{"id":20776,"date":"2012-09-26T17:02:00","date_gmt":"2012-09-26T17:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20776"},"modified":"2012-09-26T17:02:00","modified_gmt":"2012-09-26T17:02:00","slug":"a-construcao-da-escola-portuguesa-de-orgao-1-a-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-construcao-da-escola-portuguesa-de-orgao-1-a-parte\/","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o da escola portuguesa de \u00f3rg\u00e3o (1.\u00aa parte)"},"content":{"rendered":"<p>J\u00falia d\u2019Almendra (1904-1992) morreu h\u00e1 20 anos. Foi uma figura destacada da m\u00fasica sacra em Portugal no s\u00e9c. XX, pelo seu trabalho no canto gregoriano e na organ\u00edstica. Primeiro de uma s\u00e9rie de tr\u00eas artigos.  <!--more--> DOMINGOS PEIXOTO<\/p>\n<p>Organista e professor, jubilado<\/p>\n<p>J\u00falia d\u2019Almendra deixou-nos no dia 22 de setembro de 1992, fez agora 20 anos; e celebra-se a 3 de outubro o 108.\u00ba anivers\u00e1rio do seu nascimento. Trata-se de uma das personalidades mais carism\u00e1ticas da m\u00fasica sacra em Portugal no s\u00e9c. XX, que fundou o Centro de Estudos Gregorianos (posteriormente reconvertido no atual Instituto Gregoriano de Lisboa), ber\u00e7o da escola portuguesa de \u00f3rg\u00e3o. Nas palavras do eminente music\u00f3logo Jacques Chailley, antigo diretor da Faculdade de Musicologia da Sorbonne (Paris), \u201co nome de J\u00falia d\u2019Almendra dever\u00e1 figurar em primeiro lugar entre os servidores da m\u00fasica sacra\u201d. Cf. Idalete Giga (coord.), J\u00falia Am\u00e9lia Gomes d\u2019Almendra. Centen\u00e1rio do nascimento (1904-2004), Lisboa, Centro Ward, 2004, p.5.<\/p>\n<p>1. Nota biogr\u00e1fica<\/p>\n<p>J\u00falia d\u2019Almendra nasceu em Sam\u00f5es \u2013 Vila Flor (Tr\u00e1s-os-Montes) em 1904 e fixou-se em Lisboa pelo ano de 1912. Violinista precoce, apresentou-se no Teatro Nacional de S. Carlos aos 11 anos; posteriormente, ap\u00f3s ter conclu\u00eddo o curso superior de Violino no Conservat\u00f3rio Nacional, exerceu a sua profiss\u00e3o tocando em v\u00e1rias orquestras de Lisboa. No final da d\u00e9cada de 30, come\u00e7ou a interessar-se pelo canto gregoriano, estudando-o com os padres Pascal Piriou e In\u00e1cio Aldassoro no Semin\u00e1rio dos Olivais. Pouco depois, abandonou definitivamente a carreira de violinista para se dedicar em exclusividade ao estudo e promo\u00e7\u00e3o do canto gregoriano e da m\u00fasica sacra em geral. Nesta mudan\u00e7a de rumo, teve uma influ\u00eancia decisiva a music\u00f3loga francesa Solange Corbin, que no in\u00edcio dos anos 40 fez importantes estudos sobre o esp\u00f3lio musical dos conventos portugueses, incluindo o Convento de Jesus em Aveiro. J\u00falia d\u2019Almendra atribui-lhe a consci\u00eancia dos \u201clargos horizontes\u201d que a nortearam por novos caminhos. Houve uma frase determinante, proferida por esta eminente music\u00f3loga: Portugal nada perdia com uma violinista a menos, mas o campo da m\u00fasica sacra estava deserto e nele J\u00falia d\u2019Almendra teria uma miss\u00e3o a executar (Canto Gregoriano, n.\u00ba 26, p. 7). Estas palavras calaram fundo numa mulher de f\u00e9, dispon\u00edvel para o servi\u00e7o da Igreja; assumiu plenamente esta miss\u00e3o, a que se dedicou de alma e cora\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao fim dos seus dias.<\/p>\n<p>O \u201cdeserto\u201d a que se referia Solange Corbin era a investiga\u00e7\u00e3o musicol\u00f3gica no campo espec\u00edfico da m\u00fasica sacra (o curso de Ci\u00eancias Musicais seria criado apenas em 1980, na Universidade Nova de Lisboa), a pr\u00e1tica organ\u00edstica num pa\u00eds invadido pelo harm\u00f3nio e pelo amadorismo, e a aus\u00eancia de escolas de m\u00fasica sacra. Plenamente devotada \u00e0 sua miss\u00e3o, partiu para Paris em 1946, como bolseira do Governo Franc\u00eas, para estudar na Sorbonne e no Instituto Gregoriano, onde concluiu o curso com a tese Les modes gregoriens dans la musique de Claude Debussy, apresentada em 1948 e publicada em 1950; este trabalho \u00e9 ainda hoje considerado como uma refer\u00eancia no estudo da obra daquele compositor. <\/p>\n<p>O m\u00e9rito da obra de J\u00falia d\u2019Almendra foi reconhecido pelo Governo Franc\u00eas em 1958; a Santa S\u00e9 atribuiu-lhe a Medalha Pontif\u00edcia Pro Ecclesia em 1974, por ocasi\u00e3o do 25.\u00ba anivers\u00e1rio das Semanas Gregorianas de F\u00e1tima e, finalmente, o Governo Portugu\u00eas condecorou-a em 1984 com a Medalha de Instru\u00e7\u00e3o P\u00fablica.<\/p>\n<p>2. Um projeto<\/p>\n<p>com objetivos bem definidos<\/p>\n<p>De regresso a Portugal, J\u00falia d\u2019Almendra tinha j\u00e1 um projeto para a m\u00fasica sacra e uma estrat\u00e9gia inteligentemente definida para o executar, contando para isso com o apoio incondicional dos seus mestres e com a colabora\u00e7\u00e3o do Episcopado e do Governo Portugu\u00eas. Passando de imediato \u00e0 a\u00e7\u00e3o, em 1950 cria as Semanas de Estudos Gregorianos, um amplo movimento de forma\u00e7\u00e3o que reuniria participantes de todas as dioceses do pa\u00eds. Foram inauguradas solenemente no sal\u00e3o do Conservat\u00f3rio Nacional em 10 de abril de 1950, em sess\u00e3o presidida pelo Sr. Cardeal Patriarca, com a presen\u00e7a do diretor do Instituto Gregoriano de Paris e de membros do governo portugu\u00eas. A sess\u00e3o integrou um pequeno recital de \u00f3rg\u00e3o pelo ent\u00e3o professor da disciplina, Filipe Rosa de Carvalho, como afirma\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca da presen\u00e7a insubstitu\u00edvel deste instrumento na m\u00fasica sacra. De resto, a planifica\u00e7\u00e3o das Semanas incluiu quase sempre um concerto de \u00f3rg\u00e3o e, a partir de 1972, tamb\u00e9m um curso de aperfei\u00e7oamento. As Semanas continuam a realizar-se, agora sob a dire\u00e7\u00e3o da professora Idalete Giga; tiveram lugar em F\u00e1tima at\u00e9 1996 e, a partir da\u00ed, em diferentes dioceses (em 2010, realizou-se em Aveiro a 59.\u00aa). <\/p>\n<p>Em 1951, foi criada a Liga dos Amigos do Canto Gregoriano, uma associa\u00e7\u00e3o de apoio a toda a atividade a desenvolver e, dois anos mais tarde, o Centro de Estudos Gregorianos, a 1.\u00aa escola de m\u00fasica sacra em Portugal com ensino superior, para a forma\u00e7\u00e3o de investigadores e de m\u00fasicos de Igreja profissionais &#8211; diretores de coro, cantores e organistas. J\u00falia d\u2019Almendra fundaria ainda, em 1956, a revista Canto Gregoriano \u2013 de que seria a diretora e principal redatora at\u00e9 ao termo da publica\u00e7\u00e3o (1984) -, \u00f3rg\u00e3o formativo e informativo, onde encontramos artigos sobre temas no \u00e2mbito da m\u00fasica sacra (incluindo interessantes e diversificados estudos sobre o \u00f3rg\u00e3o), reflex\u00f5es, cr\u00edticas de concertos e informa\u00e7\u00f5es sobre o panorama desta \u00e1rea em Portugal e no estrangeiro. No mesmo ano seria tamb\u00e9m iniciada a leciona\u00e7\u00e3o de classes infantis segundo o m\u00e9todo Ward. <\/p>\n<p>Na pr\u00f3xima semana: O n\u00edvel musical dos m\u00fasicos da Igreja \u2013 a palavra inc\u00f3moda de J\u00falia d\u2019Almendra. Uma forma\u00e7\u00e3o superior para o organista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falia d\u2019Almendra (1904-1992) morreu h\u00e1 20 anos. Foi uma figura destacada da m\u00fasica sacra em Portugal no s\u00e9c. 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