{"id":21137,"date":"2012-10-31T17:00:00","date_gmt":"2012-10-31T17:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21137"},"modified":"2012-10-31T17:00:00","modified_gmt":"2012-10-31T17:00:00","slug":"a-fe-crista-esta-sob-suspeita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-fe-crista-esta-sob-suspeita\/","title":{"rendered":"A f\u00e9 crist\u00e3 est\u00e1 sob suspeita?"},"content":{"rendered":"<p>Ano da F\u00e9 &#8211; Tempo oportuno ou adiado? <!--more--> A suspeita que os c\u00e9lebres mestres, Nietzsche, Freud e Marx, lan\u00e7aram sobre a f\u00e9 j\u00e1 se desvaneceu? E porque foi t\u00e3o profunda que, mesmo decorrido mais de um s\u00e9culo sobre a sua descida, qual neblina silenciosa, ainda n\u00e3o resplandece o c\u00e9u azul sobre a f\u00e9 crist\u00e3? Ou, at\u00e9, em muitos momentos, parece, mesmo, que se projectou sobre a neblina uma qualquer imagem hologr\u00e1fica que ilude estar-se perante um c\u00e9u verdadeiro? Porque continua a temer-se o encontro com os que perguntam pelas raz\u00f5es da nossa f\u00e9? Porque continua a sentir-se a impress\u00e3o de que h\u00e1 medo de perguntar pelos desafios efetivos que o encontro com a cultura contempor\u00e2nea coloca \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3? <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 esta a atitude que preconiza Bento XVI e que lhe assistir\u00e1, seguramente, \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o para um ano da f\u00e9. Provam-no os seus escritos, ao longo de mais de cinquenta anos de reflex\u00e3o (\u00e9, no m\u00ednimo surpreendente, por exemplo, o alcance do seu pensamento, na sua recuperada \u00abIntrodu\u00e7\u00e3o ao Cristianismo\u00bb, onde n\u00e3o se teme, por exemplo, integrar as implica\u00e7\u00f5es de uma adequada compreens\u00e3o evolucionista na pr\u00f3pria reflex\u00e3o sobre o homem e o seu encaminhamento para Deus). <\/p>\n<p>Julgando, por isso, fazer justi\u00e7a a este desiderato profundo de renovar, em cada momento, sem medo, &#8211; t\u00e3o frequente \u00e9 o \u00abn\u00e3o temais\u00bb nos evangelhos! \u2013 as raz\u00f5es para a f\u00e9, \u00e9, seguramente, oportuno ouvir, de novo, as mais acutilantes cr\u00edticas que a suspeita (a Paul Ricoeur se deve o cognome de \u00abmestres da suspeita\u00bb) tem lan\u00e7ado sobre a f\u00e9 e que urge saber ouvir e perceber o alcance nela escondido. N\u00e3o para colocar a f\u00e9 em atitude de apologia, regressando a um tipo de discurso que favoreceu a emerg\u00eancia da suspeita, por se fechar num c\u00edrculo auto-justificativo, mas sim para distinguir o que \u00e9 essencial e acidental nessa cr\u00edtica. Em muitos casos, a cr\u00edtica enuncia-se sobre aspectos perif\u00e9ricos, que contribuem para ridicularizar o \u00abdep\u00f3sito da f\u00e9\u00bb, seja adequada, seja inadequadamente. A distin\u00e7\u00e3o entre o essencial e o acess\u00f3rio, crit\u00e9rio t\u00e3o claramente definido na \u201cUnitatis Redintegratio\u201d como condi\u00e7\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o do ecumenismo, continua a ser assumido de forma titubeante.<\/p>\n<p>Mas regressemos ao ponto em que nos prop\u00fanhamos recolher as mais acutilantes cr\u00edticas formuladas \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XIX, envolvido no seu optimismo antropol\u00f3gico e cient\u00edfico, que confiava num progresso ilimitado e, mesmo, infinito, olhou para a f\u00e9 como o resultado de uma proje\u00e7\u00e3o do desejo humano. No dizer de Feuerbach, a teologia deveria ser reduzida a antropologia, pois o que se dizia de Deus mais n\u00e3o era do que a express\u00e3o do que se desejava que o homem fosse. Este ponto de partida foi assumindo diversas configura\u00e7\u00f5es e matizes. Formulou-se como afirma\u00e7\u00e3o de que a f\u00e9 contribu\u00eda para a aliena\u00e7\u00e3o do homem \u2013 o homem transferia para Deus a sua pr\u00f3pria natureza \u2013 ou a f\u00e9 religiosa mais n\u00e3o era do que o \u00f3pio do povo, contribuindo para o distrair dos reais problemas que uma sociedade intrinsecamente mal estruturada favorecia. <\/p>\n<p>A pertin\u00eancia desta cr\u00edtica continua hoje a merecer aten\u00e7\u00e3o. Deve continuar-se, ainda hoje, a perguntar se a f\u00e9 \u00e9 um mero sossego dos esp\u00edritos, o que, a s\u00ea-lo, trair\u00e1 a pr\u00f3pria natureza da f\u00e9, que deve contribuir para a inquieta\u00e7\u00e3o perante a perdi\u00e7\u00e3o humana. S\u00f3 perante o Santo, que \u00e9 Deus, \u00e9 poss\u00edvel ver quanto ainda o homem deve progredir. Mais do que um olhar para tr\u00e1s, a f\u00e9 s\u00f3 pode responder a esta cr\u00edtica afirmando-se como um olhar para diante, n\u00e3o para fugir do presente, mas para o fermentar. O erro esteve em perder-se esta tens\u00e3o: em esgotar o homem, ou no futuro, ou no passado. Hoje, esgota-se o ser humano no presente. E a f\u00e9 pode impedir, curiosamente, que o homem sofra uma nova \u00abvaga\u00bb de aliena\u00e7\u00e3o, abrindo-o \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0 esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma segunda cr\u00edtica \u00e9 a que qualifica a f\u00e9 como obscurantista. Curiosamente, na nossa sociedade portuguesa esta \u00e9 uma cr\u00edtica que vem, muitas vezes, dos que pertencem a sociedades secretas, pouco propensas \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o e clareza de procedimentos. Convenhamos, por\u00e9m, que a f\u00e9 crist\u00e3 deu, muitas vezes, o flanco, ao n\u00e3o ter sabido afirmar que a sua cr\u00edtica a certos modos de fazer ci\u00eancia n\u00e3o era uma revolta contra a ci\u00eancia, mas contra a constru\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia feita negando o homem (ci\u00eancia sem \u00e9tica) ou contra a ci\u00eancia absolutizada (que esquece que a ci\u00eancia \u00e9 competente a conhecer os seus objectos de investiga\u00e7\u00e3o e segundo os seus m\u00e9todos, mas incapaz de se estruturar como uma explica\u00e7\u00e3o \u00faltima para o sentido do mundo, do homem, da hist\u00f3ria\u2026). A hist\u00f3ria, apesar de casos mal contados como o de Galileu, demonstrar\u00e1, a quem estiver disposto a estud\u00e1-la sem preconceito, que \u00e9 imposs\u00edvel fazer uma hist\u00f3ria da ci\u00eancia sem contar com o contributo da f\u00e9 crist\u00e3. Leia-se, a t\u00edtulo de sugest\u00e3o, a obra \u00abO que a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental deve \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica\u00bb, de Thomas Woods, Jr.<\/p>\n<p>Uma terceira cr\u00edtica, decorrente da anterior, atribui \u00e0 f\u00e9 a causa do fundamentalismo e do fanatismo. <\/p>\n<p>Mais uma vez, a primeira respons\u00e1vel pela pertin\u00eancia da cr\u00edtica estar\u00e1 na pr\u00f3pria forma de viv\u00eancia da f\u00e9 que parece enclausurar-se em circuitos explicativos redundantes, receosos da cr\u00edtica. Contudo, esta n\u00e3o ser\u00e1, de todo justa se esquecer que n\u00e3o lhe \u00e9 espec\u00edfico o comportamento fan\u00e1tico ou fundamentalista. Ele emerge sempre que algu\u00e9m se sente inseguro e incapaz de explicar aos demais os motivos das suas escolhas. Assim acontece na pol\u00edtica, no futebol, nas manifesta\u00e7\u00f5es nacionalistas, etc. A religi\u00e3o e a f\u00e9 n\u00e3o s\u00e3o, de facto, a origem do fanatismo, antes um seu instrumento por parte dos menos esclarecidos. N\u00e3o \u00e9 a religi\u00e3o que \u00e9 fan\u00e1tica, mas sim alguns fan\u00e1ticos que se apropriam da religi\u00e3o para fortalecer as suas op\u00e7\u00f5es de poder. Assim, importa tomar consci\u00eancia de que, em vez de ser a origem do fundamentalismo e do fanatismo, pelo contr\u00e1rio, a f\u00e9 religiosa pode ser o seu maior ant\u00eddoto. Na verdade, s\u00f3 pode combater-se o fundamentalismo e o fanatismo revelando que tudo na vida terrena \u00e9 relativo perante o \u00fanico absoluto que \u00e9 Deus e que nunca \u00e9 conquistado pelo homem de forma definitiva. Esta consci\u00eancia s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com a f\u00e9. De outro modo, a hist\u00f3ria torna-se absoluta e perverte-se.<\/p>\n<p>Uma quarta cr\u00edtica teve em Nietzsche o seu grande patrono. Filho de pastor pietista, o poeta alem\u00e3o julgou ver na f\u00e9 crist\u00e3 a causa de uma moral de fracos que, n\u00e3o conseguindo vencer aos vencedores de outro modo, lhes imp\u00f5em a moral como forma de os controlarem. Esta moral configurava-se, para o autor da \u00abGaia ci\u00eancia\u00bb, como uma nega\u00e7\u00e3o da vitalidade do corpo, da pujan\u00e7a da vida, tornando o homem amorfo, como se fosse necess\u00e1rio dispensar o corpo para crer. Ora, uma tal cr\u00edtica ainda hoje pode ser oportuna e desafiadora. Quantos modelos de santidade mais parecem nega\u00e7\u00e3o do que afirma\u00e7\u00e3o de humanidade! A pr\u00f3pria arte popular deu um contributo para a validade desta cr\u00edtica ao representar santos como se n\u00e3o possu\u00edssem vontade pr\u00f3pria. Importa, por isso, compreender que a antropologia crist\u00e3 recuperou o corpo para a salva\u00e7\u00e3o. \u00c9 o homem todo, n\u00e3o uma parte de si, que se salva. Mas a cr\u00edtica deve continuar no horizonte, para que a moral social e pessoal n\u00e3o se estruturem sobre uma ideia de fuga do mundo, mas antes de assun\u00e7\u00e3o do que este tem de processo de caminho para Deus.<\/p>\n<p>Ainda que possivelmente datadas pela \u00e9poca de optimismo que definiu o s\u00e9culo XIX, estas cr\u00edticas continuam a servir de suporte a outras que mais n\u00e3o s\u00e3o do que manifesta\u00e7\u00f5es destas mais profundas. Tal continuar\u00e1 a exigir a coragem de perguntar se as nossas escolhas e as nossas raz\u00f5es dadas da f\u00e9 continuam a permitir responder afirmativamente \u00e0 pergunta: \u00abQuando o Filho do Homem voltar, encontrar\u00e1 a f\u00e9 sobre a terra?\u00bb (Lc 18, 8)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ano da F\u00e9 &#8211; Tempo oportuno ou adiado?<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-21137","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21137","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21137"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21137\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21137"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21137"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21137"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}