{"id":20801,"date":"2012-10-03T16:35:00","date_gmt":"2012-10-03T16:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20801"},"modified":"2012-10-03T16:35:00","modified_gmt":"2012-10-03T16:35:00","slug":"recasados-abandonados-nao-acolhidos-depois-de-maltratados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/recasados-abandonados-nao-acolhidos-depois-de-maltratados\/","title":{"rendered":"Recasados abandonados? N\u00e3o. Acolhidos, depois de maltratados"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o foi um debate. Foi um esclarecimento e uma partilha sobre os recasados na Igreja Cat\u00f3lica. E um sinal de que \u00e9 preciso fazer mais.<\/p>\n<p>O que se pode esperar de um encontro promovido por leigos para falar de divorciados e recasados face \u00e0 Igreja cat\u00f3lica que enche por completo o sal\u00e3o nobre da C\u00e2mara Municipal de Aveiro num s\u00e1bado \u00e0 noite? \u00c0 partida, que o assunto n\u00e3o morra ali. A ades\u00e3o mostrou que a quest\u00e3o interessa. E por isso o grupo de leigos que organizou a iniciativa criou um e-mail e uma p\u00e1gina no Facebook (recasados.aveiro@gmail.com; www.facebook.com\/Recasados) para que continue a partilha, o desabafo, o poss\u00edvel acompanhamento por casais cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>No encontro da noite de 29 de setembro ficou patente que o casamento, ou antes, a uni\u00e3o entre homem e mulher, na sociedade portuguesa, sofreu uma grande transforma\u00e7\u00e3o. Para referir apenas alguns dos n\u00fameros que Teresa Borges apresentou, com base nos dados do Instituto Nacional de Estat\u00edstica, veja-se que entre 1995 e 2011, os casamentos de natureza cat\u00f3lica passaram de 60% (do total de casamentos) para 30%. No mesmo per\u00edodo, ao n\u00famero absoluto de casamentos em que ambos eram solteiros caiu de 58 mil para 25 mil (n\u00fameros aproximados) enquanto a percentagem de casamentos em que um dos nubentes j\u00e1 fora casado mais que duplicou, de 12% para 28%, e o n\u00famero de pessoas em uni\u00e3o de facto praticamente duplicou para as mais de 300 mil em 2011.<\/p>\n<p>Como v\u00ea a Igreja esta realidade de haver cada vez mais cat\u00f3licos recasados? \u201cAbandonados, n\u00e3o!\u201d, respondeu D. Ant\u00f3nio Marcelino \u00e0 quest\u00e3o colocada pelo moderador, o professor Carlos Borrego. \u201cA Igreja abre hoje caminhos de compreens\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o aos recasados\u201d, explicou, mas houve um tempo em que foram \u201cmaltratados\u201d, \u201cquando n\u00e3o tinham funeral religioso\u201d e lhes era negada a visita pascal, por exemplo. A ideia era que \u201cdeviam ter san\u00e7\u00f5es\u201d. Desde h\u00e1 algumas d\u00e9cadas \u2013 a grande refer\u00eancia \u00e9 sempre o documento \u201cFamiliaris Consortio\u201d, sobre a fam\u00edlia crist\u00e3, de Jo\u00e3o Paulo II, em 1981, ap\u00f3s um s\u00ednodo sobre a fam\u00edlia em que D. Ant\u00f3nio Marcelino tamb\u00e9m participou \u2013 reafirma-se a disciplina de n\u00e3o dar a comunh\u00e3o eucar\u00edstica aos recasados (os divorciados que n\u00e3o partem para nova uni\u00e3o podem receb\u00ea-la), devido ao car\u00e1cter indissol\u00favel do sacramento do matrim\u00f3nio, ao mesmo tempo que se insiste no acolhimento destas pessoas nas estruturas, servi\u00e7os e celebra\u00e7\u00f5es da Igreja. \u201cTemos na Igreja muita gente divorciada nos servi\u00e7os pastorais\u201d, disse o bispo em\u00e9rito, recusando o afunilamento do problema na quest\u00e3o da comunh\u00e3o, \u201ccomo se a gra\u00e7a de Deus pudesse atuar s\u00f3 pelo sacramento [da comunh\u00e3o]\u201d. E acrescentou: \u201cSe reduzirmos tudo aos sacramentos, grande parte da Igreja n\u00e3o se pode salvar. \u00abA caridade apaga a multid\u00e3o dos pecados\u00bb, diz a B\u00edblia\u201d.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f3nio Marcelino afirmou que \u201cmuita coisa mudou\u201d, mas deu a entender que gostaria que mudasse ainda mais ao afirmar que o problema estava para ser discutido quando Jo\u00e3o Paulo II morreu e ao referir o exemplo dos crist\u00e3os ortodoxos, que tamb\u00e9m defendem a indissolubilidade do casamento: \u201cQuando morre o casamento, passados dois anos da separa\u00e7\u00e3o, pode-se fazer um segundo casamento\u201d, porque \u201csobre a lei deve perdurar a miseric\u00f3rdia divina\u201d. Na sua interven\u00e7\u00e3o, defendeu, como h\u00e1 muito tem dito, que \u201cmais de 50% dos casamentos s\u00e3o nulos [ou seja, n\u00e3o chegam a acontecer] porque as pessoas n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia do que est\u00e3o a fazer\u201d, o que est\u00e1 patente na t\u00edpica afirma\u00e7\u00e3o dos jovens casais: \u201cSe n\u00e3o der, vamos para outra\u201d. Por outro lado, afirmou que \u201cn\u00e3o \u00e9 s\u00e9ria\u201d a resposta daqueles que dizem aos recasados \u201cse ningu\u00e9m te conhece, comunga\u201d, ao mesmo tempo que real\u00e7ou o casamento como uma \u201cvoca\u00e7\u00e3o pessoal\u201d em que \u201ca fidelidade \u00e9 o fundamento do amor\u201d \u2013 e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Observou ainda que na celebra\u00e7\u00e3o do casamento as prioridades est\u00e3o desfocadas quando \u201cse preparam os fot\u00f3grafos, marca-se o restaurante\u201d, mas \u201cesquece-se a celebra\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cignora-se que a alian\u00e7a que se usa \u00e9 sinal de uni\u00e3o e fidelidade\u201d.<\/p>\n<p>No final do encontro, antes de os casais organizadores revelarem que poder\u00e3o surgir no \u201cfuturo pr\u00f3ximo\u201d outras a\u00e7\u00f5es do g\u00e9nero, D. Ant\u00f3nio Francisco agradeceu \u201ca ajuda na reflex\u00e3o sobre esta realidade dolorosa\u201d, afirmou a necessidade de \u201cacolher na diferen\u00e7a\u201d e real\u00e7ou que \u201cvale a pena falar aos jovens da import\u00e2ncia da fam\u00edlia e do amor\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, na \u201cp\u00e1gina dos recasados\u201d do Facebook, por onde passou a divulga\u00e7\u00e3o do encontro, come\u00e7aram a surgir coment\u00e1rios sobre a iniciativa. Num deles, P.e Georgino Rocha escreveu o que se afigura como um resumo desta quest\u00e3o na Igreja cat\u00f3lica e que certamente pode qualificar n\u00e3o s\u00f3 ao encontro como a pastoral diocesana dos recasados: \u201cMuito se andou, mas o caminho est\u00e1 ainda no in\u00edcio\u201d.<\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n<p>Dores e desabafos<\/p>\n<p>O per\u00edodo de interpela\u00e7\u00f5es da assembleia foi concorrido. Mais tempo houvesse, mais partilhas e perguntas teriam surgido. Registam-se algumas. Uma senhora, leitora na sua par\u00f3quia, divorciada h\u00e1 18 anos devido a viol\u00eancia dom\u00e9stica, partilhou a dor por n\u00e3o comungar e por ainda lhe apontarem que \u00e9 divorciada: \u201cQueria sentir-me bem na comunidade, mas dizem-me que n\u00e3o sou igual\u201d.<\/p>\n<p>Um professor universit\u00e1rio, remetendo para os alunos com que lida e para a sua filha, olhada com desconfian\u00e7a por casar pela Igreja, defendeu que hoje n\u00e3o \u00e9 o div\u00f3rcio\/recasamento que a Igreja deve discutir mas o casamento em si, que \u00e9 \u201cuma absoluta raridade\u201d.<\/p>\n<p>Uma senhora, tamb\u00e9m professora, \u201climpa de m\u00e1goas\u201d para dar o seu testemunho, falou da dificuldade em ver o seu primeiro casamento anulado (demorou nove anos) e do afastamento de uma equipa de casais cat\u00f3licos e da comunh\u00e3o, \u201cquando mais precisava de comungar\u201d.<\/p>\n<p>Um leigo confessou-se algo incomodado, nesta quest\u00e3o, com \u201ca simpatia dos papas, a solicitude da Igreja\u2026 unicamente\u201d. \u201cIsso n\u00e3o chega\u201d, rematou. \u201cPassem aos atos\u201d.<\/p>\n<p>Um padre chamou a aten\u00e7\u00e3o para a prepara\u00e7\u00e3o para o casamento, e questionou a forma\u00e7\u00e3o dos professores de Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa Cat\u00f3lica para o efeito, enquanto um jornalista, regressado \u00e0 pr\u00e1tica dominical na segunda uni\u00e3o, falou da realidade timorense, que acompanhou, onde muitas pessoas, unidas mas sem casamento cat\u00f3lico, s\u00e3o ass\u00edduas \u00e0 comunh\u00e3o, com o natural conhecimento dos respons\u00e1veis das comunidades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o foi um debate. 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