{"id":20215,"date":"2012-05-30T16:39:00","date_gmt":"2012-05-30T16:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20215"},"modified":"2012-05-30T16:39:00","modified_gmt":"2012-05-30T16:39:00","slug":"o-padre-mudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-padre-mudo\/","title":{"rendered":"O padre mudo"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Mist\u00e9rio, pode ler-se em bons dicion\u00e1rios, \u00e9 o que desperta curiosidade devido ao secretismo e car\u00e1cter inexplic\u00e1vel (defini\u00e7\u00e3o interessante mas discut\u00edvel). Prov\u00e9m do radical indo-europeu \u00abmu\u00bb, imitativo de um som inarticulado. Da\u00ed prov\u00e9m \u00abmudo\u00bb; em ingl\u00eas \u00abmum\u00bb (silencioso) e \u00abmumble\u00bb (produzir sons impercept\u00edveis); \u00abmurmurar\u00bb \u00e9 outro verbo onomatopaico provavelmente da mesma origem; em grego, \u00abmyo\u00bb significa fechar-se, fechar os l\u00e1bios e os olhos (\u00abmiopia\u00bb). \u00abMist\u00e9rio\u00bb tornou-se o conceito central de grupos esot\u00e9ricos e do discurso sobre assuntos extremamente dif\u00edceis de abordar ou transcendentes. <\/p>\n<p>No seu livro \u201cExiste Dios?\u201d, H. K\u00fcng refere uma historiazinha popular: no momento da homilia, o sacerdote avan\u00e7a para o p\u00falpito e declara: \u201cCelebramos hoje o maior mist\u00e9rio, o da Sant\u00edssima Trindade; e como n\u00e3o percebo nada disto, n\u00e3o vai haver homilia\u201d. Foi honesto como poucos o s\u00e3o. Mas n\u00e3o ter\u00e1 sido prudente. A exist\u00eancia do mundo e a vida s\u00e3o misteriosas e n\u00e3o \u00e9 por isso que deixamos de nos interrogar, de recolher experi\u00eancias e de especular. Por\u00e9m, sem a honestidade do \u00abpadre mudo\u00bb, \u00e9 mesmo melhor ficar calado. E se falamos, \u00e9 nosso dever confessar perante todos: (1) por muito que andemos \u00e0 volta com Deus, o mais que temos s\u00e3o interroga\u00e7\u00f5es; (2) \u00e9 verdade que muita gente, grandes pensadores e grandes m\u00edsticos, nos enriqueceram com a sua \u00abexperi\u00eancia de Deus\u00bb (mas necessariamente muito limitada), ora poeticamente ora com a agudeza e rigor das reflex\u00f5es; (3) baseados em tudo isto, porque n\u00e3o havemos de procurar o sentido destas interroga\u00e7\u00f5es, viv\u00eancias e reflex\u00f5es \u2013 com a satisfa\u00e7\u00e3o de que esse mist\u00e9rio impenetr\u00e1vel nos cativa como um pai cativa o beb\u00e9 ao colo?<\/p>\n<p>O dogma da Trindade s\u00f3 ficou formulado no s\u00e9culo IV e a festa lit\u00fargica s\u00f3 foi introduzida no s\u00e9culo XIV. E para n\u00e3o se ficar \u00abmudo\u00bb, conv\u00e9m enriquecer a experi\u00eancia de Deus ao longo dos tempos com a experi\u00eancia e pensamento dos tempos novos. Falar de Deus, do Senhor (Jesus) ou do Esp\u00edrito, s\u00e3o outras tantas formas de falar sobre o encontro com o Deus \u00fanico, revelado por Jesus. Ressuscitado que foi para a vida de Deus, vive na forma de ser e actuar a que chamamos Esp\u00edrito\u00bb (sopro da vida). <\/p>\n<p>Mas n\u00e3o ser\u00e1 atrevimento injustificado querer ir al\u00e9m do mist\u00e9rio tremendo daquele Deus que se apresentou liminarmente (Livro do \u00caxodo 3,14) como \u00abEu sou aquele que \u00e9\u00bb \u2013 o fundamento da exist\u00eancia, aquele que n\u00e3o pode ser explicado?<\/p>\n<p>S\u00ea-lo-\u00e1, se n\u00e3o temos a humildade (= sentimento de verdade) de reconhecer que o conceito de \u00abtrindade divina\u00bb ou de \u00abDeus trino\u00bb n\u00e3o \u00e9 mais do que o esplendor humano da reflex\u00e3o sobre Deus. Doutro modo, ser\u00e1 pretens\u00e3o, orgulho e explora\u00e7\u00e3o do poder ideol\u00f3gico (mascarado como \u00abartigo de f\u00e9\u00bb), querer falar sobre \u00aba l\u00f3gica interna\u00bb de Deus \u2013 complicando de tal modo a simplicidade divina que s\u00f3 aumentamos as sombras do nosso conhecimento. <\/p>\n<p>A \u00abexperi\u00eancia poss\u00edvel\u00bb de Deus \u00e9 a de um Deus que est\u00e1 connosco, na express\u00e3o do Livro do \u00caxodo: \u00abEu sou o que est\u00e1 contigo\u00bb (3,12). Jesus falou bem desse \u00abPai\u00bb que n\u00e3o tira os olhos de n\u00f3s!<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que a ideia de \u00abTrindade\u00bb lembra que Deus \u00e9 a mais alta express\u00e3o do dinamismo do amor, em que \u00abeu\u00bb e \u00aboutro\u00bb se confundem. Dizer isto \u00e9 afirmar que a for\u00e7a do amor tem forma divina, mas nada nos diz nem poderia dizer sobre a \u00abestrutura\u00bb de Deus. \u00abDeus \u00e9 amor\u00bb e o amor \u00e9 \u00abinquieto\u00bb. Foi assim que ele se revelou e assim o experimentaram milh\u00f5es de pessoas, nas mais diversas tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Deus \u00abfaz fam\u00edlia\u00bb e convida-nos a dar do nosso tempo para \u00abfazer fam\u00edlia\u00bb com os outros e com Ele.<\/p>\n<p>A festa da \u00abSant\u00edssima Trindade\u00bb bem que poderia ser considerada a festa da uni\u00e3o: \u00abque todos sejam um\u00bb (Jo\u00e3o 17, 11), \u00e0 semelhan\u00e7a da uni\u00e3o de Jesus com o Pai. A festa do ecumenismo, em que todos nos enriquecemos com as experi\u00eancias diversas do \u00fanico Deus. Numa palavra: a festa da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Deus \u00e9 Luz \u2013 e at\u00e9 pode tornar luminosas as nossas tentativas sombreadas, quando movidas pelo desejo honesto de conhecer sempre mais \u00abo elemento principal da fam\u00edlia\u00bb. E ao longo dos tempos, quantas vezes n\u00e3o ser\u00e1 preciso remar contra a mar\u00e9 e atirar-se ao mar para defender \u00abo Esp\u00edrito de Fam\u00edlia\u00bb?<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt  <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-20215","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20215"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20215\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}