{"id":20479,"date":"2012-07-04T15:36:00","date_gmt":"2012-07-04T15:36:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20479"},"modified":"2012-07-04T15:36:00","modified_gmt":"2012-07-04T15:36:00","slug":"jaome-de-magalhaes-lima-vegetariano-e-pedestrianista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/jaome-de-magalhaes-lima-vegetariano-e-pedestrianista\/","title":{"rendered":"Jaome de Magalh\u00e3es Lima, vegetariano e pedestrianista"},"content":{"rendered":"<p>Jaime de Magalh\u00e3es Lima foi um aveirense not\u00e1vel, de saber multifacetado, que deixou marcas em \u00e1reas muito diversas, desde a pol\u00edtica aut\u00e1rquica \u00e0 escrita. No entanto, as suas facetas de vegetariano e de caminheiro (pedestrianista) s\u00e3o pouco conhecidas do grande p\u00fablico. Textos de Cardoso Ferreira<\/p>\n<p>Vegetariano convicto <\/p>\n<p>e \u201cmilitante\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 um s\u00e9culo, no dia 14 de junho de 1912, Jaime de Magalh\u00e3es Lima proferiu, no Ateneu Comercial do Porto, a confer\u00eancia intitulada \u201cO vegetarismo e a modalidade das ra\u00e7as\u201d, na qual historiou a evolu\u00e7\u00e3o do vegetarismo desde a antiguidade grega at\u00e9 ao in\u00edcio do s\u00e9culo XX, referindo uma enorme pl\u00eaiade de fil\u00f3sofos e outros pensadores que protagonizaram o pensamento vegetarista. Essa confer\u00eancia foi publicada pela Sociedade Vegetariana, do Porto, no nono volume da Biblioteca Vegetariana.<\/p>\n<p>Na sua confer\u00eancia, o escritor e pensador aveirense come\u00e7ou por referir que o vegetarismo tem os seus pergaminhos. \u201cN\u00e3o \u00e9 uma doutrina nascida de ontem. Tem t\u00edtulos aut\u00eanticos de nobreza prolongada durante gera\u00e7\u00f5es sem n\u00famero, respeitada nas mais altas civiliza\u00e7\u00f5es em cujas superiores aspira\u00e7\u00f5es colaborou, definindo-as eloquentemente pela voz das suas mais belas e autorizadas individualidades e corroborando-as ardentemente pelo exemplo dos seus mais devotados ap\u00f3stolos\u201d, escreveu, sublinhando, de seguida, que \u201co vegetarismo, tendo j\u00e1 os seus altares e o seu her\u00f3ico punhado de fi\u00e9is em todos os pa\u00edses que atingiram a sensibilidade moral e religiosa, est\u00e1 infelizmente longe de ter penetrado na conce\u00e7\u00e3o vulgar das obriga\u00e7\u00f5es humanas, como \u00e9 mister para a reden\u00e7\u00e3o de tantos e t\u00e3o dolorosos males que nos afligem e perseguem por culpa da nossa cegueira e obscuridade\u201d.<\/p>\n<p>De seguida, Jaime de Magalh\u00e3es Lima disse que recordar \u201cas li\u00e7\u00f5es dos profetas e mestres \u00e9 dever e \u00e9 utilidade. E pena \u00e9 que n\u00e3o possamos agora faz\u00ea-lo com a pausa que o encanto das suas palavras nos pede e que o proveito da pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o imperiosamente nos aconselha. De Pit\u00e1goras a Shelley ou a Wagner ou a E. R\u00e9clus ou a Tolstoi que arautos n\u00e3o teve o vegetarismo, que divinos clamores n\u00e3o fez ouvir \u00e0s multid\u00f5es ignorantes da pr\u00f3pria fortuna, escravas da primitiva animalidade ou ensandecidas e aviltadas em s\u00f3rdidos prazeres!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Nessa visita\u00e7\u00e3o pelos fil\u00f3sofos e pensadores vegetarianos, Jaime de Magalh\u00e3es Lima evocou Pit\u00e1goras, Ov\u00eddio, Plat\u00e3o, S\u00e9neca, Mus\u00f3nio Rufo, Plutarco, Porf\u00edrio da Alexandria e Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, todos eles na antiguidade. Do Renascimento ao s\u00e9culo XX, citou nomes como Cornaro, Tom\u00e1s Moore, Montaigne, Pedro Gassendi, Hecquet, Bernard de Mandeville, Wesley, Pope, Rousseau, Voltaire, Shelley, Lamartine, Michelet, Gleiz\u00e8s, Richard Wagner, E. R\u00e9clus, Le\u00e3o Tolstoi e Henri David Thoreau. <\/p>\n<p>O conferencista lembrou ainda que \u201cos padres da igreja crist\u00e3 primitiva, quando ela ainda se encontrava em toda a pureza, n\u00e3o se esqueceram, como n\u00e3o podiam esquecer-se, de verberar rigidamente as crueldades e a ins\u00e2nia do carnivorismo. E os fil\u00f3sofos estranhos ao cristianismo e at\u00e9 mesmo os que o combatiam mas que vinham repassados do platonismo hel\u00eanico n\u00e3o foram menos ardentes na flagela\u00e7\u00e3o daquele v\u00edcio a todos os respeitos mortal\u201d.<\/p>\n<p>Na parte final da sua confer\u00eancia, Jaime de Magalh\u00e3es Lima alertou para os perigos do alcoolismo, apresentando estat\u00edsticas relacionadas com o consumo em Aveiro, dizendo que \u201cpelas estat\u00edsticas municipais corrigidas por quem por longa experi\u00eancia conhece o movimento dos impostos, Aveiro com os seus 10.000 habitantes dever\u00e1 ter consumido em 1911 (n\u00fameros redondos): 1.041.000 litros de vinho comum, 7.500 litros de vinhos licorosos e 11.000 litros de aguardente\u201d.<\/p>\n<p>\u201cHoje, como ent\u00e3o, a carne e o vinho s\u00e3o companheiros e c\u00famplices nessa embriaguez do nosso sangue e da nossa alma que nos conduz aos infernos de todas as dem\u00eancias e abje\u00e7\u00f5es\u201d, concluiu Jaime de Magalh\u00e3es Lima.<\/p>\n<p>Pedestrianista\u2026 <\/p>\n<p>antes da moda <\/p>\n<p>do pedestrianismo<\/p>\n<p>Mesmo tendo viajado pelo estrangeiro e \u201capesar de ter nascido na cidade e at\u00e9 de ter experimentado a for\u00e7a e a velocidade dos primeiros autom\u00f3veis chegados \u00e0 nossa regi\u00e3o\u201d, Jaime de Magalh\u00e3es Lima \u201cpreferia as longas caminhadas a p\u00e9, onde podia contemplar a paisagem e encontrar-se com os homens simples dos campos e das serras\u201d, escreveu Monsenhor An\u00edbal Ramos no pref\u00e1cio do livro \u201cEntre pastores e nas serras\u201d, da autoria de Jaime de Magalh\u00e3es Lima, reeditado pela Portucel em 1986.<\/p>\n<p>Nesse livro, Jaime de Magalh\u00e3es Lima relata as suas caminhadas pela serra do Caramulo, come\u00e7ando por escrever que \u201cj\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 caminhos, h\u00e1 transportes, qualquer coisa que se move na estrada mas parece desconhec\u00ea-la. Pelo menos, n\u00e3o deixa que os sentidos a conhe\u00e7am. Viajar, nesta sujei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 calcar a terra, \u00e9 repudi\u00e1-la\u201d.<\/p>\n<p>Nesse seu livro, o escritor propriet\u00e1rio da Quinta de S. Francisco, em Eixo, refere que \u201cn\u00e3o havendo viajado pouco e servindo-me sem rebu\u00e7o e amplamente dos engenhos de transporte modernos, tendo-os admirado como um ing\u00e9nuo entusiasmo e juvenil insensatez, e at\u00e9 mesmo n\u00e3o havendo sido t\u00e3o pouco curioso nem t\u00e3o peco que resistisse \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o pueril de governar autom\u00f3veis no tempo em que essa aventura ainda era ousadia, cumprindo assim todo o protocolo das velocidades brutais que s\u00e3o a honra de semelhantes gentilezas, tive simultaneamente a fortuna, gra\u00e7as a Deus, de por igual e amiudadas vezes me tentar tamb\u00e9m com a experi\u00eancia do superior contentamento da jornada singela dos antigos, por montes, vales e altas serranias sem outro recurso al\u00e9m do meu pobre corpo que nunca foi maravilha nem para feitos her\u00f3icos, e sem outra esperan\u00e7a de regalos al\u00e9m do aben\u00e7oado prazer do esfor\u00e7o ao ar livre, coisa t\u00e3o barata e s\u00e3 como temida e aborrecida dos inv\u00e1lidos da civiliza\u00e7\u00e3o. Entre o governar do autom\u00f3vel na carreira cega dos 80 quil\u00f3metros por hora e o modesto governar dos meus sapatos na assisada tardeza de 80 quil\u00f3metros por semana, entre uma vertigem e a contempla\u00e7\u00e3o pausada e calma de toda a beleza da terra, achei por fim, sem sombra de d\u00favida, que a vertigem era uma doen\u00e7a, um pesadelo, enquanto a contempla\u00e7\u00e3o me insinuava nas veias e no esp\u00edrito um inconfund\u00edvel filtro de vida\u201d. <\/p>\n<p>Mais de meia centena de obras publicadas<\/p>\n<p>Jaime de Magalh\u00e3es Lima nasceu no ano de 1859 e faleceu em 1936. Foi um aveirense que se interessou por uma enorme diversidade de \u00e1reas, da pol\u00edtica \u00e0 escrita, da filosofia ao pensamento religioso, da educa\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o social. A sua Quinta de S. Francisco, em Eixo, \u00e9 uma refer\u00eancia da sua devo\u00e7\u00e3o a S. Francisco de Assis e do seu amor \u00e0s \u00e1rvores e \u00e0 natureza.<\/p>\n<p>Apesar de ter publicado mais de trinta livros e de dezena e meia de confer\u00eancias que proferiu tamb\u00e9m terem sido editadas, as obras de Jaime Magalh\u00e3es Lima est\u00e3o praticamente esquecidas dos leitores aveirenses, ainda que o seu nome seja patrono de uma escola secund\u00e1ria em Esgueira e a sua casa, na Rua do Carmo, acolha atualmente a sede da Comunidade Intermunicipal da Regi\u00e3o de Aveiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaime de Magalh\u00e3es Lima foi um aveirense not\u00e1vel, de saber multifacetado, que deixou marcas em \u00e1reas muito diversas, desde a pol\u00edtica aut\u00e1rquica \u00e0 escrita. No entanto, as suas facetas de vegetariano e de caminheiro (pedestrianista) s\u00e3o pouco conhecidas do grande p\u00fablico. Textos de Cardoso Ferreira Vegetariano convicto e \u201cmilitante\u201d H\u00e1 um s\u00e9culo, no dia 14 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-20479","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20479","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20479"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20479\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20479"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20479"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20479"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}