{"id":20445,"date":"2012-06-28T11:06:00","date_gmt":"2012-06-28T11:06:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20445"},"modified":"2012-06-28T11:06:00","modified_gmt":"2012-06-28T11:06:00","slug":"indigencia-moral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/indigencia-moral\/","title":{"rendered":"Indig\u00eancia moral"},"content":{"rendered":"<p>A \u00e9tica da convic\u00e7\u00e3o e a \u00e9tica da responsabilidade n\u00e3o s\u00e3o contradit\u00f3rias. Completam-se uma \u00e0 outra e constituem no seu conjunto a express\u00e3o do \u201chomem aut\u00eantico\u201d<\/p>\n<p>Raymond Aron<\/p>\n<p>\u201c A olhar a mentira dos sal\u00f5es esquecemos a verdade das celas\u201d<\/p>\n<p>Miguel Torga<\/p>\n<p>Desde 2008, o mundo vive em crise econ\u00f3mica e social. Mas sobretudo e endemicamente em indig\u00eancia moral. Portugal, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>A regra de ouro no plano \u00e9tico tem sido frequentemente violada: para alguns, os fins justificam sempre qualquer tipo de meio. Para tal, \u201cinventou-se\u201d um novo arqu\u00e9tipo moral entre os actos bons e os maus: os actos indiferentes, uma esp\u00e9cie de silenciosa amiba onde se acolhem as maiores perversidades.<\/p>\n<p>A \u00e9tica da primeira pessoa (a auto-exig\u00eancia) deveria ser sempre a primeira condi\u00e7\u00e3o para a \u00e9tica da terceira pessoa (ser-se exigente com os outros). Infelizmente todos os dias se observam distor\u00e7\u00f5es deste contrato moral. E parece cada vez menos considerado o imperativo kantiano: Age unicamente segundo a m\u00e1xima que te leve a querer ao mesmo tempo que ela se torne uma lei de tal modo que, se os pap\u00e9is fossem invertidos, as partes em quest\u00e3o estariam sempre de acordo.<\/p>\n<p>As pessoas simples n\u00e3o entendem e indignam-se legitimamente. As elites exemplares escasseiam, a procura do bem comum dilui-se, ao mesmo tempo que brotam como cogumelos as falsas elites feitas de arrivismo e calculismo. O respeito pelas regras legais ou comportamentais tem sido menosprezado por certos grupos e grup\u00fasculos de interesses partidarizados, particularistas ou secretistas que, n\u00e3o raro, ousam capturar o interesse p\u00fablico.<\/p>\n<p>Permita-se-me a imagem caricatural: parar no sem\u00e1foro vermelho \u00e9 quase um sinal de inadapta\u00e7\u00e3o social nos tempos que correm.<\/p>\n<p>De h\u00e1 muito, assiste-se a formas in\u00edquas de promiscuidade e de disfarce de interesses privados e p\u00fablicos, ao s\u00f4frego dom\u00ednio de certas institui\u00e7\u00f5es fundamentais por pessoas impreparadas, sem curr\u00edculo e que as usam despudoradamente em benef\u00edcio pr\u00f3prio. J\u00e1 l\u00e1 vai o tempo em que para se ocupar um lugar de alta responsabilidade pol\u00edtica, institucional ou empresarial eram sempre necess\u00e1rias provas de vida, de experi\u00eancia e de responsabilidade efectiva. A exig\u00eancia que Roland Barthes exprimiu dizendo que \u201cum respons\u00e1vel nota dez: dois pontos de esfor\u00e7o, tr\u00eas pontos de talento e cinco pontos de car\u00e1cter\u201d j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o crit\u00e9rio essencial.<\/p>\n<p>\u00d3rg\u00e3os decisivos como o Tribunal Constitucional ou a Provedoria de Justi\u00e7a t\u00eam vindo a ser sujeitos \u00e0 mais descarada descaracteriza\u00e7\u00e3o pela via afuniladamente partid\u00e1ria.<\/p>\n<p>A indig\u00eancia moral alimenta-se da falta de mem\u00f3ria corro\u00edda pela primazia do presentismo, da impunidade de que, no fim, nada acontece, do escrut\u00ednio para \u201cingl\u00eas ver\u201d onde os sem-poder s\u00e3o penalizados e se desculpa quem viola as mais elementares regras \u00e9ticas. Uma pequena irregularidade pode ser fatal, uma grande fraude perde-se na neblina processual. Os indefesos, os \u00faltimos, os sem voz s\u00e3o vistos crescentemente como uma quantidade, ao mesmo tempo que h\u00e1 todo o tipo de salamaleques e toda a pan\u00f3plia de considera\u00e7\u00e3o hip\u00f3crita para pessoas ou entidades n\u00e3o recomend\u00e1veis.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a entre o fardo da burocracia e a exalta\u00e7\u00e3o da tecnocracia desumaniza as institui\u00e7\u00f5es, coisifica as pessoas e gera tenta\u00e7\u00f5es corruptivas. Em muitas inst\u00e2ncias de diferentes naturezas, refor\u00e7a-se o primado dos objectivos monetarizados, mas esfumam-se as refer\u00eancias, os princ\u00edpios e os ideais. Mais do que nunca, parece valer-se n\u00e3o pelo que se \u00e9, mas pelo que se tem ou se insinua ter.<\/p>\n<p>A verdadeira lideran\u00e7a vem do exemplo, n\u00e3o do poder formal e ef\u00e9mero. H\u00e1 na governa\u00e7\u00e3o, nas institui\u00e7\u00f5es, nas empresas, na sociedade, not\u00e1veis exemplos de rectid\u00e3o, servi\u00e7o p\u00fablico e hombridade. No entanto, a perspectiva axiol\u00f3gica do uso do poder como poder-dever \u00e9 cada vez mais a excep\u00e7\u00e3o. No frenesim de micro, pequenas e m\u00e9dias \u00e9ticas, a sociedade vem-se tornando mais amn\u00e9sica e dilui-se a fronteira entre o \u00fatil, o in\u00fatil e o f\u00fatil.<\/p>\n<p>O direito ao erro e a pedagogia da persist\u00eancia perante a dificuldade s\u00e3o, muitas vezes, substitu\u00eddos pela ilus\u00e3o do facilitismo, da permissividade e da \u201ctroca\u201d em circuito-fechado.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos confundir o erro, inerente \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o humana, com a irresponsabilidade, a gan\u00e2ncia, a cupidez. Erro n\u00e3o implica culpa, mas culpa tenta justificar-se pela (falsa) inoc\u00eancia de um erro inventado.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o os cargos que fazem as pessoas, s\u00e3o as pessoas que fazem os cargos. Mas est\u00e1 na moda separar a pessoa da fun\u00e7\u00e3o e a fun\u00e7\u00e3o da pessoa, como se o car\u00e1cter fosse divis\u00edvel.<\/p>\n<p>O incentivo ao m\u00e9rito e a \u00e9tica da sabedoria integral e do esfor\u00e7o honesto s\u00e3o, n\u00e3o raro, abafados pela defesa da mediocridade e de igualitarismos bacocos que afastam os melhores, mas s\u00e3o esplendorosamente retributivos para toda a esp\u00e9cie de \u201cboyismos\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que a \u00e9tica \u00e9 t\u00e3o-s\u00f3 o cumprimento escrupuloso da lei. Acontece que o conjunto das normas jur\u00eddicas e o conjunto das normas \u00e9ticas jamais coincidem. H\u00e1 muitas regras de conduta \u00e9tica que n\u00e3o est\u00e3o juridicamente plasmadas. A \u00e9tica n\u00e3o se estrutura na dicotomia legal \/ ilegal, mas radica na consci\u00eancia. O conjunto do que \u00e9 moralmente aceit\u00e1vel (o leg\u00edtimo) \u00e9 mais restrito do que \u00e9 juridicamente aceit\u00e1vel (o legal). Nem tudo o que a lei permite se nos deve impor, e h\u00e1 coisas que a lei n\u00e3o imp\u00f5e mas que se nos devem impor. Nenhuma lei pro\u00edbe em absoluto a mentira, a desonestidade, a deslealdade, a malvadez, o \u00f3dio, o desprezo, a vilanagem\u2026 Como nenhuma lei s\u00f3 por si assegura a dec\u00eancia, a verdade, a generosidade, a temperan\u00e7a, a prud\u00eancia, a exemplaridade, a integridade, a autenticidade, a honradez, a coer\u00eancia ou a sensatez. Recente estudo europeu sobre pr\u00e1ticas corruptivas refere que \u201ca corrup\u00e7\u00e3o se materializa, por vezes, em pr\u00e1ticas legais mas anti-\u00e9ticas que resultam de regras de l\u00f3bi opacas, tr\u00e1fico de influ\u00eancias e portas girat\u00f3rias entre o sector p\u00fablico e privado\u201d.<\/p>\n<p>A pessoa tem mais deveres \u00e9ticos do que o cidad\u00e3o. A consci\u00eancia de uma pessoa honesta \u00e9 mais exigente do que o produto de um legislador porque a lei \u00e9 o limite inferior da \u00e9tica.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a linguagem tem sido sujeita a uma anestesia ou mudez moral que favorece o relativismo \u00e9tico. Hoje o mentiroso n\u00e3o mente. Diz inverdades. Certas fraudes j\u00e1 n\u00e3o o s\u00e3o.<\/p>\n<p>Foram promovidas tecnocraticamente a imparidades. Um conflito de interesses at\u00e9 pode n\u00e3o o ser. Diz-se, ent\u00e3o, que cria sinergias. A batota depende do batoteiro. A \u00e9tica do esfor\u00e7o conta menos. Vale mais a esperteza arrivista. O valor da exactid\u00e3o esvazia-se. O que conta \u00e9 o calculismo da inexactid\u00e3o. A flexibilidade \u00e9 palavra de ordem para tudo, at\u00e9 mesmo para o car\u00e1cter e conduta moral. A iconografia do sucesso, mesmo que aparente substitui a iconografia dos valores, mesmo que imprescind\u00edveis.<\/p>\n<p>A \u00e9tica pura, dura e intensiva vem-se relativizando pela abordagem quantitativa e pelo contexto condicional ou adversativo. Por onde escapam e at\u00e9 t\u00eam sucesso os menos escrupulosos. O car\u00e1cter e a dec\u00eancia passaram a andar de m\u00e3os dadas com um qualquer \u201cse\u201d, \u201cmas\u201d, \u201ctalvez\u201d, \u201cquase sempre\u201d, \u201csalvo se\u201d ou \u201cmais ou menos\u201d. Em \u00e9tica n\u00e3o h\u00e1 o meiotermo, lugar geom\u00e9trico da indiferen\u00e7a onde tudo vale por nada valer.<\/p>\n<p>Em suma, n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dios t\u00e9cnicos para males \u00e9ticos. Esta \u00e9 a mais s\u00e9ria e profunda reforma estrutural e geracional que urge concretizar na sociedade portuguesa. Sem ela, n\u00e3o h\u00e1 troika que nos valha\u2026<\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e9tica da convic\u00e7\u00e3o e a \u00e9tica da responsabilidade n\u00e3o s\u00e3o contradit\u00f3rias. Completam-se uma \u00e0 outra e constituem no seu conjunto a express\u00e3o do \u201chomem aut\u00eantico\u201d Raymond Aron \u201c A olhar a mentira dos sal\u00f5es esquecemos a verdade das celas\u201d Miguel Torga Desde 2008, o mundo vive em crise econ\u00f3mica e social. 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