{"id":2073,"date":"2010-06-23T16:16:00","date_gmt":"2010-06-23T16:16:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2073"},"modified":"2010-06-23T16:16:00","modified_gmt":"2010-06-23T16:16:00","slug":"saramagop-profeta-do-protesto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/saramagop-profeta-do-protesto\/","title":{"rendered":"Saramagop, profeta do protesto"},"content":{"rendered":"<p>A morte de Saramago (Azinhaga, Goleg\u00e3, 16 de Novembro de 1922 \u2014 T\u00edas, Lanzarote, 18 de Junho de 2010) n\u00e3o deixou a Igreja Cat\u00f3lica indiferente. No s\u00edtio do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), dependente organicamente dos bispos portugueses, uma nota do dia 18 de Junho, por \u201cdever de cordialidade\u201d, real\u00e7a a aproxima\u00e7\u00e3o do Nobel do texto b\u00edblico e lamenta os \u201cbalizamentos ideol\u00f3gicos\u201d. \u201cComo \u00e9 p\u00fablico, o cristianismo e o texto b\u00edblico interessaram muito ao autor como objecto para a sua livre recria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. H\u00e1 uma exig\u00eancia e beleza nessa aproxima\u00e7\u00e3o que gostar\u00edamos de sublinhar. O \u00fanico lamento \u00e9 que ela nem sempre fosse levada mais longe, e de forma mais desprendida de balizamentos ideol\u00f3gicos. Mas a vivacidade do debate que a sua importante obra instaura, em nada diminui o dever da cordialidade de um encontro cultural que, acreditamos, s\u00f3 pode ser gerado na abertura e na diferen\u00e7a\u201d, escreve o SNPC.<\/p>\n<p>Mais com cepticismo do que com humildade, o Nobel da Literatura portugu\u00eas escreveu que \u201co universo n\u00e3o tem not\u00edcia da nossa exist\u00eancia\u201d. Mas o Vaticano tem e deu nota dela no \u201cL\u2019Osservatore Romano\u201d, tanto em 1998, quando Saramago recebeu o pr\u00e9mio m\u00e1ximo da Literatura e o jornal do Vaticano qualificou o escritor portugu\u00eas como \u201cvetero comunista\u201d, isto \u00e9, comunista dos antigos (a express\u00e3o foi  mal traduzida na altura e tomada por \u201ccomunista inveterado\u201d), como no fim-de-semana passado. Num texto intitulado \u201cA (presum\u00edvel) omnipot\u00eancia do narrador\u201d, numa refer\u00eancia ao tipo de narrador que o escritor preferia nos seus romances, Claudio Toscani afirma que Saramago foi \u201cum homem e um intelectual de nenhuma admiss\u00e3o metaf\u00edsica, ancorado at\u00e9 ao final numa confian\u00e7a arbitr\u00e1ria no materialismo hist\u00f3rico\u201d. <\/p>\n<p>\u201cColocado lucidamente entre o joio no evang\u00e9lico campo de trigo, [Saramago] declara-se sem sono pelo pensamento das cruzadas ou da Inquisi\u00e7\u00e3o, esquecendo a mem\u00f3ria do \u2018gulag\u2019, das purgas, dos genoc\u00eddios, dos \u2018samizdat\u2019 culturais e religiosos\u201d, l\u00ea-se no longo artigo, interpretado pela imprensa portuguesa como um sinal de que o Vaticano n\u00e3o fez as pazes com o falecido escritor.<\/p>\n<p>Na realidade, se, como tanto se tem dito, a melhor forma de homenagear Saramago \u00e9 l\u00ea-lo, conv\u00e9m n\u00e3o esquecer a matriz ideol\u00f3gica do autor. E nisso o jornal do Vaticano \u00e9 certeiro. \u201cRelativamente \u00e0 religi\u00e3o, atada como esteve sempre a sua mente por uma destabilizadora inten\u00e7\u00e3o de tornar banal o sagrado e por um materialismo libert\u00e1rio que quanto mais avan\u00e7ava nos anos mais se radicalizava, Saramago n\u00e3o se deixou nunca abandonar por uma inc\u00f3moda simplicidade teol\u00f3gica\u201d, escreve Toscani. \u201cUm populista extremista como ele, que tomou a seu cargo o porqu\u00ea do mal do mundo, deveria ter abordado em primeiro lugar o problema das err\u00f3neas estruturas humanas, das hist\u00f3rico-pol\u00edticas \u00e0s s\u00f3cio-econ\u00f3micas, em vez de saltar para o plano metaf\u00edsico\u201d, acrescenta. <\/p>\n<p>O autor mais b\u00edblico<\/p>\n<p>Em Portugal, P.e Tolentino Mendon\u00e7a, director do SNPC e interlocutor de Saramago em debates sem fundo religioso, real\u00e7ou numa entrevista \u00e0 TSF, com tr\u00eas notas, como \u201cum ser humano foge sempre \u00e0s etiquetas\u201d.<\/p>\n<p>A primeira: \u201cNa altura [do lan\u00e7amento de \u201cCaim\u201d] disse-lhe: \u00abO Saramago, que faz estas afirma\u00e7\u00f5es incendi\u00e1rias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 B\u00edblia, \u00e9 contudo o mais b\u00edblico dos autores contempor\u00e2neos, porque a sua escrita tem uma musicalidade, uma cad\u00eancia e uma porosidade por onde a B\u00edblia entra\u00bb. E ele sorriu\u201d.<\/p>\n<p>A segunda: \u201cUm outro momento interessante foi quando eu lhe recordei um texto de um amigo dele, um colunista do jornal \u00abEl Pais\u00bb, que escreveu que Saramago n\u00e3o andava longe dos m\u00edsticos. Saramago concordou e disse que aquele texto lhe tinha agradado muito. E de certa forma, o nada do ate\u00edsmo que Saramago proclamava como que se encontra numa viagem diversa\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cO terceiro apontamento foi eu ter percebido, durante a conversa, que ele estava a guardar uma esp\u00e9cie de trunfo para o final, porque tinha junto de si um volume no qual mexia de vez em quando e que eu n\u00e3o conseguia ver o que era. No fim ele mostrou-mo: era uma edi\u00e7\u00e3o de Jordi Savall das \u00ab\u00daltimas Sete Palavras de Cristo na Cruz\u00bb, do compositor Joseph Haydn. Essa edi\u00e7\u00e3o trazia um texto de um te\u00f3logo catal\u00e3o e outro de Saramago. E ele quis muito dizer que \u00e9 chamado para escrever sobre Jesus, num texto que \u00e9 de facto muito belo. E ele acaba por afirmar uma coisa que, a mim, que sou crente e te\u00f3logo, me interessa muito: para ele, Saramago, n\u00e3o era relevante a forma como Jesus ilumina a quest\u00e3o de Deus, porque para ele essa quest\u00e3o n\u00e3o se p\u00f5e. Mas \u00e9 muito importante a forma como a figura de Jesus ilumina a quest\u00e3o do homem, este enigma que n\u00f3s somos. Ele achava que Jesus iluminava muito esse enigma\u201d.<\/p>\n<p>Teologia do protesto<\/p>\n<p>No final da entrevista, Tolentino Mendon\u00e7a afirma: \u201cEm Jos\u00e9 Saramago h\u00e1 muito do que eu chamaria uma esp\u00e9cie de teologia do protesto. Um homem que n\u00e3o aceita solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis para as grandes perguntas da exist\u00eancia. E que a tudo diz que n\u00e3o, protestativamente. Isso \u00e9 uma coisa que nos faz bem a todos. Numa cultura muito conformista e de assentimentos f\u00e1ceis, [\u00e9 preciso] perceber o seu \u201cn\u00e3o\u201d, mesmo discordando dele e percebendo as limita\u00e7\u00f5es de algumas das suas declara\u00e7\u00f5es e do seu pensamento. Penso que esse ar de profeta que ele carregava \u00e9 muito importante porque a cultura e um criador t\u00eam tamb\u00e9m uma responsabilidade civil que \u00e9 de lan\u00e7ar esse inconformismo, de lan\u00e7ar a pergunta. Nesse sentido, a pessoa de Jos\u00e9 Saramago cumpria muito bem essa imagem\u201d.<\/p>\n<p>Albert Camus (1913-1960), franc\u00eas, tamb\u00e9m Nobel da Literatura, autor do romance \u201cA Peste\u201d, que dizem ser modelo do \u201cEnsaio sobre a cegueira\u201d, escreveu que \u201ca revolta \u00e9 uma ascese, se bem que cega, porque o revoltado blasfema na esperan\u00e7a de um novo Deus\u201d. Saramago teve esperan\u00e7a em Deus? Conscientemente, dizia que n\u00e3o. Nas cerim\u00f3nias f\u00fanebres, a ministra da Cultura afirmou: \u201cSaramago n\u00e3o tinha f\u00e9 em Deus, mas Deus, se existir, certamente teve f\u00e9 nele\u201d. N\u00e3o sei se Saramago teria gostado da afirma\u00e7\u00e3o, porque decidiu viver \u201cilhado\u201d, como escreve Pedro Jos\u00e9 nesta edi\u00e7\u00e3o. \u201cIlhado\u201d em mais do que um sentido. \u201cSeu ate\u00edsmo, supostamente radical, n\u00e3o ajuda os bons ateus&#8230; quanto mais os maus crentes\u201d. <\/p>\n<p>Jorge Pires Ferreira, <\/p>\n<p>com Ag\u00eancia Ecclesia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte de Saramago (Azinhaga, Goleg\u00e3, 16 de Novembro de 1922 \u2014 T\u00edas, Lanzarote, 18 de Junho de 2010) n\u00e3o deixou a Igreja Cat\u00f3lica indiferente. 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