{"id":20787,"date":"2012-09-06T10:31:00","date_gmt":"2012-09-06T10:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20787"},"modified":"2012-09-06T10:31:00","modified_gmt":"2012-09-06T10:31:00","slug":"jose-augusto-o-barrista-de-aveiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/jose-augusto-o-barrista-de-aveiro\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Augusto, o barrista de Aveiro"},"content":{"rendered":"<p>Aveirenses Not\u00e1veis <!--more--> Representou toda a \u201cgaleria\u201d de figuras tradicionais aveirenses em barro, pintou e esculpiu. Morreu no dia 27 de agosto, deixando um legado art\u00edstico impar.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 (Z\u00e9) Augusto foi o artista contempor\u00e2neo a quem melhor assenta o t\u00edtulo de \u201co barrista de Aveiro\u201d, n\u00e3o s\u00f3 pela quantidade de figuras aveirenses que imortalizou em barro, mas tamb\u00e9m pelo trabalho de investiga\u00e7\u00e3o e procura das \u201csimbologias\u201d que melhor identificassem e diferenciassem essas figuras (religiosas ou populares) da cidade e da regi\u00e3o de Aveiro.<\/p>\n<p>Foram dezenas de \u201cbonecos\u201d em barro que Jos\u00e9 Augusto concebeu, representando praticamente toda a \u201cgaleria\u201d de figuras tradicionais aveirenses, vestidos com os respetivos trajes t\u00edpicos: marnoto, peixeira, homem do ramo, mulher do ramo, tricana, pescador, entre muitas outras figuras, com destaque ainda para o \u201ccagar\u00e9u\u201d e a \u201ccagar\u00e9u\u201d, s\u00edmbolos da freguesia da Vera Cruz, terra natal do artista, a que posteriormente juntou o \u201cceboleiro\u201d e a \u201cceboleira\u201d, simbolizando os habitantes da freguesia da Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>A par dessas figuras populares, Jos\u00e9 Augusto tamb\u00e9m modelou in\u00fameras imagens religiosas, de que s\u00e3o exemplo os \u201csantos\u201d mais populares das gentes aveirenses: Santa Joana e S\u00e3o Gon\u00e7alinho. Tamb\u00e9m de cariz religioso, foram os in\u00fameros pres\u00e9pios que criou, pe\u00e7as que preenchem cole\u00e7\u00f5es um pouco por toda a regi\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 as executadas em barro vermelho, mas tamb\u00e9m as coloridas e vidradas, num constante trabalho de renova\u00e7\u00e3o porque todos os anos o artista surgia com novos pres\u00e9pios.<\/p>\n<p>Muitas das figuras que Jos\u00e9 Augusto criou em barro tamb\u00e9m as pintou em pratos decorativos e em pain\u00e9is art\u00edsticos, demonstrando um grande \u00e0-vontade em diversas \u00e1reas da cer\u00e2mica e da azulejaria. Tanto nos pratos decorativos, como nos pain\u00e9is de azulejos, o artista concebeu obras de pendor popular e trabalhos bastante mais eruditos e elaborados, indo desde o estilo cl\u00e1ssico ao contempor\u00e2neo, e do figurativo ao abstrato, pain\u00e9is que se encontram um pouco por toda a cidade, em locais p\u00fablicos, em igrejas (em colabora\u00e7\u00e3o com Jeremias Bandarra) ou em fachadas de edif\u00edcios particulares.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de ceramista e barrista, Jos\u00e9 Augusto foi tamb\u00e9m um artista pl\u00e1stico autor de uma diversificada obra de pintura, onde percorreu v\u00e1rios estilos e t\u00e9cnicas, numa constante busca do belo e da perfei\u00e7\u00e3o. Em 2006, o artista enveredou tamb\u00e9m pela escultura, designadamente de bustos. No in\u00edcio deste ano, Jos\u00e9 Augusto assinalou os seus 50 anos de carreira art\u00edstica com uma grande exposi\u00e7\u00e3o de pintura, azulejaria e cer\u00e2mica, realizada na Galeria Municipal Morgados da Pedricosa, numa iniciativa do Aveiro Arte, grupo de artistas aveirenses que h\u00e1 muito integrava.<\/p>\n<p>De real\u00e7ar que apesar de Jos\u00e9 Augusto ser um verdadeiro artista pl\u00e1stico, como h\u00e1 poucos em Aveiro, nunca deixou de se assumir como um artes\u00e3o, tendo sido um dos fundadores da FARAV (Feira de Artesanato de Aveiro). Era tamb\u00e9m presen\u00e7a habitual nas inaugura\u00e7\u00f5es de exposi\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e em outros eventos culturais realizados em Aveiro.<\/p>\n<p>50 anos de vida art\u00edstica<\/p>\n<p>Foi a partir de 1978 que Jos\u00e9 Augusto se dedicou exclusivamente ao artesanato e \u00e0s artes pl\u00e1sticas, ainda que tenha iniciado a sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0 cer\u00e2mica art\u00edstica no come\u00e7o da d\u00e9cada anterior (1960 \/ 70).<\/p>\n<p>A sua entrada no mundo da cer\u00e2mica ocorreu quando tinha 16 anos de idade, altura em que entrou para as Faian\u00e7as de S\u00e3o Roque (Aveiro), como oleiro e cer\u00e2mico. Mais tarde, transferiu-se para a Artibus (tamb\u00e9m em Aveiro), como oleiro. Nessa \u00e9poca, ap\u00f3s o hor\u00e1rio laboral, Jos\u00e9 Augusto, estudava desenho e pintura cer\u00e2mica na Escola Industrial de Aveiro.  <\/p>\n<p>No entanto, foi em 1959, quando se transferiu para a F\u00e1brica Aleluia (Aveiro), que Jos\u00e9 Augusto fortaleceu ainda mais a sua veia de modelador ceramista e de pintor de pain\u00e9is. Como o pr\u00f3prio afirmou (numa das muitas entrevistas que concedeu a Cardoso Ferreira), foi \u201cna F\u00e1brica Aleluia que comecei a fazer os primeiros ensaios como artes\u00e3o porque tinha a liberdade de cozer na f\u00e1brica as pe\u00e7as que fazia em casa depois do trabalho. Foi assim que comecei a fazer artesanato, mas era ainda um extra que eu tinha para al\u00e9m do trabalho da f\u00e1brica\u201d.<\/p>\n<p>Em 1969, Jos\u00e9 Augusto montou a sua pr\u00f3pria oficina, criando um diversificado n\u00famero de \u201cbonecos\u201d representativos das figuras tradicionais de Aveiro e das profiss\u00f5es t\u00edpicas da regi\u00e3o, a que juntou tamb\u00e9m as imagens de \u201csantos\u201d. A par dos \u201cbonecos\u201d, tamb\u00e9m sa\u00edram dessa oficina um sem n\u00famero de pratos decorativos e alguns pain\u00e9is de azulejos, bem como algumas telas. Mas, em 1973, Jos\u00e9 Augusto optou por mudar radicalmente a sua vida, deixando Aveiro ruma a Angola, onde montou uma oficina de artesanato cer\u00e2mico que terminou no ano seguinte, com o conturbado processo de descoloniza\u00e7\u00e3o angolano. Por isso, em 1975, Jos\u00e9 Augusto regressou definitivamente a Aveiro, para n\u00e3o mais largar a sua oficina de artesanato, situada no n.\u00ba 404 da Rua de S. Bernardo, na freguesia de S. Bernardo, mesmo \u00e0s portas de Aveiro.<\/p>\n<p>Os \u201cbonecos\u201d que Jos\u00e9 Augusto fazia tanto podiam ser em s\u00e9rie (por molde) ou manualmente (pe\u00e7as \u00fanicas). No entanto, o artista sublinhou que todos eles eram pintados \u00e0 m\u00e3o, pelo que nunca houve dois completamente iguais, ap\u00f3s o que eram vidrados. S\u00f3 as pe\u00e7as em barro vermelho n\u00e3o eram pintadas e vidradas.<\/p>\n<p>O artista explicou que os pratos, as jarras e outras lou\u00e7as s\u00e3o feitas por fundi\u00e7\u00e3o, processo que tamb\u00e9m aplicava aos bonecos que fazia em s\u00e9rie (ou de repeti\u00e7\u00e3o). \u201cAs pe\u00e7as que fa\u00e7o manualmente s\u00e3o pelo processo de estendimento de lastra, ou seja, o barro \u00e9 estendido em folha e depois fazemos as dobragens para fazer as figuras\u201d, relatou.<\/p>\n<p>Cardoso Ferreira<\/p>\n<p>Um \u201ccagar\u00e9u\u201d que se mudou <\/p>\n<p>para S. Bernardo<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Augusto Ferreira dos Santos nasceu no ano de 1930, na t\u00edpica zona da Beira-Mar, em Aveiro, numa casa na antiga Rua do Vento, hoje denominada Rua Ant\u00f3nio Cristo, no seio de uma fam\u00edlia com dificuldades econ\u00f3micas, vivendo a sua inf\u00e2ncia como os seus amigos \u201ccagar\u00e9us\u201d, entre os quais o artista cer\u00e2mico Jo\u00e3o Mateus, c\u00e9lebre pelas pinturas em conchas marinhas. <\/p>\n<p>Com apenas 13 anos de idade, foi trabalhar como aprendiz de polidor de m\u00f3veis. Ainda na \u00e1rea da carpintaria e marcenaria, Jos\u00e9 Augusto mudou-se para uma oficina de fazer ba\u00fas de madeira, artigo que ent\u00e3o era considerado um luxo. Aos 16 anos, deixou as madeiras para entrar no ramo da olaria e da cer\u00e2mica, atividade que nunca mais largou, trabalhando praticamente at\u00e9 ao dia da sua morte, deixando ainda muitos projetos art\u00edsticos por terminar, conforme nos confidenciou recentemente, lamentando-se, na altura, por um problema de vis\u00e3o que o impossibilitou temporariamente de concretizar trabalhos que tinha em mente.<\/p>\n<p>No dia 27 de agosto de 2012, Jos\u00e9 Augusto deixou o mundo dos vivos, mas onde a sua obra art\u00edstica permanecer\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aveirenses Not\u00e1veis<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-20787","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20787","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20787"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20787\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}