{"id":19878,"date":"2012-03-28T17:48:00","date_gmt":"2012-03-28T17:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19878"},"modified":"2012-03-28T17:48:00","modified_gmt":"2012-03-28T17:48:00","slug":"das-ambiguidades-do-tempo-a-clareza-conciliar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/das-ambiguidades-do-tempo-a-clareza-conciliar\/","title":{"rendered":"Das ambiguidades do tempo \u00e0 clareza conciliar"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 nesta perspetiva que podemos situar a reflex\u00e3o conciliar sobre a Igreja. Ao contr\u00e1rio do que vinha de tr\u00e1s, o Conc\u00edlio n\u00e3o nos deu uma defini\u00e7\u00e3o de Igreja, mas mostrou-nos como ela corresponde \u00e0 iniciativa de Deus, os seus elementos essenciais, a dignidade dos seus membros, a sua miss\u00e3o e a voca\u00e7\u00e3o de plenitude. A dimens\u00e3o b\u00edblica e espiritual p\u00f5e de lado ou d\u00e1 outro sentido aos elementos hier\u00e1rquico, jur\u00eddico e apolog\u00e9tico, at\u00e9 ali dominantes.<\/p>\n<p>Com base no poder, a Igreja s\u00f3 podia ser uma sociedade de desiguais. Assim chegou a ser definida. Num documento famoso de 1906, o pr\u00f3prio papa Pio X, seguindo a mentalidade de ent\u00e3o, disse aos bispos franceses: \u201cA Igreja \u00e9 por ess\u00eancia um sociedade desigual, quer dizer, uma sociedade que se comp\u00f5e de duas categorias de pessoas, os pastores e o rebanho, a hierarquia e a multid\u00e3o dos fi\u00e9is\u201d. A conclus\u00e3o era \u00f3bvia: o clero tem o poder de ordem e de jurisdi\u00e7\u00e3o para ensinar; os leigos s\u00e3o a Igreja que aprende, escuta, obedece e s\u00e3o santificados pelos sacerdotes. Tudo se ordenava neste sentido: os lugares nas celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas, os modos solenes de comunica\u00e7\u00e3o dos bispos com os crist\u00e3os, o p\u00falpito, lugar de autoridade do padre, o estudo da teologia, privil\u00e9gio dos cl\u00e9rigos. Algu\u00e9m anotou, a fim de mostrar esta orienta\u00e7\u00e3o, que no C\u00f3digo do Direito Can\u00f3nico ent\u00e3o em vigor e at\u00e9 ao atual, n\u00e3o obstante a muita legisla\u00e7\u00e3o complementar, j\u00e1 fruto do Vaticano II, h\u00e1 379 c\u00e2nones sobre os cl\u00e9rigos, 200 sobre os religiosos e apenas 44 sobre os leigos, ainda com mais refer\u00eancias indiretas sobre deveres a cumprir do que afirma\u00e7\u00f5es diretas sobre o seu lugar na Igreja.<\/p>\n<p>Poder-se-\u00e1 resumir assim a fisionomia da Igreja pr\u00e9-conciliar, para que melhor se entenda o motivo que levou Jo\u00e3o XXIII \u00e0 sua decis\u00e3o, a orienta\u00e7\u00e3o do debate e, por fim, a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o: Uma Igreja, sociedade de desiguais, de cariz vincadamente hier\u00e1rquico; uma Igreja com um forte acento sacral, com preval\u00eancia dada aos sacramentos e \u00e0s devo\u00e7\u00f5es; uma Igreja de modelo \u00fanico e uniforme (romano e ocidental) n\u00e3o aberta \u00e0 realidade cultural e hist\u00f3rica; uma Igreja papal de pouco sentido local, pois os bispos, mais do que membros do Col\u00e9gio Apost\u00f3lico, eram vig\u00e1rios do Papa e as suas dioceses, por conseguinte, sucursais de Roma.<\/p>\n<p>A partir de Pio IX (meados seculo XIX) e at\u00e9 ao Vaticano II (1965), a Igreja parece identificar-se como uma grande e \u00fanica diocese, com um chefe vis\u00edvel, o Papa; uma doutrina, a escol\u00e1stica; uma liturgia, a romana; uma lei, o C\u00f3digo de Direito Can\u00f3nico de 1917 que pouco teve de novo, al\u00e9m de compilar as leis, at\u00e9 ali, em vigor. Os bispos daquele tempo, sem restri\u00e7\u00f5es \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o generosa \u00e0 Igreja diocesana, pouco mais seriam dos que executores fi\u00e9is do que Roma mandava ou impunha. Ora, muitos crist\u00e3os j\u00e1 rodavam noutro sentido e as exig\u00eancias da evangeliza\u00e7\u00e3o, num mundo em mudan\u00e7a, reagiam a uma centralidade f\u00e9rrea e a uma Igreja fechada \u00e0 inova\u00e7\u00e3o e criatividade.<\/p>\n<p>O Padre Congar, uma das v\u00edtimas do poder romano que n\u00e3o admitia quem pensasse e falasse noutro tom que n\u00e3o fosse o das inst\u00e2ncias romanas, resume este tempo pr\u00e9-conciliar como per\u00edodo vivido \u201csob o sinal da autoridade\u201d, o primado papal, fruto do legado teol\u00f3gico que constitu\u00eda a orienta\u00e7\u00e3o pobre da eclesiologia do Vaticano I. Por\u00e9m, a renova\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia eclesial foi crescendo, frente \u201cao individualismo liberal e ao capitalismo selvagem\u201d; foi emergindo, entre os crist\u00e3os mais atentos, um sentido de comunidade, a que o conhecimento das fontes b\u00edblicas e hist\u00f3ricas deu for\u00e7a de participa\u00e7\u00e3o interventiva e a que a enc\u00edclica de Pio XII sobre o Corpo M\u00edstico abriu horizontes; viviam-se j\u00e1 experi\u00eancias novas, n\u00e3o por completo clandestinas, em alguns pa\u00edses da Europa e da Am\u00e9rica Latina. Tudo isto explica o grito de Jo\u00e3o XXIII. <\/p>\n<p>Em outubro de 1962, Congar, referindo-se a Helder C\u00e2mara, o bispo pequeno de cora\u00e7\u00e3o grande, que vinha inovando e gritando do outro lado do Atl\u00e2ntico, disse, de forma emblem\u00e1tica: \u201cEle possui aquilo que falta em Roma: a vis\u00e3o\u201d. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 nesta perspetiva que podemos situar a reflex\u00e3o conciliar sobre a Igreja. Ao contr\u00e1rio do que vinha de tr\u00e1s, o Conc\u00edlio n\u00e3o nos deu uma defini\u00e7\u00e3o de Igreja, mas mostrou-nos como ela corresponde \u00e0 iniciativa de Deus, os seus elementos essenciais, a dignidade dos seus membros, a sua miss\u00e3o e a voca\u00e7\u00e3o de plenitude. A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-19878","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19878","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19878"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19878\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19878"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19878"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19878"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}