{"id":20059,"date":"2011-02-09T10:25:00","date_gmt":"2011-02-09T10:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20059"},"modified":"2011-02-09T10:25:00","modified_gmt":"2011-02-09T10:25:00","slug":"gestao-na-igreja-desafios-e-propostas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/gestao-na-igreja-desafios-e-propostas-2\/","title":{"rendered":"Gest\u00e3o na Igreja: desafios e propostas"},"content":{"rendered":"<p>DOMINGOS CERQUEIRA<\/p>\n<p>1. O artigo do professor Pedro Neto, publicado no Correio do Vouga de 26 de Janeiro passado, veio despertar em mim uma avalanche de recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que tamb\u00e9m eu acho que n\u00f3s, Igreja, somos uns parolos, que passamos a vida a oferecer a outra face, quando muitas vezes dever\u00edamos pegar na chibata e ter a coragem de responder com as mesmas armas com que somos atacados. Acho que n\u00e3o devemos fugir do campo de batalha, mas que devemos entrar nele, com as \u201carmas\u201d que Cristo puser nas nossas m\u00e3os. Tenho passado a vida embrenhado nos caminhos do mundo, muitas vezes a cometer exageros que este desgra\u00e7ado do meu feitio me leva a cometer. Mas acredito que nos momentos mais dif\u00edceis Cristo est\u00e1 sempre comigo e me perdoar\u00e1 sempre que passei das marcas. <\/p>\n<p>2. A prop\u00f3sito de passarmos a vida a proceder de modo a parecermos uns parolos, veio-me \u00e0 mem\u00f3ria um epis\u00f3dio que valer\u00e1 a pena contar, n\u00e3o sei se para minha condena\u00e7\u00e3o ou para minha absolvi\u00e7\u00e3o. No tempo de D. Manuel de Almeida Trindade, andava um grupo de leigos a \u201cpregar\u201d pelas terras da Diocese. Numa par\u00f3quia, j\u00e1 na altura muit\u00edssimo politizada (no mau sentido), estava eu e a Eneida [esposa], com total disponibilidade, a dar testemunho da nossa vida de crist\u00e3os. A certa altura fomos interrompidos por um grupo de jovens, mais arruaceiros do que interessados nas nossas palavras, que nos atiram com esta pedrada: \u201c\u00c9 muito bonito o que nos est\u00e3o a dizer. Mas aqui na nossa terra, se n\u00f3s vivermos como voc\u00eas est\u00e3o a dizer que vivem, seriamos tidos como mansos\u201d. A minha resposta, que ainda hoje n\u00e3o sei se foi inspirada, foi mais ou menos a seguinte: \u201cOlhe, a si poderiam chamar de manso. Mas quero dizer-lhe que se a mim, por viver de acordo com os valores em que acredito, algu\u00e9m me chamar manso, a minha resposta ser\u00e3o dois murros na cara\u201d. Penso que aqueles jovens ter\u00e3o reconhecido que tamb\u00e9m h\u00e1 crist\u00e3os brutos e at\u00e9 malcriados como os que n\u00e3o s\u00e3o, e que s\u00e3o capazes de usar a mesma terminologia que eles usam. No fundo, h\u00e1 muitos crist\u00e3os que ainda procuram n\u00e3o ser nem se comportar como parolos. Penso que a Igreja continua a precisar dos leigos. \u00c9 verdade que muitas vezes n\u00e3o parece. \u00c9 verdade que algumas vezes a Igreja mais parece desconfiar dos leigos, ou muitas vezes mais parece ter medo que os leigos, com os seus exageros, deixem ficar mal a pr\u00f3pria Igreja. <\/p>\n<p>O conc\u00edlio Vaticano II convenceu-me de que eu estou na Igreja n\u00e3o por ser tolerado, mas por direito pr\u00f3prio, e por isso tenho procurado, no mundo, dar testemunho de Cristo como membro desta Igreja em que acredito, porque acredito que \u00e9 a Igreja de Cristo.<\/p>\n<p>Nestes \u00faltimos tempos, ou porque fui afastado, ou porque me afastei, n\u00e3o tenho tido uma ac\u00e7\u00e3o t\u00e3o vis\u00edvel no seio da Igreja. Mas continua a ser exactamente a mesma a minha disposi\u00e7\u00e3o de dar um testemunho total de Cristo, n\u00e3o como parolo ou como imbecil.<\/p>\n<p>3. Refor\u00e7o algumas das ideias do professor Pedro Neto ainda com a esperan\u00e7a de que um dia algumas se possam concretizar, apesar de vindas da capacidade imaginativa dos leigos.<\/p>\n<p>Trabalhei alguns anos na \u00e1rea dos seguros. Fiz na altura a proposta para que fosse estudado o problema dos seguros da Diocese, e se tirasse alguma vantagem em criar um departamento que procurasse tirar proveito da gest\u00e3o de todos esses seguros. Seria por certo um segurado apetitoso para qualquer seguradora. E haveria por certo grandes vantagens. Mas foi uma proposta que n\u00e3o teve qualquer seguimento.<\/p>\n<p>Aqui h\u00e1 muitos anos, existia no Semin\u00e1rio de Calv\u00e3o uma explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola dirigida por um sacerdote. Com a finalidade de o libertar para ac\u00e7\u00f5es mais condizentes com a sua forma\u00e7\u00e3o, um grupo de cat\u00f3licos, no qual me inclu\u00eda, delineou uma proposta para melhor rentabilizar essa explora\u00e7\u00e3o. O grupo era constitu\u00eddo por um engenheiro agr\u00f3nomo, por um industrial da \u00e1rea das ra\u00e7\u00f5es e por um gestor. Est\u00e1vamos por volta do ano de 1974. Fomos entregar o documento ao nosso Bispo, que o leu atentamente, e depois de um longo sil\u00eancio, comovidamente, nos pediu: \u201cDeixem-me ser eu a resolver este problema\u201d. Sa\u00edmos completamente embatocados. N\u00e3o envolvem estas palavras qualquer cr\u00edtica a este Bispo, por quem nutro um enorm\u00edssimo respeito e uma muito grande saudade.<\/p>\n<p>4. Uns anos depois, passei por uma experi\u00eancia que me entusiasmou, e dei o que pude, da melhor forma de que fui capaz. Fui administrador do jornal diocesano Correio do Vouga durante uns anos, poucos. Em fins de 1997, fui procurado por um sacerdote que nos sondou acerca da possibilidade de nos encarregarmos da composi\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica, arranjo gr\u00e1fico, impress\u00e3o e coloca\u00e7\u00e3o no mercado de alguns livros que tencionava escrever. A partir daqui, e depois de ter falado com o respons\u00e1vel pela Livraria Diocesana e com outros sacerdotes, cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que t\u00ednhamos um enorme campo de ac\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa frente. Publica\u00e7\u00f5es diocesanas e paroquiais, publica\u00e7\u00f5es particulares dos sacerdotes, a nossa privilegiada posi\u00e7\u00e3o nas C\u00e2maras Municipais, na Universidade de Aveiro e noutras escolas, mostrava um vasto campo de ac\u00e7\u00e3o. E, juntamente com o Relat\u00f3rio e Contas de 1997, apresent\u00e1mos a seguinte proposta: \u201cDe todas as conversas tidas com profissionais de v\u00e1rios sectores ligados a uma actividade desta natureza, e com alguns sacerdotes interessados, surgiu a ideia e o incentivo de criar uma empresa diocesana, que englobe o jornal Correio do Vouga, a Livraria  Santa Joana e a \u201cVouga Editora\u201d! com os sectores de publicidade comercial e de distribui\u00e7\u00e3o. Sabemos das grandes exig\u00eancias, mas sabemos haver gente na Igreja capaz de levar para a frente uma ideia destas, se o Sr. Bispo a achar \u00fatil e oportuna\u201d. Nunca cheguei a ter resposta a esta proposta. Sei apenas que, anos mais tarde, a ideia foi adoptada por pessoa por certo mais inteligente e apareceu qualquer coisa de semelhante, muito aqu\u00e9m do que era proposto.<\/p>\n<p>5. N\u00e3o sei j\u00e1 h\u00e1 quantos anos, por incumb\u00eancia do meu p\u00e1roco, participei em F\u00e1tima, num curso de dois ou tr\u00eas dias, sobre a inventaria\u00e7\u00e3o dos bens da Igreja. Foram feitas propostas e foi apresentado material para dar in\u00edcio a este importante, urgente j\u00e1 na altura, e extremamente necess\u00e1rio, trabalho de inventaria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei se por a proposta ter partido de um leigo, tudo ficou em \u00e1guas de bacalhau, penso que at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>E quantos mais exemplos de tentativas falhadas, umas vezes por falta de confian\u00e7a nos leigos; outras para n\u00e3o nos dar protagonismo em assuntos importantes. O que \u00e9 certo \u00e9 que continuam a ser excep\u00e7\u00f5es os casos em que aparecem leigos em cargos de responsabilidade dentro da Igreja. E h\u00e1 muitos servi\u00e7os para que os leigos t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o de estar muito mais bem preparados do que os sacerdotes. E t\u00e3o precisos e indispens\u00e1veis que os sacerdotes s\u00e3o para outras ac\u00e7\u00f5es apost\u00f3licas. At\u00e9 para aturarem leigos t\u00e3o irreverentes como eu!<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o as palavras escritas pelo professor Pedro Neto, que tantas coisas boas me fez recordar. Continuo a pensar que parolos, n\u00e3o; mas muito inc\u00f3modos em cada lugar e em cada ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOMINGOS CERQUEIRA 1. 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