{"id":20026,"date":"2012-05-16T14:46:00","date_gmt":"2012-05-16T14:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20026"},"modified":"2012-05-16T14:46:00","modified_gmt":"2012-05-16T14:46:00","slug":"teresa-de-saldanha-uma-mulher-de-ambicoes-maiores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/teresa-de-saldanha-uma-mulher-de-ambicoes-maiores\/","title":{"rendered":"Teresa de Saldanha, uma mulher de &#8220;ambi\u00e7\u00f5es maiores&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>A Irm\u00e3 Rita Maria Nicolau \u00e9 superiora-geral das Dominicanas de Santa Catarina de Sena, congrega\u00e7\u00e3o fundada por Teresa de Saldanha (1837-1916). No dia 23 de maio, pelas 21h, ser\u00e3o apresentados no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura dois volumes de cartas da fundadora. A Irm\u00e3 Rita Maria, que tamb\u00e9m preparou o processo para a canoniza\u00e7\u00e3o (em curso) de Teresa de Saldanha, fala-nos da fundadora, que tinha como objetivo \u201crestituir Deus aos portugueses\u201d, e da congrega\u00e7\u00e3o, que tem comunidades, na Diocese de Aveiro, em Avanca e na Gl\u00f3ria. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>Correio do Vouga &#8211; Na pr\u00f3xima quarta-feira, no Centro Universit\u00e1rio, ser\u00e3o lan\u00e7ados dois volumes das cartas de Teresa de Saldanha, o que quer dizer que escreveu muito\u2026<\/p>\n<p>Rita Maria Nicolau \u2013 Sim. Cada volume tem cerca de 360 p\u00e1ginas. O primeiro volume \u00e9 de cartas escritas \u00e0 fam\u00edlia e aos amigos, \u00e0 m\u00e3e, sobrinhos, \u00e0 cunhada. Escreve a Maria Augusta Campos, ec\u00f3noma da associa\u00e7\u00e3o protetora de meninas pobres, fala muito do problema vocacional, al\u00e9m de economia e da gest\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o. Fala da voca\u00e7\u00e3o como dom, alegria, felicidade. O segundo volume \u00e9 de cartas a eclesi\u00e1sticos, aos papas, aos cardeais, bispos, n\u00fancios apost\u00f3licos, diretores espirituais, \u00e0s irm\u00e3s da nossa congrega\u00e7\u00e3o e a outras.<\/p>\n<p>Quais as cartas que gostou mais de ler, as eclesi\u00e1sticas ou as dirigidas \u00e0 fam\u00edlia e amigos?<\/p>\n<p>Gosto de as ler todas. J\u00e1 as li todas v\u00e1rias vezes, at\u00e9 porque preparei o processo de canoniza\u00e7\u00e3o dela. Fic\u00e1mos com uma vis\u00e3o da vida dela e do seu tempo. H\u00e1 cartas mais espirituais, mesmo m\u00edsticas, aos diretores espirituais \u2013 padres Wiseman e Russell, dominicanos irlandeses. Temos um retrato muito vivo da espiritualidade do s\u00e9c. XIX, mas tamb\u00e9m das suas f\u00e9rias, das festas, das passagens b\u00edblicas que l\u00ea, do tempo para rezar&#8230;<\/p>\n<p>Porqu\u00ea editar esses livros, nos tempos de hoje, para o p\u00fablico em geral?<\/p>\n<p>Estamos a celebrar os 175 anos do seu nascimento, em 1837. Achamos que \u00e9 uma homenagem. Por outro lado, \u00e9 um tesouro que est\u00e1 ali. Ela n\u00e3o fala s\u00f3 de quest\u00f5es espirituais, fala de pol\u00edtica, da sociedade, da vida dos jovens. H\u00e1 dados do s\u00e9c. XIX que est\u00e3o ali e que n\u00e3o est\u00e3o noutros documentos. Ela fala da inaugura\u00e7\u00e3o da ilumina\u00e7\u00e3o de Lisboa, da inaugura\u00e7\u00e3o da est\u00e1tua de D. Pedro IV, do Teatro D. Maria II, do casamento do rei, das \u00f3peras a que ia, dos cantores e atrizes.<\/p>\n<p>Era uma pessoa culta, de origens nobres, na alta sociedade?<\/p>\n<p>Sim. Ela vivia no cora\u00e7\u00e3o de Lisboa e dava-se conta de tudo. \u201cMorreu a D. Maria II e o rei passou aqui muito triste com os infantes\u201d, conta ela. A m\u00e3e dela fora dama da rainha. A cunhada tamb\u00e9m. O pai estava muito ligado \u00e0 corte. Tudo perpassa nas suas cartas.<\/p>\n<p>S\u00e3o muito interessantes, tamb\u00e9m, as que escreveu aos irm\u00e3os, que estudaram em Coimbra. Ela, porque era menina, foi educada em casa. Os irm\u00e3os iam de cavalo para Coimbra e s\u00f3 regressavam nas f\u00e9rias. Viviam numa casa com criado. Ela conta tudo aos irm\u00e3os, at\u00e9 os bailes que frequenta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do interesse espiritual, h\u00e1 nestas cartas um interesse sociol\u00f3gico e cultural?<\/p>\n<p>Considero que \u00e9 um tesouro que est\u00e1 escondido. H\u00e1 sempre pessoas de fora que gostam. Mas as irm\u00e3s da congrega\u00e7\u00e3o t\u00eam de conhecer a madre fundadora por ela pr\u00f3pria e n\u00e3o s\u00f3 pelos livros que est\u00e3o publicados. Como n\u00e3o havia telem\u00f3veis, est\u00e1 tudo escrito nas cartas.<\/p>\n<p>Organizou o processo de canoniza\u00e7\u00e3o de Teresa de Saldanha. Em que ponto est\u00e1?<\/p>\n<p>Est\u00e1 em Roma. Para a beatifica\u00e7\u00e3o, estamos \u00e0 espera de um milagre. Foi um processo muito longo. Ela tem muitos escritos. Tivemos de passar tudo a computador e traduzir muitas cartas, porque escreve muito em ingl\u00eas, aos padres irlandeses, e em franc\u00eas. Est\u00e1 tudo em Roma desde 2001. Eu fui vice-postuladora. O postulador era um padre dominicano de Roma, uma vez que temos um postulador \u00fanico para as causas dos dominicanos.<\/p>\n<p>O que considera verdadeiramente admir\u00e1vel na vida de Teresa de Saldanha? <\/p>\n<p>O amor pela causa dos pobres. Ela tinha uma m\u00e3e muito boa que a iniciou nas obras de miseric\u00f3rdia. Teresa tinha tudo para ser feliz, segundo certos crit\u00e9rios. Tinha uma grande educa\u00e7\u00e3o, pintava\u2026<\/p>\n<p>Ainda existem esses quadros?<\/p>\n<p>Sim, alguns est\u00e3o na fam\u00edlia, outros est\u00e3o no Museu da Madre Teresa (Lisboa). Temos originais e r\u00e9plicas.<\/p>\n<p>Continuando\u2026<\/p>\n<p>Ela era bonita, muito talentosa. Mas isso n\u00e3o preenchia o seu sonho de felicidade e por isso dizia: \u201cDeus p\u00f4s no meu cora\u00e7\u00e3o ambi\u00e7\u00f5es maiores\u201d. Tinha o desejo de ser toda de Deus e a sensibilidade aos problemas dos outros, num tempo em que dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o feminina n\u00e3o sabia ler nem escrever. \u201cComo posso ser feliz no meu pal\u00e1cio, se os outros vivem assim?\u201d, interrogava-se. Conseguiu ultrapassar a barreira. A m\u00e3e ajudava-a, mas o pai opunha-se. Preferia que ela fosse a festas e tivesse um noivo rico. <\/p>\n<p>Admiro muito a sua coragem, a ousadia evang\u00e9lica. D. Manuel de Bastos Pina, que era Bispo de Coimbra (inclu\u00eda a cidade de Aveiro), dizia que \u201cdevem muito a vossa excel\u00eancia os ministros da religi\u00e3o, porque fez mais que eles pela evangeliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds\u201d. Na altura, os bispos andavam algo temerosos. O de Coimbra era dos mais ousados. <\/p>\n<p>Teresa de Saldanha n\u00e3o foi para a Irlanda. Queria ir, mas o pai n\u00e3o a deixou. Se fosse, seria um esc\u00e2ndalo e deitaria tudo a perder. Na obra que funda, n\u00e3o \u00e9 a primeira religiosa. Esse papel cabe a uma portuguesa e uma inglesa que foram para a Irlanda, para um convento de monjas contemplativas. Quando vieram, fundaram a primeira casa em Alfama (Lisboa). <\/p>\n<p>Foi uma mulher de grande coragem, grande confian\u00e7a, sem medo, sem tristezas. N\u00f3s hoje estamos num tempo de crise, mas o tempo dela foi muito pior do que nosso. Crise de valores, econ\u00f3mica, pol\u00edtica\u2026 Conseguiu superar com muita coragem e \u00e2nimo essas dificuldades. Dizia como Paulo e acrescentava: \u201cJ\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo \u00e9 Cristo que vive e age em mim. Isto \u00e9 muito bom para me dar humildade porque no fundo a obra n\u00e3o \u00e9 minha, eu sou apenas um instrumento de Deus\u201d. Ela queria regenerar Portugal, \u201crestituir Deus aos portugueses\u201d. N\u00e3o foi a \u00fanica, nem podia fazer tudo, mas deu o seu contributo com a congrega\u00e7\u00e3o e a associa\u00e7\u00e3o protetora de meninas pobres.<\/p>\n<p>Na origem, qual \u00e9 o carisma da congrega\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, dedicam-se \u00e0 promo\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o. Teresa percebia que sem educa\u00e7\u00e3o a sociedade n\u00e3o progride e considerava que educar a mulher era educar a fam\u00edlia, visto que a m\u00e3e educa os filhos. Vivia muito preocupada com a educa\u00e7\u00e3o e a evangeliza\u00e7\u00e3o. Recebia crian\u00e7as que n\u00e3o sabiam ler nem tinham educa\u00e7\u00e3o religiosa. O grande objetivo era a evangeliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Hoje continua a ser o esse o objetivo da congrega\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Sim, a evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Onde est\u00e3o presentes, em Portugal?<\/p>\n<p>Estamos em Braga, Coimbra, Castro d\u2019Aire, Guarda, Pinheiro da Bemposta, Avanca, Aveiro, Leiria, F\u00e1tima, Lisboa, com v\u00e1rias casas (sede em S. Domingos de Benfica, onde temos um lar de meninas com problemas sociais e uma creche, um lar nos Cardais para portadores de defici\u00eancia, Hospital da Parede, Col\u00e9gio de S. Jos\u00e9 do Restelo, Col\u00e9gio do Ramalh\u00e3o de Sintra, comunidade nas Furnas, um bairro pobre), Estremoz e Portim\u00e3o. Somos umas 380 religiosas no mundo.<\/p>\n<p>Est\u00e3o presentes noutros pa\u00edses? <\/p>\n<p>Com a Rep\u00fablica, em 1910, as irm\u00e3s foram expulsas e foram para o Brasil, B\u00e9lgica, Espanha e Estados Unidos. As do Brasil continuaram ligadas a n\u00f3s. As da B\u00e9lgica e Espanha voltaram. As dos EUA fundaram outra congrega\u00e7\u00e3o. Estamos, ent\u00e3o, no Brasil, Angola, Mo\u00e7ambique, Timor, Alb\u00e2nia e Paraguai.<\/p>\n<p>Como todas as outras, a congrega\u00e7\u00e3o sofreu com a implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 1910&#8230;<\/p>\n<p>Foi um per\u00edodo dif\u00edcil conturbado. Perdeu todos os bens. A casa de Benfica estava em nome pr\u00f3prio, mas eles foram l\u00e1, viram as irm\u00e3s e ficaram com os bens.<\/p>\n<p>Teresa de Saldanha sofreu mais por causa da liga\u00e7\u00e3o \u00e0 monarquia ou por motivos religiosos?<\/p>\n<p>Sofreu por ter fundado uma congrega\u00e7\u00e3o e ser religiosa. Foi viver para um hotel e depois para uma casa, tendo morrido em 1916. Antes disso, desafiou o regime com uma casa na Gomes Freire e fundou um noviciado em Salamanca, para onde enviava as irm\u00e3s. Ainda em 1910, assumiu o Hospital da Parede, onde as irm\u00e3s estavam clandestinas, sem h\u00e1bito, sem poderem rezar alto. E l\u00e1 est\u00e3o h\u00e1 mais de cem anos.<\/p>\n<p>H\u00e1 descendentes da fam\u00edlia de Teresa de Saldanha? Qual a rela\u00e7\u00e3o da congrega\u00e7\u00e3o com eles?<\/p>\n<p>H\u00e1 descendentes, sim, os marqueses de Rio Maior e do Lavradio. H\u00e1 sobrinhos. Temos boas rela\u00e7\u00f5es com eles. Alguns deram testemunho no processo. Falam de Teresa como \u201ca tia santa nasceu ali\u201d (referindo-se \u00e0 Anunciada, Portas de Santo Ant\u00e3o, perto do Coliseu de Lisboa). A fam\u00edlia interessa-se. Dizem: \u201cSe precisas de algo, pede \u00e0 tia santa\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Irm\u00e3 Rita Maria Nicolau \u00e9 superiora-geral das Dominicanas de Santa Catarina de Sena, congrega\u00e7\u00e3o fundada por Teresa de Saldanha (1837-1916). No dia 23 de maio, pelas 21h, ser\u00e3o apresentados no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura dois volumes de cartas da fundadora. 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