{"id":20952,"date":"2012-09-26T16:59:00","date_gmt":"2012-09-26T16:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=20952"},"modified":"2012-09-26T16:59:00","modified_gmt":"2012-09-26T16:59:00","slug":"manifesto-por-uma-humanocracia-crista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/manifesto-por-uma-humanocracia-crista\/","title":{"rendered":"Manifesto por uma humanocracia crist\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>Fim da hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria est\u00e1 convencida de que chegou ao seu termo. Dizem! Ali\u00e1s, os pr\u00f3prios que o disseram j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o certos disso, mas a ideia continua a fazer escola. Na verdade, depois de Fukuyama, autor de um c\u00e9lebre livro que recebeu como t\u00edtulo \u00abo fim da hist\u00f3ria\u00bb, muitos s\u00e3o os que defendem que atingimos o modelo \u00faltimo de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade pol\u00edtica e da economia. Esta ideia resulta de convic\u00e7\u00e3o de que, ap\u00f3s a queda das ideologias e dos regimes totalit\u00e1rios, j\u00e1 n\u00e3o restar\u00e1 sen\u00e3o a democracia e o capitalismo. <\/p>\n<p>N\u00e3o estou certo disto. A hist\u00f3ria fez-se e define-se pela efemeridade dos sistemas que, ou se desenvolvem ou s\u00e3o substitu\u00eddos por outros sistemas. E este n\u00e3o tem raz\u00e3o para ser diferente. Sucumbir\u00e1 como os demais e ver\u00e1 surgirem dos seus escombros novas respostas e modelos de organiza\u00e7\u00e3o. Resta saber se ser\u00e1 fazendo dos escombros pe\u00e7as a contemplar ou poeira a ocultar.<\/p>\n<p>Ora, sente-se no ar a emerg\u00eancia de novos modelos, pois os sinais vertiginosos de que o modelo vigente possa come\u00e7ar a sucumbir podem passar despercebidos, mas deixam o seu perfume espalhar-se. Na verdade, n\u00e3o s\u00e3o de hoje as palavras de Jo\u00e3o Paulo II que alertava, na sua enc\u00edclica de 1991, \u00abCentesimus Annus\u00bb, para os riscos da absolutiza\u00e7\u00e3o do modelo capitalista, sendo que sucumbira, com a queda do Muro de Berlim, aquele que se pensava ser o \u00fanico modelo rival. <\/p>\n<p>Muitos s\u00e3o os ind\u00edcios que parecem dar raz\u00e3o a este alerta do Papa polaco e que nos fazem sentir a impress\u00e3o de um certo retorno \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es vigentes por altura dos primeiros documentos eclesiais sobre mat\u00e9rias sociais. Na realidade, em finais do s\u00e9culo XIX, a concentra\u00e7\u00e3o da riqueza nas m\u00e3os de poucos, a desvaloriza\u00e7\u00e3o da pessoa no contexto da economia, o silenciamento das hist\u00f3rias pessoais propiciaram a emerg\u00eancia de respostas que configuraram modelos alternativos.<\/p>\n<p>Modelos ef\u00e9meros<\/p>\n<p>Neste contexto, o cristianismo procurou envolver-se e n\u00e3o ficar alheio aos desafios que se afiguravam diante de si. <\/p>\n<p>Ontem, como hoje, o Cristianismo \u00e9 chamado a encontrar respostas e a n\u00e3o bastar-se com modelos sempre ef\u00e9meros, erroneamente tomados como certos e definitivos.<\/p>\n<p>Em verdade, se n\u00e3o o souber fazer, ser\u00e1 mesmo ultrapassado pela hist\u00f3ria. Importa, por\u00e9m, sublinhar que nenhum modelo ser\u00e1, tamb\u00e9m ele, capaz de configurar, de forma definitiva, o que seja o pensamento do cristianismo sobre as sociedades. A sua leitura escapa sempre \u00e0s tentativas de aprisionamento. Ali\u00e1s, o pressuposto de todo o modelo que se pretenda devedor das intui\u00e7\u00f5es crist\u00e3s n\u00e3o poder\u00e1 sen\u00e3o ter este dado como premissa paradoxalmente absoluta: a sua efemeridade, pois a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 a eternidade.<\/p>\n<p>Neste quadro, exige-se, antes de mais, uma resposta que saiba ultrapassar as solu\u00e7\u00f5es para um suposto dilema entre Estado e Indiv\u00edduo, como se n\u00e3o restasse outra hip\u00f3tese. Na verdade, o pressuposto deste dilema esquece o ponto de partida de toda a resposta crist\u00e3: o fim de toda a actividade pol\u00edtica e econ\u00f3mica n\u00e3o pode ser sen\u00e3o a pessoa e o fim da pessoa \u00e9 a eternidade. Este ter\u00e1 de ser o lema da \u00abhumanocracia crist\u00e3\u00bb do qual decorrem consequ\u00eancias enormes. A maior delas \u00e9 a certeza de que Estado, institui\u00e7\u00f5es, bens, etc., s\u00e3o sempre meios e, por isso, nunca fins em si mesmos. Tal postura coloca uma pol\u00edtica de matriz crist\u00e3 numa l\u00f3gica de \u00abhumanocracia\u00bb.<\/p>\n<p>A pessoa no centro <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o povo, an\u00f3nimo e desconhecido, reduzido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de eleitor ou mero cidad\u00e3o, quem (parece que) governa, mas sim a pessoa humana, definida pela sua identidade e pela sua hist\u00f3ria. Ela \u00e9 mem\u00f3ria e projecto. O registo dever\u00e1 ser sempre o da prote\u00e7\u00e3o da pessoa, em todas as suas dimens\u00f5es, sabendo sempre que as institui\u00e7\u00f5es da sociedade (empresas, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, partidos, etc.) e o Estado n\u00e3o s\u00e3o fins em si. O seu papel \u00e9 o servi\u00e7o da pessoa humana. N\u00e3o uma entidade abstrata, sem ra\u00edzes, nem hist\u00f3ria. Este dado, aparentemente te\u00f3rico, neutro e in\u00f3cuo, exige uma posi\u00e7\u00e3o de compreens\u00e3o de que o que a pessoa \u00e9, nas suas buscas mais aut\u00eanticas e verdadeiras, deve ser respeitado. Tamb\u00e9m aqui se redefine o modo de fazer a pol\u00edtica que tenha em conta as viv\u00eancias p\u00fablicas e pessoais, coletivas e individuais, inaugurando uma justa laicidade, que n\u00e3o \u00e9 esquecimento das religi\u00f5es, mas s\u00e3o conviv\u00eancia e alian\u00e7a para um contributo comum. Que tenha, tamb\u00e9m, em linha de respeito, a constru\u00e7\u00e3o lenta, demorada do modelo de fam\u00edlia, de reconhecimento da dignidade da vida humana, seja na fragilidade do seu in\u00edcio, seja na debilidade do seu fim, e que n\u00e3o force abruptamente a transforma\u00e7\u00e3o dos modelos, em nome de ideologias da raz\u00e3o abstrata, incapaz de integrar o que lhe diz a raz\u00e3o hist\u00f3rica que \u00e9 sempre situada e protetora da vida. A raz\u00e3o abstrata, que idealiza o homem no vazio, convenceu muitos, por exemplo, de que \u00abser m\u00e3e\u00bb \u00e9 o mesmo que um homem \u00abfazer de m\u00e3e\u00bb. \u00c0 raz\u00e3o hist\u00f3rica n\u00e3o \u00e9 preciso muito para concluir qu\u00e3o imenso \u00e9 o abismo entre o \u00abser\u00bb e o \u00abparecer que \u00e9\u00bb. A mesma raz\u00e3o abstrata idealizou um homem sem dimens\u00e3o religiosa e espiritual, dimens\u00e3o que a raz\u00e3o hist\u00f3rica conclui ser imposs\u00edvel dissociar da constru\u00e7\u00e3o coletiva do humano.<\/p>\n<p>Liberdade <\/p>\n<p>e subsidiariedade<\/p>\n<p>Porque nem todos t\u00eam a mesma capacidade de crescer e progredir, de alcan\u00e7ar o sucesso e de o conservar, a op\u00e7\u00e3o dever\u00e1 sempre recair sobre os mais desfavorecidos, seja econ\u00f3mica, seja socialmente, n\u00e3o em nome do Estado e contra quem quer que seja, mas em favor de todos, pois o pressuposto da matriz crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 o conflito, pressupondo uma liberdade que acaba onde come\u00e7a a do outro, mas sim uma liberdade que aumenta com o aumento da liberdade do outro. O alicerce principal que dever\u00e1 sempre estruturar esta rela\u00e7\u00e3o \u00e9 o da subsidiariedade: o que pode fazer uma estrutura ou entidade mais pr\u00f3xima das pessoas n\u00e3o dever\u00e1 ser assumido pelas entidades superiores. Tal pressuposto combater\u00e1 todos os monop\u00f3lios, sejam de Estado sejam empresariais, e acentuar\u00e1, contra todo o anonimato, a organiza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de proximidade.<\/p>\n<p>Uma tal matriz n\u00e3o pode sustentar-se sobre a injusti\u00e7a, sobre a mentira, sobre a afirma\u00e7\u00e3o que tem a dura\u00e7\u00e3o da expectativa de atingir o poder. Seja nas rela\u00e7\u00f5es internas a uma na\u00e7\u00e3o, seja na rela\u00e7\u00e3o entre na\u00e7\u00f5es. A mentira, a falta de verdade mina a estrutura pol\u00edtica, as sociedades, as rela\u00e7\u00f5es interpessoais e conduz, progressivamente, a sistemas de poder que t\u00eam de perpetuar-se pela viol\u00eancia e pela lei da for\u00e7a. Para consubstanciar tal pressuposto, a \u00abhumanocracia crist\u00e3\u00bb dever\u00e1 sustentar-se no pressuposto de que o poder tende a corromper, pelo que dever\u00e1 existir a disponibilidade permanente para abandonar o seu exerc\u00edcio se tal for a resposta mais justa e mais verdadeira.<\/p>\n<p>Novos partidos?<\/p>\n<p>Dever\u00e3o tais linhas de configura\u00e7\u00e3o de um outro modo de agir pol\u00edtico e econ\u00f3mico originar movimentos concretos e estruturados, paralelos aos existentes? A tenta\u00e7\u00e3o de responder afirmativamente n\u00e3o \u00e9 pequena. Na verdade, ao configurarem-se em partidos, as matrizes dos sistemas enunciados deixam sempre de fora algo de importante. Bem certo que a pol\u00edtica \u00e9 a arte dos poss\u00edveis. Mas, ser\u00e3o os poss\u00edveis t\u00e3o pouco? N\u00e3o \u00e9 verdade que, ou temos partidos que s\u00e3o capazes de assegurar o respeito pela autoridade, pelo rigor, pela exig\u00eancia, mas que tendem a proteger os mais fortes, esquecendo a op\u00e7\u00e3o pelos mais pobres, ou, ent\u00e3o, temos partidos que, pretendendo-se protetores dos mais fr\u00e1geis, idolatram o Estado como se ele fosse um fim em si mesmo e que sempre se pretendem numa din\u00e2mica de revolu\u00e7\u00e3o que afoga os modelos historicamente conquistados? N\u00e3o \u00e9 verdade que ou temos partidos que falam de um desenvolvimento econ\u00f3mico a longo prazo, e que esquecem a justi\u00e7a imediata para com os mais d\u00e9beis, ou, ent\u00e3o, temos partidos que esgotam no imediato o cr\u00e9dito de que disp\u00f5em, impondo, num segundo momento, ditaduras que tentem perpetuar-se por fracasso do modelo? <\/p>\n<p>Se a hist\u00f3ria demonstrar que tais linhas cumprem a sua fun\u00e7\u00e3o enquanto horizontes de ideal, configur\u00e1-las em movimentos \u00e9 tra\u00ed-las; mas se o grito dos mais d\u00e9beis o exigir, os bra\u00e7os n\u00e3o podem abandonar o arado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fim da hist\u00f3ria? A hist\u00f3ria est\u00e1 convencida de que chegou ao seu termo. Dizem! Ali\u00e1s, os pr\u00f3prios que o disseram j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o certos disso, mas a ideia continua a fazer escola. Na verdade, depois de Fukuyama, autor de um c\u00e9lebre livro que recebeu como t\u00edtulo \u00abo fim da hist\u00f3ria\u00bb, muitos s\u00e3o os que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-20952","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20952"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20952\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}