{"id":21077,"date":"2012-10-03T17:10:00","date_gmt":"2012-10-03T17:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21077"},"modified":"2012-10-03T17:10:00","modified_gmt":"2012-10-03T17:10:00","slug":"auschwitz-o-triunfo-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/auschwitz-o-triunfo-do-amor\/","title":{"rendered":"Auschwitz, o triunfo do Amor"},"content":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de Jacob &#8211; 123 <!--more--> Auschwitz \u00e9 o nome alem\u00e3o de uma povoa\u00e7\u00e3o polaca que se chama Oswiecim. Nesse lugar, os polacos, por volta de 1941, tiveram de abandonar as suas casas devido \u00e0 invas\u00e3o alem\u00e3 e construir um campo de concentra\u00e7\u00e3o alem\u00e3o em terra polaca, que se destinava ao exterm\u00ednio programado dos judeus, ciganos, Testemunhas de Jeov\u00e1, homossexuais, muitos crist\u00e3os e pol\u00edticos, doentes mentais\u2026 Grande parte eram judeus, provavelmente mais de um milh\u00e3o, fossem de f\u00e9 judaica ou n\u00e3o. Ali morreram milhares de judeo-crist\u00e3os como Edith Stein, que \u00e9 Santa Teresa Benedita da Cruz.<\/p>\n<p>O campo n\u00e3o era s\u00f3 um. Eram tr\u00eas. O Auschwitz 1, que tinha sido um quartel de tijolos vermelhos, e onde morreram mais homens, pol\u00edticos, padres, como S. Maximiliano Maria Kolbe. O campo Auschwitz-Birkenau, famoso pelo seu portal, imortalizado nos filmes de cinema, e para onde se dirigiam comboios de gado carregados de fam\u00edlias, presas pelo \u00fanico crime de existirem e serem de origem judaica,  tiradas dos seus lares, de v\u00e1rios pa\u00edses da Europa, como Fran\u00e7a, Holanda, It\u00e1lia, Alemanha, Hungria, \u00c1ustria\u2026 A\u00ed se desenvolveu a limpeza da ra\u00e7a, como diziam os seguidores de Hitler, com a inven\u00e7\u00e3o terr\u00edvel das c\u00e2maras de g\u00e1s, onde morriam grupos inumer\u00e1veis de pessoas de todas as idades, em simult\u00e2neo, em quatro quartos da morte.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem pretenda negar a exist\u00eancia, mas a evid\u00eancia est\u00e1 ali e bem documentada pela organiza\u00e7\u00e3o Allgemeine-SS que era t\u00e3o monstruosa como o monstro que servia. A crueldade humana era requintada. N\u00e3o h\u00e1 palavras suficientes para descrever o que ali se viveu.<\/p>\n<p>O campo Auschwitz 3 era a f\u00e1brica anexa, onde a m\u00e3o de obra era usada para a guerra ou os despojos dos assassinados eram usados para fertilizante\u2026<\/p>\n<p>Vou l\u00e1 todos os anos. Gosto de entrar naquele santu\u00e1rio da dor e andar pelos cantos daquele mundo que vive da mem\u00f3ria e da l\u00e1grima. Gosto de tocar as pedras da rampa da sele\u00e7\u00e3o e chorar os mortos juntos aos monumentos espalhados pelo campo. Gosto de ver as pessoas curiosas em sil\u00eancio, apesar de serem milhares, e a sua rea\u00e7\u00e3o diante do horror que se pode tocar, ali, ainda hoje. O respeito impera! Gosto de deixar a minha pedrinha de homenagem, como fazem os judeus, e desfiar por ali o ter\u00e7o do ros\u00e1rio como fizeram tantos padres que ali morreram, tantos crist\u00e3os. No carregamento de Edith Stein, o comboio levava da Holanda quase mil crist\u00e3os, entre leigos, padres e freiras, que as testemunhas, como Etty Hillesum, que ali tamb\u00e9m morreu, diziam ver rezar seus ter\u00e7os em grupo ou a s\u00f3s\u2026<\/p>\n<p>Mas, o que gosto mais de fazer ali, naquele lugar visitado pelos \u00faltimos papas, \u00e9 meditar no triunfo do Amor. O \u00f3dio estava por toda a parte nos gritos dos guardas, homens e mulheres da Gestapo. Mas, muitos sobreviventes contam que, no meio de toda aquela confus\u00e3o, no meio de esperas de dias pela vez de entrar na c\u00e2mara de g\u00e1s, os gestos de amor multiplicavam-se, vindos de imensos an\u00f3nimos que ali deixaram suas cinzas: ora a rapariguinha que ajudava a velhinha a descer do comboio e a abra\u00e7ava contra o seu peito para que n\u00e3o tivesse medo, ela com medo tamb\u00e9m, ora aquele cavalheiro que ajudava a senhora carregada de filhos a levar um ou outro beb\u00e9 no caminho para a morte, com palavras de conforto que ele tamb\u00e9m precisava de ouvir, ora o sorriso para a crian\u00e7a assustada com os gritos e o latir dos c\u00e3es, ou aquele que tirava o seu \u00fanico casaco para que o seu colega da fila da morte n\u00e3o sentisse tanto frio com a neve que ca\u00eda, ou a car\u00edcia suave de imensas pessoas para as aconchegar na sua dor\u2026<\/p>\n<p>Os gestos de amor eram impercet\u00edveis, mas houve quem os registasse e nos falasse deles porque eram inumer\u00e1veis, imensos, di\u00e1rios e edificantes\u2026 Era a resposta de cora\u00e7\u00f5es nobres e maravilhosos que n\u00e3o se deixaram endurecer diante da crueldade e que responderam com o sorriso de Deus, onde o dem\u00f3nio fazia a sua festa. Era o triunfo do Amor na maioria dos cora\u00e7\u00f5es. Muitos viviam na luta por sobreviver, claro, sobretudo os selecionados para trabalhos for\u00e7ados na tal f\u00e1brica, mas o Amor ali era maior do que a Morte. E quando piso Auschwitz ou\u00e7o a voz do Pai a dizer para aqueles milhares de pessoas que acabamos por sentir nossas: Pronto, j\u00e1 passou, entra na alegria do teu Senhor. E embora muitos se revoltem com a ideia de ter sido poss\u00edvel aquilo, quem ali vai para rezar e meditar sai reconfortado, pois onde o dem\u00f3nio criou o seu deserto, o Deus que n\u00e3o abandona o seu Povo cultivou o seu o\u00e1sis, nos gestos nobres e fortes de quem acreditava no triunfo do Amor.<\/p>\n<p>Vitor Espadilha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de Jacob &#8211; 123<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-21077","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21077","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21077"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21077\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21077"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21077"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21077"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}