{"id":20113,"date":"2012-05-23T14:55:00","date_gmt":"2012-05-23T14:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20113"},"modified":"2012-05-23T14:55:00","modified_gmt":"2012-05-23T14:55:00","slug":"quem-esta-em-luto-necessita-de-alguem-que-se-identifique-com-a-sua-perda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/quem-esta-em-luto-necessita-de-alguem-que-se-identifique-com-a-sua-perda\/","title":{"rendered":"&#8220;Quem est\u00e1 em luto necessita de algu\u00e9m que se identifique com a sua perda&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Ana Lu\u00edsa Silva, de Pombal, \u00e9 psic\u00f3loga cl\u00ednica com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em cuidados paliativos. Ap\u00f3s ter perdido o marido, num acidente de via\u00e7\u00e3o, juntou-se \u00e0 Apelo (Associa\u00e7\u00e3o de Apoio \u00e0 Pessoa em Luto) e criou em Pombal um n\u00facleo para apoiar outras pessoas que vivem situa\u00e7\u00f5es de perda. Esteve no congresso \u201cO Luto em Portugal\u201d, nos dias 4 e 5 de maio, na Universidade de Aveiro, para falar da sua experi\u00eancia de conselheira do luto. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>Correio do Vouga &#8211; Como se tornou conselheira do luto?<\/p>\n<p>Ana Lu\u00edsa Silva \u2013 Tudo come\u00e7ou com uma perda minha h\u00e1 tr\u00eas anos. O meu marido morreu num acidente de via\u00e7\u00e3o. Comecei, ent\u00e3o, a ler os livros sobre o luto do professor Jos\u00e9 Eduardo Rebelo [professor de biologia na Universidade de Aveiro; autor de livros sobre o luto e fundador da associa\u00e7\u00e3o Apelo, ap\u00f3s ter perdido num acidente, h\u00e1 18 anos, a mulher, gr\u00e1vida, e a filha de sete anos]. Entrei em contacto com ele e tornei-me volunt\u00e1ria da Apelo [Associa\u00e7\u00e3o de Apoio \u00e0 pessoa em Luto]. Ele lan\u00e7ou-me o desafio de montar em Pombal um Capelo, isto \u00e9, um centro de apoio \u00e0 pessoa em luto, do qual sou coordenadora. Depois tive de fazer o curso de conselheiro do luto. Faz sentido, como coordenadora, ter uma experi\u00eancia de luto para poder apoiar quem l\u00e1 se dirige.<\/p>\n<p>Como \u00e9 o grupo o seu trabalho no Capelo de Pombal?<\/p>\n<p>Somos dozes pessoas e reunimos desde h\u00e1 dois anos. Basicamente, coordeno um grupo de entreajuda. \u00c9 com eles que trabalho. S\u00e3o pessoas heterog\u00e9neas, desde pais que perderam os filhos a vi\u00favas, mulheres que perderam o seio, senhoras que t\u00eam maridos com doen\u00e7as oncol\u00f3gicas. Neste grupo, toda a gente partilha uma vez por m\u00eas, durante duas horas. Eu modero o grupo. As pessoas sentem-se mais \u00e0 vontade para fazer a partilha porque sabem que eu tamb\u00e9m as consigo compreender, visto que passei pela mesma situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pelo que acaba de dizer, n\u00e3o se vive o luto apenas em situa\u00e7\u00f5es de morte\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o, o luto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 morte. \u00c9 perda de estatuto social &#8211; come\u00e7amos a ver com alguma frequ\u00eancia casos destes por causa da perda de emprego -, \u00e9 abla\u00e7\u00e3o de um seio, a perda de um membro corporal, a perda de um filho, o nascimento de um filho deficiente. Normalmente, os pais n\u00e3o fazem o luto. Mas este \u00e9 um caso da chamada expetativa de afeto. Pretendemos um filho saud\u00e1vel e perfeito e, a p\u00e1ginas tantas, aparece-nos um filho deficiente. Temos de aprender a viver com isso. Temos de fazer o luto da crian\u00e7a que imagin\u00e1vamos e aprender a viver com uma crian\u00e7a portadora de defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Em resumo, faz-se luto numa situa\u00e7\u00e3o de perda grave&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 isso que tentamos fazer perceber \u00e0 sociedade. N\u00e3o se trata s\u00f3 de morte. <\/p>\n<p>N\u00f3s hoje j\u00e1 n\u00e3o sabemos lidar com as situa\u00e7\u00f5es de perda?<\/p>\n<p>As pessoas t\u00eam tend\u00eancia a fecharam-se, a viverem a sua dor sozinhas. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio isso. Da\u00ed os grupos de partilha, de interajuda. H\u00e1 grupos similares nos alco\u00f3licos an\u00f3nimos, nos toxicodependentes an\u00f3nimos. Quando se partilha o que est\u00e1 em causa, que \u00e9 a dor, torna-se mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Nos grupos de partilha, uma vez por m\u00eas, durante duas horas, as pessoas podem estar e simplesmente n\u00e3o lhes apetecer falar, apenas ouvem. A pessoa partilha a sua dor e percebe que n\u00e3o est\u00e1 sozinha. Quando algu\u00e9m est\u00e1 em luto t\u00eam muita tend\u00eancia para se focar no problema e falar muito dele. Acontece \u00e9 que a sociedade n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel para esse tipo de situa\u00e7\u00f5es. A fam\u00edlia n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel, os amigos n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis, at\u00e9 porque a pessoa est\u00e1 sempre a recalcar o problema que tem. Eles necessitam de algu\u00e9m que os ou\u00e7a e que se identifique com a perda, que perceba que \u00e9 poss\u00edvel ultrapassar isto.<\/p>\n<p>Nestas situa\u00e7\u00f5es, pergunta-se frequentemente: \u201cPor que \u00e9 que me aconteceu a mim?\u201d<\/p>\n<p>Sim, mas a quest\u00e3o \u00e9: por que \u00e9 que n\u00e3o havia de acontecer a ti? Tu n\u00e3o \u00e9s diferente dos outros. E a pessoa acaba por perceber que realmente n\u00e3o \u00e9 diferente dos outros, \u00e9 igual. Se sou igual, vou ter de ultrapassar isto da melhor forma poss\u00edvel, ultrapassando as expetativas e vendo a vida de maneira diferente, tendo em conta a sua perda. <\/p>\n<p>A f\u00e9 de uma pessoa ajuda-a a viver o luto?<\/p>\n<p>N\u00e3o interferimos na religi\u00e3o. A parte espiritual e ps\u00edquica da pessoa, todo o seu conhecimento, \u00e9 valorizado e respeitado. N\u00e3o impomos absolutamente nada nos grupos. A pessoa pode ser ateia, crente, cat\u00f3lica\u2026<\/p>\n<p>A minha pergunta ia noutro sentido. Pelo facto de se acreditar em Deus, a perda, principalmente pela morte, n\u00e3o poder\u00e1 ser integrada com outro sentido?<\/p>\n<p>Com certeza que a religi\u00e3o tem influ\u00eancia. Quando sentimos uma perda muito significativa temos necessidade de nos agarramos a algo. E inclusive de culpar algu\u00e9m. <\/p>\n<p>Responsabilizar Deus? <\/p>\n<p>O que \u00e9 curioso \u00e9 que geralmente culpamos a pessoa que perdemos: \u201cPor que \u00e9 que me abandonaste?\u201d Quando estamos a culpar algu\u00e9m, canalizamos a nossa raiva para a pessoa que nos abandonou. Em certo sentido, temos uma abordagem egoc\u00eantrica, porque a nossa raiva nos leva a pensar que quem partiu \u00e9 que nos quis deixar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Lu\u00edsa Silva, de Pombal, \u00e9 psic\u00f3loga cl\u00ednica com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em cuidados paliativos. Ap\u00f3s ter perdido o marido, num acidente de via\u00e7\u00e3o, juntou-se \u00e0 Apelo (Associa\u00e7\u00e3o de Apoio \u00e0 Pessoa em Luto) e criou em Pombal um n\u00facleo para apoiar outras pessoas que vivem situa\u00e7\u00f5es de perda. 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