{"id":20633,"date":"2012-09-06T10:43:00","date_gmt":"2012-09-06T10:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20633"},"modified":"2012-09-06T10:43:00","modified_gmt":"2012-09-06T10:43:00","slug":"testamenteiros-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/testamenteiros-de-deus\/","title":{"rendered":"Testamenteiros de Deus"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Os testamentos est\u00e3o longe de ser pac\u00edficos: n\u00e3o faltam as mais bizarras situa\u00e7\u00f5es de conflito e mesmo verdadeiras lutas. Outras vezes, tanto se faz e refaz o testamento que este se torna duvidoso. N\u00e3o \u00e9 este o trabalho dos exegetas dos textos sagrados? E n\u00e3o se chega a usar de viol\u00eancia extrema para se arrogar o t\u00edtulo de leg\u00edtimo int\u00e9rprete e herdeiro de Deus?<\/p>\n<p>Isa\u00edas j\u00e1 teve que se esfor\u00e7ar doidamente para traduzir os murm\u00farios de Deus \u2013 e deixou-nos espantosos poemas de esperan\u00e7a dignos de verdadeiro testamento de Deus. Quando aparece Jesus, a falar como toda a gente, Marcos pressentiu que se tratava de uma renova\u00e7\u00e3o: mas o problema era mostrar que o \u00abnovo testamento\u00bb se pode rever no \u00abvelho\u00bb, como fruto amadurecido.<\/p>\n<p>\u00abTestamento\u00bb \u00e9 um termo latino que significa a \u00ab\u00faltima vontade\u00bb perante a morte. Traduz o grego \u00abdiatheke\u00bb, um termo mais rico, que tanto significa \u00ab\u00faltima vontade\u00bb como \u00abalian\u00e7a\u00bb. <\/p>\n<p>Testamento requer pois fidelidade. Mas sabemos bem demais como pode ser catastr\u00f3fica a \u00abfidelidade\u00bb a preconceitos ou a ide\u00e1rios, sejam pol\u00edticos ou religiosos.<\/p>\n<p>No campo religioso, ningu\u00e9m se pode arrogar como o \u00fanico testamenteiro de Deus, nem como o \u00fanico e verdadeiro conhecedor das \u00abvontades de Deus\u00bb. No pr\u00f3prio cristianismo, a \u00abfidelidade a Cristo\u00bb n\u00e3o pode ser a fidelidade a pretensos \u00abtestamentos\u00bb de Cristo: s\u00f3 pode ser a fidelidade ao seu exemplo de fidelidade a Deus e aos outros, \u00abamando como ele amou\u00bb. <\/p>\n<p>(Porque ser\u00e1 que esta frase ganhou cheiro a mofo de sacristia? Provavelmente porque ficou presa num relic\u00e1rio em vez de se tornar moeda corrente para as rela\u00e7\u00f5es humanas: querer o bem dos outros n\u00e3o ser\u00e1 a mais garantida e agrad\u00e1vel forma de \u00abprogresso sustent\u00e1vel\u00bb?).<\/p>\n<p>A sempre nova e sempre velha alian\u00e7a de Deus manifesta-se, ao longo da B\u00edblia como vontade de um s\u00f3lido bem-estar para toda a humanidade. <\/p>\n<p>A cura do surdo-mudo do evangelho de hoje, na opini\u00e3o de peritos, pertence ao \u00abtestamento\u00bb que S. Marcos queria deixar \u00e0 comunidade crist\u00e3. Reflecte claramente um rito de inicia\u00e7\u00e3o: a express\u00e3o aramaica \u00abeffath\u00e1\u00bb, que significa \u00ababre-te\u00bb, entrou no antigo ritual do baptismo (n\u00e3o sem o risco de ser olhada como \u00abpalavra m\u00e1gica\u00bb). A cena come\u00e7a por uma \u00abentrevista personalizada\u00bb, a s\u00f3s, onde transparece a intimidade de Jesus com Deus e tristeza perante o sofrimento humano; Jesus aplica os dedos nos ouvidos do surdo como que para os abrir; e solta-lhe a l\u00edngua com o poder dissolvente da saliva. Servindo-se desta encena\u00e7\u00e3o, Jesus d\u00e1 exemplo de como \u00e9 preciso utilizar eficazmente os meios ao nosso alcance para bem da humanidade. <\/p>\n<p>Os relatos de \u00abcoisas que merecem a admira\u00e7\u00e3o\u00bb (ou \u00abmilagres\u00bb) refor\u00e7am a ideia de que o \u00abreino de Deus\u00bb \u00e9 o reino da integridade da pessoa humana \u2013 harmonia resultante da sa\u00fade corporal e mental com a conviv\u00eancia perfeita entre os seres humanos. Tiago \u00e9 grande defensor das \u00abrela\u00e7\u00f5es humanas\u00bb, respeitadoras da integridade das pessoas (a 2.\u00aa leitura omitiu a frase do \u00abtestamento\u00bb que vem logo a seguir: \u00abMas v\u00f3s desonrais o pobre. Porventura n\u00e3o s\u00e3o os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais?\u00bb \u00c9 que a riqueza e poder tanto servem para o mal como para o bem\u2026).<\/p>\n<p>Jesus encarna a \u00abpreocupa\u00e7\u00e3o\u00bb de Deus por uma efectiva \u00absalva\u00e7\u00e3o\u00bb da humanidade: o nosso \u00abvelho mundo\u00bb \u00e9 afinal um mundo a fazer-se sempre \u00abnovo\u00bb.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 um processo m\u00e1gico: exige cont\u00ednua e personalizada interroga\u00e7\u00e3o sobre o que ser\u00e1 o \u00abtestamento de Deus\u00bb. <\/p>\n<p>Depois da cura do surdo-mudo, conta o evangelho que toda a gente proclamou: \u00abtudo o que ele faz \u00e9 admir\u00e1vel!\u00bb <\/p>\n<p>Reflecte a admira\u00e7\u00e3o perante o testamento de Deus: \u00ab\u00c9 mesmo tudo muito bom!\u00bb (G\u00e9nesis 1,31). E lembra um \u00abgraffito\u00bb num muro velho de Coimbra, no final dos anos 70: \u00ab\u00c9 bom ser bom\u00bb\u2026<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt  <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-20633","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20633","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20633"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20633\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}