{"id":2107,"date":"2010-07-14T17:26:00","date_gmt":"2010-07-14T17:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2107"},"modified":"2010-07-14T17:26:00","modified_gmt":"2010-07-14T17:26:00","slug":"acordem-acordem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/acordem-acordem\/","title":{"rendered":"&#8220;Acordem! Acordem!&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Mem\u00f3ria <!--more--> Recorda\u00e7\u00e3o pessoal da \u201cManifesta\u00e7\u00e3o dos Crist\u00e3os\u201d em Aveiro, no dia 13 de Julho de 1975<\/p>\n<p>Completaram-se ontem trinta e cinco anos da chamada \u201cManifesta\u00e7\u00e3o dos Crist\u00e3os\u201d, que decorreu em Aveiro como afirma\u00e7\u00e3o popular em defesa da liberdade c\u00edvica de todos os homens e de todas as mulheres. Como \u00e9 sabido \u2013 e j\u00e1 pertence \u00e0s p\u00e1ginas da hist\u00f3ria nacional \u2013 em 25 de Abril de 1974 aconteceu a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o dos Cravos\u201d que, triunfando, pusera termo ao regime pol\u00edtico do \u201cEstado Novo\u201d. Contudo, a exalta\u00e7\u00e3o inicial, na alegria das liberdades alcan\u00e7adas, foi esmorecendo entre o povo, porque no horizonte levantava-se a amea\u00e7a de nuvens negras a pressagiar um per\u00edodo cruel de desrespeito pelos direitos humanos. Neste contexto, os \u00e2nimos andavam preocupados, tanto mais que se tinham verificado n\u00e3o s\u00f3 os c\u00e9lebres acontecimentos da \u201cmaioria silenciosa\u201d, em 28 de Setembro de 1974, que levou o general Ant\u00f3nio de Sp\u00ednola a demitir-se da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, como ainda a famosa \u201cinventona\u201d de 11 de Mar\u00e7o de 1975, que serviu de pretexto para as nacionaliza\u00e7\u00f5es radicais. Propalava-se, outrossim, em certos meios, que at\u00e9 nem seriam necess\u00e1rias elei\u00e7\u00f5es, porque a \u201cdemocracia\u201d estava garantida e porque se sabia antecipadamente o que o povo desejava. Isto mesmo quis confirmar o secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista numa certa entrevista \u00e0 conhecida jornalista italiana Oriana Fallaci. No Pa\u00eds vivia-se intensamente o \u201cprocesso revolucion\u00e1rio\u201d, n\u00e3o lhe faltando a luta de classes.<\/p>\n<p>No seu campo espec\u00edfico, os bispos portugueses n\u00e3o tinham ilus\u00f5es sobre o que estava a acontecer e o que se poderia seguir. Neste contexto, mostravam-se firmes e inflex\u00edveis na defesa dos direitos fundamentais da pessoa humana, nomeadamente do direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o livre e objectiva e do direito de a Igreja Cat\u00f3lica em Portugal continuar a possuir e a orientar a sua esta\u00e7\u00e3o emissora &#8211; a R\u00e1dio Renascen\u00e7a &#8211; que havia sido violentamente ocupada por for\u00e7as extremistas ou pr\u00f3 comunistas e alheias ao ideal religioso.<\/p>\n<p>No meio de toda esta confus\u00e3o, na tarde de 18 de Junho de 1975, numerosos manifestantes, com o apoio de grupos esquerdistas, propuseram-se a ir protestar contra o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Ant\u00f3nio Ribeiro, pela atitude \u201crevolucion\u00e1ria\u201d dos respons\u00e1veis da Igreja. Contudo, aconteceu que umas largas centenas de crist\u00e3os anteciparam-se e foram dizer ao seu bispo que estavam com ele e que o acompanhavam. Aqueles manifestantes, entretanto chegados, com actos agressivos e com algumas for\u00e7as pol\u00edticas a seu lado, levaram os cat\u00f3licos a refugiarem-se no pa\u00e7o patriarcal, donde, depois de identificados, acabariam por sair no meio de enxovalhos e perante a passividade das for\u00e7as da ordem. <\/p>\n<p>Tais factos tiveram o cond\u00e3o de acordar decididamente a generalidade dos portugueses para as realidades sociais da sua P\u00e1tria. Nestas circunst\u00e2ncias, em Aveiro, na tarde de 5 de Julho de 1975, um grupo muito reduzido de sacerdotes encontrou-se na casa episcopal para um mero desabafo com D. Manuel de Almeida Trindade que, al\u00e9m de ser bispo da Diocese de Aveiro, tamb\u00e9m era o presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa. Expuseram ao prelado a conversa tida apenas entre eles, de que haviam conclu\u00eddo n\u00e3o se poder continuar de bra\u00e7os cruzados, perante tantos vexames, injusti\u00e7as e atropelos. Dizendo-se simples porta-vozes das suas respectivas comunidades e do sentir generalizado de muita gente, abriram o seu cora\u00e7\u00e3o amargurado, com \u00e2nsias de defenderem a Igreja e a P\u00e1tria, t\u00e3o vilipendiadas. E manifestaram a D. Manuel o que tinham em vista: &#8211; Promover rapidamente na cidade de Aveiro uma manifesta\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os que, pondo de parte a sua filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, se quisessem congregar para demonstrar publicamente o seu apoio ao Episcopado.<\/p>\n<p>D. Manuel, antes de aquiescer a tal ideia, quis conhecer a opini\u00e3o dos p\u00e1rocos da Diocese. Era uma medida de prud\u00eancia. Ent\u00e3o, consultados secretamente os p\u00e1rocos, pessoa a pessoa, no dia 7 foi-lhe garantida a anu\u00eancia geral de todos eles. Sabia-se que em tais dilig\u00eancias n\u00e3o se poderia usar o telefone, que estava sob escuta, nem o correio, porque n\u00e3o havia a garantia da entrega de correspond\u00eancia ou de comunicados episcopais. <\/p>\n<p>Ouvi ent\u00e3o de D. Manuel a refer\u00eancia a um di\u00e1logo informal que tivera com alguns bispos, nomeadamente com o cardeal Karol Wojtyla, homem de ex\u00edmia intui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, arcebispo de Crac\u00f3via que, a partir de 1978, exerceu o papado com o nome de Jo\u00e3o Paulo II; a conversa dera-se no intervalo de uma sess\u00e3o de um dos \u00faltimos dias do S\u00ednodo dos Bispos, realizado em Roma desde 27 de Setembro at\u00e9 26 de Outubro de 1974 sobre a \u00abEvangeliza\u00e7\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo.\u00bb Em tom moderado, ele foi contando o que se estava a passar em Portugal, particularmente a partir dos finais de Setembro. Durante o di\u00e1logo, Wojtyla perguntou-lhe se em Portugal j\u00e1 se tinha propalado a not\u00edcia ou o boato de caix\u00f5es com armas; isto \u00e9, se os sectores n\u00e3o comunistas, ditos \u201creaccion\u00e1rios\u201d, n\u00e3o s\u00f3 j\u00e1 tinham sido acusados de conspirar contra a revolu\u00e7\u00e3o, sem qualquer respeito pelos mortos, transportando armas em caix\u00f5es. O nosso bispo \u2013 segundo lhe ouvi \u2013 respondeu afirmativamente. Perante esta informa\u00e7\u00e3o, o cardeal, que havia passado por semelhante experi\u00eancia na sua p\u00e1tria, disse-lhe em tom categ\u00f3rico: &#8211; \u00abV\u00e1 j\u00e1 para as ruas e para as pra\u00e7as, sem qualquer demora. Os cat\u00f3licos e os verdadeiros democratas t\u00eam de defender a sua liberdade.\u00bb<\/p>\n<p>H\u00e1 momentos decisivos na vida de qualquer pessoa ou de qualquer institui-\u00e7\u00e3o; este era um deles. Por isso, escreveu mais tarde D. Manuel: &#8211; \u00abCompetia-me a mim decidir. E decidi. Sim. Foi talvez o sim de maior repercuss\u00e3o que tomei durante os vinte e cinco anos em que estive \u00e0 frente da Diocese de Aveiro.\u00bb<\/p>\n<p>Deste modo, na tarde do dia 13 de Julho de 1975 (que era domingo), pela iniciativa e com a colabora\u00e7\u00e3o de sacerdotes e de leigos, concentraram-se na cidade muitas e muitas dezenas de milhares de pessoas, provenientes de todas as povoa\u00e7\u00f5es da Diocese&#8230; e mesmo de outras zonas lim\u00edtrofes. Chamou-se \u201cManifesta\u00e7\u00e3o dos Crist\u00e3os\u201d; mas, porque estava em jogo a defesa de direitos fundamentais, a ela aderiram homens e mulheres de diversos credos religiosos, ideologias pol\u00edticas e categorias sociais. A inolvid\u00e1vel jornada, que percorreu algumas art\u00e9rias com o maior civismo e numa atmosfera de descontrac\u00e7\u00e3o e del\u00edrio, pretendeu simplesmente apoiar o Episcopado na sua oportuna e corajosa determina\u00e7\u00e3o; acabou por terminar junto da catedral, envolvendo a imagem de Cristo no vetusto cruzeiro g\u00f3tico-manuelino.<\/p>\n<p>Por fim, houve tr\u00eas breves discursos. A concluir, D. Manuel de Almeida Trindade disse corajosamente \u00e0 multid\u00e3o, num oportuno improviso, que correu imediatamente o Pa\u00eds: &#8211; \u00abEstamos todos aqui, por direito pr\u00f3prio de cidad\u00e3os e de crist\u00e3os que sabem que t\u00eam o seu lugar nesta sociedade nova, que \u00e9 preciso construir. N\u00e3o podemos demitir-nos, n\u00e3o s\u00f3 quando se trata de reivindicar direitos nossos, [\u2026] mas tamb\u00e9m quando se trata de reivindicar direitos que pertencem aos homens como tais, como \u00e9 o direito \u00e0 verdade e \u00e0 liberdade de informa\u00e7\u00e3o. E sinto-me plenamente \u00e0 vontade, porque esta n\u00e3o \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. [\u2026] Existem crist\u00e3os em todas as Dioceses de Portugal. Oxal\u00e1 que o exemplo de Aveiro os desperte do Minho ao Algarve\u2026 e que se apresentem em massa a apoiar os seus bispos. Que os crist\u00e3os adormecidos acordem finalmente. Acordem! Acordem!\u00bb Referindo-se a esta jornada, D. Manuel escreveria mais tarde: &#8211; \u00abEntusiasmo e vibra\u00e7\u00e3o &#8211; foi o que senti nas minhas palavras. Entusiasmo e vibra\u00e7\u00e3o &#8211; foi o que tornei a sentir em todos, quando, de seguida, cantaram o hino nacional\u00bb.<\/p>\n<p>Desta forma, teve in\u00edcio em Aveiro uma s\u00e9rie de \u00abManifesta\u00e7\u00f5es de Crist\u00e3os\u00bb, \u00e0s quais se ficou a dever uma relevante quota-parte, de consider\u00e1veis resultados, para a estabiliza\u00e7\u00e3o social ap\u00f3s o \u201c25-de-Abril\u201d; as seguintes realizar-se-iam em diversas cidades do centro e do norte do Pa\u00eds: Viseu (20 de Julho); Bragan\u00e7a (27 de Julho); Coimbra (3 de Agosto); Lamego e Braga (10 de Agosto); e Leiria e Vila-Real (24 de Agosto).<\/p>\n<p>\u00abAcordem! Acordem!\u00bb &#8211; foi o brado do saudoso bispo de Aveiro que, embora proferido no ver\u00e3o de 1975, teima em ser continuamente actual. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mem\u00f3ria<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-2107","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2107","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2107"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2107\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}