{"id":20829,"date":"2012-09-06T10:45:00","date_gmt":"2012-09-06T10:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20829"},"modified":"2012-09-06T10:45:00","modified_gmt":"2012-09-06T10:45:00","slug":"carta-ao-orgao-da-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/carta-ao-orgao-da-se\/","title":{"rendered":"Carta ao \u00f3rg\u00e3o da S\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>DOMINGOS CERQUEIRA<\/p>\n<p>Meu caro \u00f3rg\u00e3o: tenho lido com muita aten\u00e7\u00e3o as tuas mensagens, que de h\u00e1 umas semanas atr\u00e1s tens feito publicar no \u201cDi\u00e1logo\u201d (folha dominical da par\u00f3quia da Gl\u00f3ria, Aveiro). Contas nessas tuas mensagens a tua ainda curta vida, desde a tua concep\u00e7\u00e3o. Dizes que o teu ADN garante que ser\u00e1s um ser \u201calto, elegante e moderno\u201d. Passando ao lado desta tua manifesta\u00e7\u00e3o de vaidade pelos teus atributos, desejo de todo o cora\u00e7\u00e3o que esses atributos venham a estar perfeitamente bem enquadrados com a nossa S\u00e9, que tu ainda n\u00e3o conheces, mas que dentro em breve far\u00e1 parte de toda a tua vida. Dizem j\u00e1, por certo algumas m\u00e1s-l\u00ednguas, que as tuas linhas arquitect\u00f3nicas s\u00e3o minimalistas? Por certo \u00e9 porque ainda n\u00e3o tiveram a oportunidade de te conhecer. Penso que j\u00e1 ter\u00e1s tirado alguma fotografia, quanto mais n\u00e3o seja para os documentos que te permitir\u00e3o passar as fronteiras, desde a Hungria at\u00e9 Aveiro. Se tiveres j\u00e1 alguma fotografia, nem que seja de bilhete de identidade, manda-a para c\u00e1, que algu\u00e9m se encarregar\u00e1 de a mandar ampliar, para permitir que todos n\u00f3s, os paroquianos da Gl\u00f3ria, possamos come\u00e7ar a admirar as tuas linhas modernas. Dizes que adorarias que gostassem de ti. N\u00e3o sei se j\u00e1 te chegaram aos ouvidos algumas vozes mais discordantes com o teu nascimento. \u00c9 verdade, mas foi apenas o resultado de muitos de n\u00f3s n\u00e3o estarmos a contar com este nascimento n\u00e3o programado, ainda por cima numa altura em que por estas terras alguns paroquianos vivem com muitas dificuldades. Mas n\u00f3s, crist\u00e3os, estamos habituados a receber os filhos \tque Deus nos quiser dar. E se no cora\u00e7\u00e3o de alguns algumas d\u00favidas existiram, penso que j\u00e1 todos ansiamos pelo teu nascimento. E tamb\u00e9m eu adoraria vir a gostar de ti. E tamb\u00e9m eu espero vir a adorar, atrav\u00e9s da tua voz, o Deus a quem todos n\u00f3s queremos, cada vez mais, adorar mais e melhor. N\u00e3o te posso prometer que irei cantar, quando tu cantares. \u00c9 que canto t\u00e3o mal que at\u00e9 tenho vergonha de distrair as pessoas se o tentasse fazer. Mas ajuda-me a sentir muito mais perto de Deus, sempre que tenho a felicidade de ouvir os sons de um qualquer irm\u00e3o teu, ao ser embalado por quem \u00e9 capaz de p\u00f4r as suas cordas vocais a funcionar. Espero um dia poder passar na nossa S\u00e9, que ser\u00e1 a tua casa, momentos de grande intimidade com Deus, com a tua ajuda. Dizes que a \u201cmadeira a usar no teu esqueleto est\u00e1 h\u00e1 anos a curar, ao sol e \u00e0 chuva, \u00e0 neve e ao frio\u201d. V\u00ea l\u00e1 se tanta intemp\u00e9rie n\u00e3o te fa\u00e7a mal, n\u00e3o v\u00e1s tu chegar a Aveiro rouco, n\u00e3o v\u00e1s tu sentir a falta, em Aveiro, de algu\u00e9m que afine a tua voz, para que aconte\u00e7a \u201ca todos poderes servir proporcionando momentos de beleza e encanto\u201d. Dizes que j\u00e1 bateste \u00e0 porta de algumas pessoas, para ajudarem ao teu nascimento. J\u00e1 agora, seria bom que ao lado da tua fotografia a afixar \u00e0 porta do teu futuro quarto, da tua casa que ser\u00e1 a S\u00e9 de Aveiro, aqueles que ter\u00e3o de pagar o biber\u00e3o e o leite para te amamentar, e no futuro o teu p\u00e3o de cada dia, saibam quanto ter\u00e3o de amealhar, para te verem a crescer, s\u00e3o de corpo e alma, para deleite de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Dizes saber de pessoas que j\u00e1 gostavam de ti, mesmo antes de teres nascido. Por certo tiveram a felicidade de ver alguma ecografia do ventre da tua m\u00e3e. Mas n\u00f3s, a generalidade dos teus futuros paroquianos, n\u00e3o tivemos essa sorte. N\u00e3o seria bom que te fosses dando a conhecer, para que cada vez mais pessoas v\u00e3o gostando de ti? J\u00e1 agora quero-te dizer, que fiquei altamente preocupado com o teu desabafo de que alguns dos teus irm\u00e3os de ra\u00e7a, que antes de ti vieram para outras terras de Aveiro, n\u00e3o tiveram um final feliz e hoje ser\u00e3o j\u00e1 considerados como seres in\u00fateis. Espero com toda a sinceridade que os amigos que ajudaram a dar-te \u00e0 luz, nessas maternidades long\u00ednquas, criem condi\u00e7\u00f5es para que na S\u00e9 de Aveiro possas ter uma vida feliz, e nunca te sintas um objecto in\u00fatil, encostado a um canto e s\u00f3 a servir de estorvo, como, e como afirmas, j\u00e1 acontece com alguns da tua ra\u00e7a, que dentro em pouco ser\u00e3o teus vizinhos. Espero e acredito que os teus pais tenham acautelado cuidadosamente o teu futuro, para que contigo n\u00e3o venha a acontecer nada de semelhante.<\/p>\n<p>Olha: desejo-te as maiores felicidades. \u00c9 tradi\u00e7\u00e3o de Aveiro saber receber os que para aqui v\u00eam para conseguir o p\u00e3o nosso de cada dia. H\u00e1 muitas centenas de aveirenses que n\u00e3o nasceram por c\u00e1. Mas, pela maneira af\u00e1vel como foram recebidos, em pouco tempo se sentiram t\u00e3o aveirenses como aqueles que viram a luz \u00e0 sombra das igrejas de Aveiro, e os primeiros sons que ouviram foi o som dos sinos das nossas torres. N\u00e3o te desejo mais do que isso: que, assim que vires a luminosidade do nosso c\u00e9u e os canais da nossa ria, te sintas t\u00e3o aveirense como n\u00f3s, e porventura muito mais admirado do que qualquer um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>At\u00e9 um dia destes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOMINGOS CERQUEIRA Meu caro \u00f3rg\u00e3o: tenho lido com muita aten\u00e7\u00e3o as tuas mensagens, que de h\u00e1 umas semanas atr\u00e1s tens feito publicar no \u201cDi\u00e1logo\u201d (folha dominical da par\u00f3quia da Gl\u00f3ria, Aveiro). Contas nessas tuas mensagens a tua ainda curta vida, desde a tua concep\u00e7\u00e3o. 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