{"id":20488,"date":"2012-07-04T16:04:00","date_gmt":"2012-07-04T16:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20488"},"modified":"2012-07-04T16:04:00","modified_gmt":"2012-07-04T16:04:00","slug":"o-complexo-da-inferior-idade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-complexo-da-inferior-idade\/","title":{"rendered":"O complexo da \u00abinferior idade\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Portugal e a Crise <!--more--> A crise est\u00e1 a\u00ed. Est\u00e1 e parece ter gostado de n\u00f3s, pretendendo ficar por uns tempos. <\/p>\n<p>Mas, se a etimologia pode servir para alguma coisa, que seja para, neste caso, alentar e nos conduzir a aprender com a oportunidade que nos \u00e9 dada, na medida em que, segundo a sua origem grega, \u00abcrise\u00bb \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o ou capacidade de distinguir, \u00e9 um momento de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Para muitos portugueses, infelizmente, a densidade do momento servir\u00e1 mais para tudo confundir do que para distinguir, contudo, \u00e9 importante n\u00e3o perder a dist\u00e2ncia cr\u00edtica que permitir\u00e1 fazer as melhores escolhas de entre as que se afigurarem diante de cada um, sabendo que, quando se est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de dilema e j\u00e1 n\u00e3o se pode escolher entre o bem e o mal, mas entre dois males, h\u00e1 que escolher o mal menor. N\u00e3o \u00e9, portanto, momento para tomar decis\u00f5es que deitem tudo a perder. Uma sabedoria que os jesu\u00edtas souberam colher do seu fundador, Santo In\u00e1cio de Loyola, que sabia que n\u00e3o \u00e9 no meio das tempestades e da turbul\u00eancia que se devem tomar as decis\u00f5es, mas na acalmia e serenidade.<\/p>\n<p>Com este ponto de partida, importa, ent\u00e3o, procurar a dist\u00e2ncia que nos permita ler, em profundidade, como cheg\u00e1mos aqui.<\/p>\n<p>Poder\u00e1 parecer que o nosso olhar se lan\u00e7a para demasiado longe, mas, se tivermos em conta que as mem\u00f3rias e a cultura n\u00e3o se transmitem por saltos, mas num cont\u00ednuo, perceberemos o alcance das nossas ideias.<\/p>\n<p>Portugal viveu, a partir do s\u00e9culo XVIII, a saudade de um passado em que fora hegem\u00f3nico. Por sentir que o passado j\u00e1 l\u00e1 ia e n\u00e3o havia como recuper\u00e1-lo, a saudade deslocou-se do passado para o futuro e o pa\u00eds passou a viver uma nostalgia de um amanh\u00e3 nunca atingido. O sonho que, a partir daqui, se abriu ao nosso olhar, fez-nos partir em busca de uma quimera que se foi configurando em cada momento, mas que se alimentava da mesma seiva: superarmos a dor de termos perdido o poder que um dia tivemos.<\/p>\n<p>De ent\u00e3o para c\u00e1, quisemos ser grandes, parecendo que viv\u00edamos \u00e0 frente do tempo por imitarmos o que consider\u00e1vamos ser o mais moderno na Europa. O nosso modelo era Paris ou Londres\u2026 e, hoje, Berlim.<\/p>\n<p>O que \u00e9ramos era um n\u00e3o-ser. Viv\u00edamos o presente de uma aus\u00eancia.<\/p>\n<p>Esta condi\u00e7\u00e3o fez-nos uma na\u00e7\u00e3o adiada\u2026 \u00c9ramos um desejo nunca concretizado. <\/p>\n<p>Podem parecer palavras v\u00e3s, mas que nos conduziram, nos \u00faltimos anos, a tomar decis\u00f5es sobre comportamentos que pouco t\u00eam a ver com a nossa matriz e com a nossa identidade. Foi em nome de um \u00absuperior idade\u00bb que aceit\u00e1mos o aborto, ou que acolhemos a equipara\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o homossexual ao casamento heterossexual, ou que nos dispusemos a mudar as leis que protegem quem \u00e9 mais fr\u00e1gil ou seguimos mitos pedag\u00f3gicos cujos resultados est\u00e3o \u00e0 vista, etc. <\/p>\n<p>N\u00e3o nos quer\u00edamos na idade inferior para que os fantasmas que temos na mente n\u00e3o nos acusassem de \u00abinferior idade\u00bb. N\u00e3o ser\u00e1, ali\u00e1s, por acaso, que a \u00faltima palavra da nossa obra magna, \u00abOs Lus\u00edadas\u00bb, \u00e9 \u2018inveja\u2019. E decidimo-nos por uma vida que n\u00e3o era a nossa. O que outros faziam \u00e9 que era bom. E quisemos parecer grandes. Assim foi entre os que decidiam as grandes decis\u00f5es; assim foi nas nossas casas. Pois, porque se os pol\u00edticos n\u00e3o foram grandes n\u00e3o foi, apenas, porque \u00abum fraco rei faz fraca a forte gente\u00bb, mas sim porque um \u00abrei fraco \u00e9 o que melhor serve \u00e0 fraca gente\u00bb. Assim o decreta a democracia: quem n\u00e3o \u00e9 no pequeno n\u00e3o \u00e9 no grande. Um povo que nas coisas mi\u00fadas se engana e ilude, iludido e enganado ser\u00e1 nas coisas gra\u00fadas. <\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o est\u00e1 \u00e0 vista: aprendermos a viver o que somos, sonhando crescer \u00e0 medida das nossas possibilidades, sem nos enganarmos a n\u00f3s e sem enganarmos os outros. Elevando ao melhor o melhor de n\u00f3s, mas sem invejar as conquistas dos demais, antes sentindo nelas o desafio de nos transcendermos a n\u00f3s mesmos, rentabilizando o que somos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portugal e a Crise<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-20488","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20488","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20488"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20488\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20488"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20488"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20488"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}