\u00e1 ouvido.<\/p>\n<p>Talvez o primeiro exerc\u00edcio fundamental para que a ressurrei\u00e7\u00e3o atinja toda a plenitude e seja um instrumento de servi\u00e7o na evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 ter a coragem de inovar, de dizer de outra maneira e nesta procura, encontrar novos \u00e2ngulos e com isso atrair novos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Nos discursos oficiais, do Papa dos bispos, que s\u00e3o obviamente cheios de sentido, o sistema medi\u00e1tico pega em mini-extratos, que s\u00e3o normalmente pequenas s\u00ednteses que j\u00e1 ouvimos. H\u00e1 uma necessidade de convers\u00e3o lingu\u00edstica.<\/p>\n<p>Falamos de incapacidade de linguagem ou de incapacidade de a ligar \u00e0 vida pessoal?<\/p>\n<p>Quando penso na P\u00e1scoa e nesta for\u00e7a fora do comum, estou pouco preocupado com a vida pessoal de cada um. Digo isto de prop\u00f3sito. Claro que todas as coisas do Evangelho t\u00eam de ser aplicadas na minha vida pessoal, tem de se perder algum tempo a dizer como \u00e9 bom morrer para o pecado (e estou a cair em linguagem instalada), falar como \u00e9 bom retomar um novo ciclo. Mas o que me parece importante \u00e9 que se h\u00e1 um momento ao longo do calend\u00e1rio do ano civil em que eu posso falar de Deus com interven\u00e7\u00e3o direta, \u00e9 agora.<\/p>\n<p>Nascer e morrer pode acontecer com todos, no ressuscitar a interven\u00e7\u00e3o \u00e9 de Deus. A P\u00e1scoa, relacionando-se com um homem que aceitou ser concreto, \u00e9 o grande palco de interven\u00e7\u00e3o do divino ao seu mais alto n\u00edvel.<\/p>\n<p>Eu estaria mais interessado em demonstrar a P\u00e1scoa como essa grande interven\u00e7\u00e3o do grande divino, do que procurar ila\u00e7\u00f5es para a minha vida, que existem com certeza.<\/p>\n<p>A publicidade vende imagens de alegria, imagens perfeitas. \u00c0 P\u00e1scoa chegamos carregados de 40 dias de ren\u00fancia. Pode ser esta uma condicionante para que o discurso da alegria pascal n\u00e3o se transforme numa marca vis\u00edvel na vida das pessoas?<\/p>\n<p>Seria se a Igreja tivesse essa influ\u00eancia. Talvez para quem faz jejum, para quem anda 40 dias a refletir sobre a vida, mas esse \u00e9 um per\u00edodo para os convertidos. A publicidade trata a sociedade em geral e eu n\u00e3o tenho a certeza de a sociedade estar assim sensibilizada para essa gram\u00e1tica do sofrimento. Creio que uma boa maioria da sociedade atualmente n\u00e3o nota esse percurso, portanto, n\u00e3o vejo algum tipo de penaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acho, sim, que antes da alegria, a comunica\u00e7\u00e3o da ressurrei\u00e7\u00e3o deveria centrar-se na surpresa e no poder do transcendente. Sem medo de saber que na sociedade h\u00e1 quem n\u00e3o acredite, quem tenha muitas vers\u00f5es. O que \u00e9 identit\u00e1rio, o que \u00e9 novo e escapa ao programa, o que nenhuma religi\u00e3o tem para oferecer \u00e9 esta capacidade de ressuscitar e com isso provar que aquele homem era filho de Deus. Isso \u00e9 mais do que a alegria.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o grande momento de Deus aparecer na Hist\u00f3ria. Se o comunicar com for\u00e7a, mesmo que n\u00e3o seja seguida, pelo menos mostra claramente que \u00e9 aquilo. A ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 a raz\u00e3o de ser da Igreja crist\u00e3 como a percebemos.<\/p>\n<p>O que h\u00e1 a comunicar, mais do que a pr\u00f3pria vida humana de Jesus, \u00e9 o poder imenso de Deus.<\/p>\n<p>O Natal constituiu uma marca j\u00e1 institu\u00edda?<\/p>\n<p>Sim, porque menos problem\u00e1tica. \u00c9 profundamente humana, tem toda uma narrativa com personagens que reconhecemos \u2013 uma m\u00e3e, um pai, testemunhas, tem uma localiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 um nascimento que tem um significado sempre muito positivo. Por isso \u00e9 uma marca universalmente aceite, por crentes e n\u00e3o crentes.<\/p>\n<p>\u00c9 muito diferente da marca P\u00e1scoa. Fundamental no marketing \u00e9 a clareza das propostas de valor, ou seja, as pessoas perceberem exatamente o que aquilo \u00e9, o que significa, para que serve na minha vida. O Natal apresenta ideias claras, a P\u00e1scoa n\u00e3o tanto. A sua integra\u00e7\u00e3o e proposta de valor s\u00e3o menos claras.<\/p>\n<p>Na P\u00e1scoa talvez o peso entre o humano, o sagrado e o divino esteja ainda desequilibrado. Pega-se muito na personagem hist\u00f3rica e quase que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para saborear essa transforma\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o direta de Deus na hist\u00f3ria. Essa \u00e9 a novidade da P\u00e1scoa. Essa novidade \u00e9 que parece infra comunicada.<\/p>\n<p>Porqu\u00ea a dicotomia Norte\/Sul? Um fim de semana prolongado ou as prociss\u00f5es e imagens p\u00fablicas que marcam este tempo? Existem duas sociedades diferentes?<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise sociol\u00f3gica do pa\u00eds existem de facto diferen\u00e7as significativas, n\u00e3o apenas neste campo religioso, entre o Norte e o Sul, no interior e litoral, ou urbano versus rural.<\/p>\n<p>Se em Lisboa n\u00e3o h\u00e1 prociss\u00f5es e h\u00e1 um fim de semana prolongado, eu diria que no Norte h\u00e1 uma esp\u00e9cie de fim de semana prolongado com prociss\u00f5es.<\/p>\n<p>Sabemos que existem diferentes n\u00edveis de ades\u00e3o a fen\u00f3menos de religiosidade, diferentes liga\u00e7\u00f5es a igrejas paroquiais, mas seja o fim de semana prolongado, consequente do laicismo que se foi instalando, seja no campo das prociss\u00f5es, estamos perante um facto curioso que \u00e9 a presen\u00e7a de um tempo diferente do habitual.<\/p>\n<p>A Semana Santa marca um tempo diferente do restante ano e, por isso, h\u00e1 da parte das audi\u00eancias um tempo especial de escuta para algo novo. As prociss\u00f5es, no tempo do sofrimento, t\u00eam uma despropor\u00e7\u00e3o enorme comparado ao tempo da ressurrei\u00e7\u00e3o, onde n\u00e3o h\u00e1 uma prociss\u00e3o ressuscitadora. H\u00e1 a vig\u00edlia pascal, com a luz de Cristo, mas est\u00e3o desproporcionadas em rela\u00e7\u00e3o ao percurso mais c\u00e9nico da reconstitui\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos dias de Jesus.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da comunica\u00e7\u00e3o seria importante ter uma semana inteira, logo ap\u00f3s a ressurrei\u00e7\u00e3o, a saudar a interven\u00e7\u00e3o de Deus na Hist\u00f3ria. Valeria a pena pensar, em termos comunicacionais, o que fazer com esta ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do ponto de vista simb\u00f3lico, de criar narrativas para a sociedade, temos muito de sofrimento, e pouco de ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Devolvia-lhe a pergunta \u2013 o que fazer com a ressurrei\u00e7\u00e3o em termos comunicacionais?<\/p>\n<p>A semana a seguir \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o seria, a meu ver, uma semana para falar de Deus e n\u00e3o continuar a falar de Jesus Cristo, e faz\u00ea-lo num tom de reconhecimento de que a humanidade conta com um aliado poderoso \u2013 cada vez mais a sociedade est\u00e1 dispon\u00edvel para ouvir explica\u00e7\u00f5es e formas de ver o mundo que ultrapassam a vulgaridade e est\u00e1 aberta a um divino.<\/p>\n<p>H\u00e1 esta grande oportunidade de Deus falar por ele pr\u00f3prio \u2013 o porqu\u00ea de enviar o seu filho, de ele morrer, e porque \u00e9 que o ressuscita e o chama para si e com isso chamar a humanidade com ele. \u00c9 a grande oportunidade para a Igreja apresentar a sua vis\u00e3o de sentido numa sociedade em que o tema do transcendente faz parte da procura de sentido que fazemos. Deveria ser um tempo de abertura, de porta dos gentios, uma grande semana de s\u00edntese sobre o que \u00e9 o projeto de Deus para a humanidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 sinais de que isso possa estar a acontecer?<\/p>\n<p>A Igreja tem-se mantido em contacto permanente com a sociedade, n\u00e3o desiste da sociedade, e isso \u00e9 bem feito. Vejo sinais e possibilidades \u2013 utiliza\u00e7\u00e3o plena da televis\u00e3o e da r\u00e1dio, a Internet, a imprensa, ou seja, a Igreja tem meios suficientes para fazer isso. Se o constante atualizar da linguagem e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o significa uma vontade da Igreja n\u00e3o desiste e estar atenta, ent\u00e3o sim h\u00e1 sinais.<\/p>\n<p>Como t\u00e9cnico de estudos de mercado digo que h\u00e1 ainda mercado para falar da ressurrei\u00e7\u00e3o ao mundo. A tese \u00e9 que deveria ser feita agora, no tempo da ressurrei\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 a prova que Deus interv\u00e9m e muda tudo. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O especialista de estudos de mercado e opini\u00e3o Carlos Liz explica que a P\u00e1scoa, sendo uma marca forte, \u00e9 t\u00edmida, porque perde for\u00e7a no an\u00fancio. 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