{"id":19973,"date":"2012-05-02T16:18:00","date_gmt":"2012-05-02T16:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=19973"},"modified":"2012-05-02T16:18:00","modified_gmt":"2012-05-02T16:18:00","slug":"purificacao-da-igreja-um-exemplo-que-veio-de-cima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/purificacao-da-igreja-um-exemplo-que-veio-de-cima\/","title":{"rendered":"Purifica\u00e7\u00e3o da Igreja, um exemplo que veio de cima"},"content":{"rendered":"<p>A passagem de uma Igreja subordinada \u00e0 hierarquia a uma Igreja, Povo de Deus, onde a hierarquia \u00e9 servi\u00e7o, recebeu, logo no Conc\u00edlio e a seguir a este, a for\u00e7a do exemplo e do est\u00edmulo dos Papas e de muitos bispos conciliares. Uma tarefa que, ent\u00e3o, n\u00e3o era f\u00e1cil, mas era necess\u00e1ria. Ao longo destes 50 anos, os Papas t\u00eam sublinhado a import\u00e2ncia do Vaticano II e n\u00e3o faltam bispos que lhe querem ser fi\u00e9is e norteiam por ele a sua vida e a\u00e7\u00e3o pastoral. N\u00e3o falta, tamb\u00e9m, gente respons\u00e1vel que parece n\u00e3o ter entendido a urg\u00eancia da mudan\u00e7a. Esta situa\u00e7\u00e3o acaba por afetar toda a Igreja. <\/p>\n<p>A Igreja de Cristo, serva e pobre, e ansiosa por ser m\u00e3e e mestra, n\u00e3o era compat\u00edvel com sinais exteriores que levassem a endeusar a autoridade, mesmo a do Papa e a dos bispos, numa linha de ader\u00eancias hist\u00f3ricas, alheias ao exemplo do seu Fundador e aos crit\u00e9rios evang\u00e9licos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o XXIII aboliu a cadeira gestat\u00f3ria, esse andor esplendoroso, onde o Papa era conduzido aos ombros; as vestes papais e episcopais simplificaram-se de imediato; a linguagem tornou-se intelig\u00edvel e pr\u00f3xima. O Papa recusou o lugar de grande senhor, pois queria centrar tudo em Cristo, Chefe e Pastor da Igreja.<\/p>\n<p>Paulo VI ensinou a Igreja a estar no mundo sem privil\u00e9gios, nem imposi\u00e7\u00f5es religiosas. Foi \u00e0 ONU, apresentou-se sem vestes papais, envergou um fato normal e digno; aproveitou todas as ocasi\u00f5es para real\u00e7ar o valor do col\u00e9gio episcopal a que presidia e de que n\u00e3o queria estar separado; deu, de imediato, relevo \u00e0s novas estruturas conciliares, o s\u00ednodo dos bispos e as confer\u00eancias episcopais; saiu do Vaticano, assumindo a dimens\u00e3o mission\u00e1ria, que at\u00e9 ali quase se reduzia a documentos e discursos; universalizou o col\u00e9gio dos cardeais; escolheu e assumiu, corajosamente, os sinais que dariam sentido eclesial \u00e0s suas viagens \u00e0 Terra Santa, \u00e0 India, \u00e0 ONU; foi ao encontro de Aten\u00e1goras e, para redimir prepot\u00eancias de Roma, quis fechar um ciclo triste da hist\u00f3ria, beijando os p\u00e9s ao Patriarca ortodoxo; devolveu \u00e0 Igreja Oriental rel\u00edquias e \u00edcones que eram seus.<\/p>\n<p>Foram caindo sinais que, at\u00e9 ali, se fomentavam a rever\u00eancia religiosa em rela\u00e7\u00e3o ao Papa e aos bispos, n\u00e3o favoreciam, por\u00e9m, o esclarecimento da f\u00e9, nem o sentido da fraternidade. Foi assim, por exemplo, com a genuflex\u00e3o despropositada \u00e0s suas pessoas, o beijo no anel, sempre e at\u00e9 no momento da comunh\u00e3o eucar\u00edstica\u2026 <\/p>\n<p>Bispos, como o cardeal de Paris, Fran\u00e7ois Marti, quiseram, a partir do Conc\u00edlio, ser tratados simplesmente por padres, guiar os pr\u00f3prios carros, acabar com o adorno tolo dos superlativos a preceder os seus nomes\u2026 E n\u00e3o faltaram outros, que, logo desde o in\u00edcio, abolindo o estendal do ouro dos an\u00e9is e das cruzes peitorais, puseram de parte as armas episcopais e os t\u00edtulos medievais, pr\u00f3prios de uma fidalguia ultrapassada; as vestes e os sinais episcopais, passaram a ser usados apenas no templo e nos atos de culto. Eliminaram-se das catedrais e dos pa\u00e7os episcopais os tronos com dossel, sinal de que o hierarca devia mover-se no patamar comum a todos. Muitos gestos, lindos e significativos, foram-se multiplicando, sobretudo na Am\u00e9rica Latina e, tamb\u00e9m, em alguns pa\u00edses da Europa. <\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o pela simplicidade \u2013 quem serve n\u00e3o veste roupas complicadas, nem diz palavras fora do uso corrente \u2013 n\u00e3o tem tido sempre seguimento. Custa muito descer do pedestal e eliminar os tronos da mente e do prest\u00edgio social. Quando o Papa vai a um pa\u00eds, dizem que vai como chefe de Estado e as pessoas veem-no como o que manda na Igreja; o bispo aproxima-se de todos e o povo, pouco ou mal catequizado, considera-o como o que manda nos padres; \u00e9 comum falar-se do padre\/ p\u00e1roco como aquele que manda nos leigos e na par\u00f3quia\u2026 Sempre quem manda! E n\u00e3o falta ainda, com 50 anos de Conc\u00edlio, quem pense que os padres diocesanos s\u00f3 se podem prestigiar enfeitados com cores romanas. Cores de ilus\u00e3o, que levam a privilegiar a import\u00e2ncia fugaz exterior, porque, parece que ser simplesmente padre, por mais generoso e fiel que ele seja, deixou de ter relevo social. Por estes caminhos, normalmente, os mais dedicados e sacrificados ficam de fora. Ainda bem, porque h\u00e1 distin\u00e7\u00f5es que matam. <\/p>\n<p>N\u00e3o faltam, ainda hoje, pessoas, estruturas e movimentos que travam a renova\u00e7\u00e3o conciliar, aos quais a Igreja, Povo de Deus, com membros iguais em dignidade, custa a aceitar. Como n\u00e3o faltam, por estranho que seja, grupos, presos a tradicionalismos retr\u00f3grados, a beneficiar do patroc\u00ednio intoc\u00e1vel de algum alto clero&#8230;<\/p>\n<p>A Igreja torna-se insignificante para a sociedade, sempre que a sua coer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 transparente, olha mais para si pr\u00f3pria e se apoia numa hist\u00f3ria, que n\u00e3o \u00e9 a da salva\u00e7\u00e3o. Com olhos turvados por atavios in\u00fateis, alheios ao exemplo de Cristo e do Evangelho e a uma sociedade mais esclarecida, a Igreja conciliar apaga-se. Os 50 anos do Conc\u00edlio Vaticano II s\u00e3o um grito de alerta para quem o souber e quiser ouvir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A passagem de uma Igreja subordinada \u00e0 hierarquia a uma Igreja, Povo de Deus, onde a hierarquia \u00e9 servi\u00e7o, recebeu, logo no Conc\u00edlio e a seguir a este, a for\u00e7a do exemplo e do est\u00edmulo dos Papas e de muitos bispos conciliares. Uma tarefa que, ent\u00e3o, n\u00e3o era f\u00e1cil, mas era necess\u00e1ria. 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