{"id":207,"date":"2010-01-08T10:21:00","date_gmt":"2010-01-08T10:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=207"},"modified":"2010-01-08T10:21:00","modified_gmt":"2010-01-08T10:21:00","slug":"o-caloiro-e-o-mestre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-caloiro-e-o-mestre\/","title":{"rendered":"O caloiro e o mestre"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Baptismo do Senhor (ano C)<\/p>\n<p>Mais coisa menos coisa, Jesus foi baptizado aos trinta anos por S. Jo\u00e3o (\u00abo baptista\u00bb). Como um caloiro, ao entrar no novo campo do  projecto de vida, submeteu-se a um rito de inicia\u00e7\u00e3o: sem passar por este, o novo membro n\u00e3o \u00e9 aceite nem se reconhece na comunidade em que se pretende inserir.<\/p>\n<p>Assim realizou o primeiro acto da sua carreira: anunciar o \u00abreino de Deus\u00bb \u2013 essa nova maneira de viver a vida de bra\u00e7o dado com o mais fiel e o mais desconcertante dos amigos. Jesus viu nesse amigo um pai sempre atento mas sempre discreto, deixando-nos todo o espa\u00e7o de manobra. Talvez por isso n\u00e3o teve medo para falar e agir com uma autoridade t\u00e3o genu\u00edna e tamanha que espantou a quantos se cruzaram com ele. <\/p>\n<p>O texto grego original de S. Lucas permite uma reflex\u00e3o muito pertinente: Jo\u00e3o baptizava \u00abpela\u00bb \u00e1gua (instrumento do ritual); Jesus, por\u00e9m, baptizar\u00e1 \u00abno\u00bb Esp\u00edrito Santo \u2013 n\u00e3o \u00e9 uma coisa exterior mas a realidade em que todo o universo est\u00e1 inserido e por ele vivificado. Jesus despertou-nos a consci\u00eancia para essa dimens\u00e3o, que nos permite abrir os olhos para ver melhor \u2013 e assim gozar mais intensamente de tudo o que a vida tem de bom.<\/p>\n<p>Acrescenta o mesmo evangelista que Jesus tamb\u00e9m baptizar\u00e1 pelo fogo, s\u00edmbolo universal de uma for\u00e7a divina que transforma e purifica. S. Lucas falar\u00e1 de \u00abl\u00ednguas de fogo\u00bb que desceram sobre os disc\u00edpulos, depois da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, ateando a coragem de continuar a sua mensagem; mas o fogo tamb\u00e9m significa as prova\u00e7\u00f5es a que a vida nos sujeita. Todos n\u00f3s podemos receber um ou mais \u00abbaptismos de fogo\u00bb, que nos d\u00e3o a t\u00eampera e aptid\u00e3o para levar em frente, com livre decis\u00e3o, os projectos para que nos sentimos chamados. <\/p>\n<p>Quando o projecto come\u00e7a a tomar forma, temos que descer humildemente entre a multid\u00e3o e submetermo-nos ao rito de inicia\u00e7\u00e3o. Se o n\u00e3o fizermos, ficaremos mais facilmente vulner\u00e1veis \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de poder e de orgulho. Sem a \u00abfome e sede de justi\u00e7a\u00bb, sem conv\u00edvio sincero com os outros, a vida mais esplendorosa e invejada ser\u00e1 in\u00fatil como a palha que o vento leva e o fogo destr\u00f3i.<\/p>\n<p>No baptismo de Jesus, o pr\u00f3prio Baptista confessou ser ele quem devia ser baptizado por Jesus. Mas Jesus insistiu em que n\u00e3o havia regalias para ningu\u00e9m\u2026 <\/p>\n<p>Quantos grandes empres\u00e1rios, altos dignit\u00e1rios religiosos, pol\u00edticos, \u00abdirectores\u00bb disto e daquilo&#8230; saber\u00e3o reconhecer, como Jo\u00e3o Baptista, os dons superiores de algu\u00e9m que venha ter com eles? Quantos ser\u00e3o capazes de ajudar os outros a multiplicarem os seus talentos, sobretudo quando isso implica ir-se retirando do primeiro plano? <\/p>\n<p>Na 1.\u00aa leitura, aparece o primeiro dos quatro poemas do \u00abservo de Jav\u00e9\u00bb, essa figura misteriosa, dif\u00edcil de identificar \u2013 provavelmente retrata o profeta seu autor ou outra figura religiosa impressionante. (Isa\u00edas viveu no s\u00e9c. VIII antes de Cristo; um disc\u00edpulo espiritual, j\u00e1 2 s\u00e9culos depois, \u00e9 que ter\u00e1 composto os cap\u00edtulos 40-55 \u2013 conhecidos como \u00abO Livro da Consola\u00e7\u00e3o\u00bb, devido ao tema dominante de Deus como  salvador). A profundidade e alcance religiosos destes quatro poemas fizeram deles a grande  prefigura\u00e7\u00e3o  de Jesus como \u00abservo perfeito\u00bb  e \u00abfilho muito amado\u00bb. <\/p>\n<p>Na 2.\u00aa leitura, S. Pedro, o chefe dos ap\u00f3stolos, reconhece o erro do preconceito relativamente a crist\u00e3os n\u00e3o judeus, pois verifica como Deus se comunica aos seres humanos \u00absem acep\u00e7\u00e3o de pessoas\u00bb. Foi s\u00f3 depois de ter meditado, que aceita entrar na casa do \u00abpag\u00e3o\u00bb Corn\u00e9lio \u2013  n\u00e3o, por\u00e9m, sem ter o cuidado de se justificar perante os crist\u00e3os de vistas estreitas&#8230; <\/p>\n<p>Por\u00e9m, o tema comum que sobressai \u00e9 o da justi\u00e7a \u2013 que  \u00abn\u00e3o apaga a torcida que ainda fumega\u00bb, mas que se procura impor \u00absem desfalecer nem desistir\u00bb; a justi\u00e7a que devemos tornar presente  no mundo, se queremos agradar a Deus.<\/p>\n<p>Nos ritos actuais do Baptismo, sobretudo no das crian\u00e7as, sobressai a import\u00e2ncia de o compromisso pela justi\u00e7a ser conscientemente aceite pelos pais, padrinhos, e toda a comunidade envolvente. <\/p>\n<p>\u00c9 portanto a comunidade que est\u00e1 em jogo. Ao longo da nossa vida, e particularmente nos momentos dif\u00edceis e de grande sofrimento, como quando a morte se parece anunciar, \u00e9 nesta comunidade que dever\u00edamos encontrar a for\u00e7a de caminhar juntos no misterioso projecto da vida, sem desfalecer no caminho da justi\u00e7a e procurando as estrat\u00e9gias mais engenhosas para a implementar. Deixamos assim \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es o testemunho de que \u00abvale a pena viver\u00bb.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-207","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/207","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=207"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/207\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=207"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=207"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=207"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}