{"id":21186,"date":"2012-11-07T17:13:00","date_gmt":"2012-11-07T17:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21186"},"modified":"2012-11-07T17:13:00","modified_gmt":"2012-11-07T17:13:00","slug":"santa-joana-princesa-na-caridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/santa-joana-princesa-na-caridade\/","title":{"rendered":"Santa Joana, Princesa na Caridade"},"content":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria da Padroeira <!--more--> Texto da confer\u00eancia que Monsenhor Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar preferiu no Museu de Aveiro, no dia 28 de outubro, no in\u00edcio das comemora\u00e7\u00f5es dos cem anos desta institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Lisboa, na corte<\/p>\n<p>A princesa Santa Joana, filha de el-rei D. Afonso V e da rainha D. Isabel, nasceu em Lisboa no dia 06 de fevereiro de 1452, sendo logo jurada como herdeira do trono \u2013 privil\u00e9gio que o irm\u00e3o D. Jo\u00e3o, nascido em 03 de maio de 1455, inocentemente vir-lhe-ia a usurpar. \u00d3rf\u00e3 de m\u00e3e aos quatro anos de idade, pela morte da rainha em 02 de dezembro de 1455, a princesa desde logo procurou praticar a mais edificante virtude, apesar do fausto e do ambiente da corte que a rodeavam; e assim foi crescendo, acompanhada desveladamente por sua tia, D. Filipa de Lencastre, filha do infante D. Pedro, senhora de vasta erudi\u00e7\u00e3o e versada em v\u00e1rias l\u00ednguas. A circunst\u00e2ncia de ser \u00f3rf\u00e3 desde tenra idade ajudou-a a amadurecer mais rapidamente, porque a dor e a responsabilidade apressam o desenvolvimento da personalidade. Tamb\u00e9m recebeu as li\u00e7\u00f5es da leitura, da escrita e da ora\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas e em latim, ministradas pelos pedagogos frei Jo\u00e3o Rodrigues e padre dr. Vasco Tenreiro, e pelo humanista italiano Mateus de Pisa, que j\u00e1 por 1446 estava em Portugal ao servi\u00e7o do pr\u00edncipe D. Afonso (futuro rei), vindo a falecer em 1466. Teve ainda a oportunidade de ler e reler as obras correntes na \u00e9poca, algumas sa\u00eddas da pena dos seus antepassados pr\u00f3ximos, como D. Jo\u00e3o I, D. Duarte, o infante D. Pedro e D. Afonso V. Mas n\u00e3o s\u00f3. Tantas vezes recolhida no seu orat\u00f3rio particular, meditou e interiorizou muitas das p\u00e1ginas da Sagrada Escritura e refletiu sobre os conceitos da \u2018Vita Christi\u2019, manuscrito que fora redigido por Ludolfo de Sax\u00f3nia, prior da Cartuxa de Estrasburgo, falecido \u00e0 volta de 1370, e que o infante D. Pedro teria adquirido numa das suas \u2018partidas\u2019 pela Europa para oferecer a sua filha, a infanta D. Isabel (mais tarde rainha e m\u00e3e de D. Joana), que o mandou traduzir. Tamb\u00e9m teria manuseado alguma literatura sobre as vidas de santos e de her\u00f3is. A princesa, \u00e0 medida que ia prosseguindo na idade, debru\u00e7ar-se-ia ainda sobre o assaz conhecido \u2018Espelho de Cristina\u2019, vers\u00e3o portuguesa de \u2018Le Livre des Trois Vertus\u2019, escrito por volta de 1405, sendo sua autora Christine de Pisan \u2013 mulher que fez os estudos e recebeu educa\u00e7\u00e3o esmerada em Paris, na corte do rei de Fran\u00e7a, numa \u00e9poca de grande esplendor cultural e art\u00edstico. Um ap\u00f3grafo do livro, talvez trazido tamb\u00e9m pelo infante D. Pedro, chegou \u00e0s m\u00e3os da aludida sua filha, que, entre 1447 e 1455, o mandou traduzir para poder ser \u00fatil na forma\u00e7\u00e3o feminina, dentro dos limites do respeito e dos deveres morais e sociais.<\/p>\n<p>A par disto, D. Joana preocupava-se com o cumprimento das obras de miseric\u00f3rdia, ordenando que se distribu\u00edssem esmolas, vestissem pobres, visitassem presos, confortassem doentes e ajudassem desamparados, peregrinos e estrangeiros. Ela pr\u00f3pria mandava que, em quinta-feira santa, lhe trouxessem doze mulheres, \u00abas mais estrangeiras, pobres e miser\u00e1veis\u00bb, sem lhes dizerem para onde iam; por si mesma, de joelhos, seguindo o exemplo de Cristo, no segredo da sua c\u00e2mara, lavava-lhes os p\u00e9s e as m\u00e3os, os limpava e os beijava; por fim, vestia-as e dava-lhes dinheiro para alimenta\u00e7\u00e3o e cal\u00e7ado. E, antes de sair de Lisboa e deixar o pa\u00e7o, distribuiu dotes \u00e0s suas donzelas que a serviam e benesses aos seus oficiais.<\/p>\n<p>Em Aveiro, <\/p>\n<p>no mosteiro de Jesus<\/p>\n<p>No desejo de seguir o seu projeto de vida religiosa na consagra\u00e7\u00e3o a Deus, D. Joana deixou a corte e resolveu vir para a pobre vila de Aveiro, entrando no mosteiro de Jesus em 04 de agosto de 1472; contava vinte anos de idade. Depois de refletir profundamente durante algum tempo, tomou o h\u00e1bito albi-negro da Ordem de S. Domingos e iniciou o noviciado de forma\u00e7\u00e3o em 25 de janeiro de 1475.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, a princesa, como qualquer novi\u00e7a, passou a fazer vida em comum, sob a orienta\u00e7\u00e3o da mestra, madre Isabel Lu\u00eds. Conforme lho permitiam a fragilidade do organismo e a debilidade da sa\u00fade, n\u00e3o se furtava \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es do coro, \u00e0 ementa vulgar da mesa, \u00e0 maneira simples do vestu\u00e1rio e a tudo o que lhe competia. Causava admira\u00e7\u00e3o o modo como se adaptara aos diversos servi\u00e7os; coisas que nunca tinha feito nem jamais viria fazer, sa\u00edam-lhe t\u00e3o naturais como a qualquer das antigas criadas. Pela sua ordem, transportava a \u00e1gua-benta, a cruz ou os ciriais, acendia e apagava as velas, entoava os vers\u00edculos e as ant\u00edfonas, fazia as leituras do of\u00edcio, ia \u00e0 estante e registava os livros. No dia do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, esperava na claustra a sua pr\u00f3pria ocasi\u00e3o, \u00abpara ir como a mais pequena novi\u00e7a em seu grau\u00bb. No passadio, n\u00e3o aceitava \u00abiguaria\u00bb que n\u00e3o fosse para todas, nem se desgostava do menos apetitoso alimento; e \u00abn\u00e3o comeu nem bebeu mais em prata, mas malga de barro era sua humilde baixela\u00bb. Servia-se da cama conventual, sem conforto, com len\u00e7\u00f3is de sarja ou de l\u00e3; usava pe\u00e7as de vestir, ligeiras no feitio e na fazenda, que n\u00e3o a diferen\u00e7avam das outras irm\u00e3s. Aprendeu a fiar e a fazer cil\u00edcios e disciplinas e, por suas pr\u00f3prias m\u00e3os, curava chagas e feridas. Segundo o costume dos conventos femininos, \u00e0s semanas e por vez, visitava as irm\u00e3s doentes de quem carinhosamente cuidava, servia no refeit\u00f3rio e na copa, limpava o trigo, amassava o p\u00e3o e tratava da roupa. Em varrer o ch\u00e3o, assear a casa, arrumar objetos e utens\u00edlios, lavar as acomoda\u00e7\u00f5es de aves e animais, acarretar lenha, telhas e tijolos, tamb\u00e9m era uma qualquer, pois no mosteiro n\u00e3o havia ainda servas ou f\u00e2mulas. Nem se distinguia nos momentos de descanso ou de recreio, a n\u00e3o ser na alegria e na anima\u00e7\u00e3o que lhes dava. N\u00e3o lhe agradavam poss\u00edveis dispensas, por muito que a prioresa estivesse disposta a conceder-lhas, nem consentia \u00ablhe fossem feitas cerim\u00f3nias de cortesia em obras e falas\u00bb. Sempre servi\u00e7al, aconselhava e socorria as irm\u00e3s atormentadas pela ang\u00fastia ou pela d\u00favida; \u00abconhecendo em alguma religiosa n\u00e3o andar em paz com sua consci\u00eancia e trazer fadiga espiritual, por todos os modos e maneiras que podia e sabia ela dava sua alma e corpo em sacrif\u00edcio por inteiramente a remediar e consolar, cumprindo em si mesma o mandado do Salvador pondo sua alma e vida pelas do pr\u00f3ximo e amigos e por elas lan\u00e7ando l\u00e1grimas de dor e compaix\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Deixou de receber as visitas de senhores nobres, limitando-as apenas a pessoas eclesi\u00e1sticas &#8211; \u00aba saber, cardeal, arcebispos, bispos, prelados e religiosos\u00bb &#8211; que somente lhe viessem falar \u00abdas Sagradas Escrituras e coisas de Deus\u00bb. Para suprimir a designa\u00e7\u00e3o que lhe identificava o nascimento real, nem sequer queria assinar \u2018Infanta\u2019, sendo necess\u00e1rio que a prioresa lho impedisse, quer por homenagem a pais t\u00e3o excelentes e virtuosos, quer para edifica\u00e7\u00e3o das religiosas que assim recordariam a nobre condi\u00e7\u00e3o da humilde princesa. Nas tabelas dos of\u00edcios corais e dos deveres dom\u00e9sticos, aparecia o seu nome em \u00faltimo lugar, por ser a mais nova das novi\u00e7as: \u2018Irm\u00e3 Infanta Joana\u2019. \u00abN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel coisa poder-se dizer e menos crer a grande e profunda humildade, obedi\u00eancia e sujei\u00e7\u00e3o desta senhora infanta, espelho de todas as virtudes\u00bb &#8211; assim escreveu a memorialista. <\/p>\n<p>Como lia e entendia o latim, gostava de bons livros neste idioma, adquirindo uns para si e comprando outros para o mosteiro, ainda necessitado de brevi\u00e1rios capazes para o of\u00edcio coral. Sabendo que, no convento dos dominicanos de Benfica, existia um magn\u00edfico brevi\u00e1rio de estante e um diurnal, ambos escritos \u00e0 pena e em pergaminho, prop\u00f4s a sua compra aos padres, ent\u00e3o reunidos em cap\u00edtulo naquele convento; estes concordaram em vend\u00ea-los a troco de uma soma razo\u00e1vel de cruzados. D. Joana solicitou ao pai que lhe desse o dinheiro suficiente para a aquisi\u00e7\u00e3o; D. Afonso V satisfez o pedido da filha, e o mosteiro de Jesus viu-se provido daqueles livros para o coro.<\/p>\n<p>A princesa, que em Lisboa tivera estado real e governara soberanamente o seu pa\u00e7o, sentia-se agora feliz em obedecer; realizava-se e encantava-se na humildade \u2013 virtude que, n\u00e3o querendo esquecer no dia-a-dia, ambicionava praticar sempre com maior perfei\u00e7\u00e3o. Fiado por essa roca e pelas m\u00e3os delicadas de D. Joana, saiu linho para toalhas, corporais, palas e sanguinhos de altares \u2013 fruto de uma perfeita simbiose do esfor\u00e7o e do trabalho com o sil\u00eancio e a ora\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Frei Lu\u00eds de Sousa, comentando o teor de vida da filha de D. Afonso V, escreveu ser ela, na verdade, um \u00abespelho em que se deviam ver e a ele compor vidas e costumes todos os sujeitos que buscam a religi\u00e3o: os que nasceram grandes para se saberem humilhar e os pequenos para se lembrarem sempre da pobreza de seu p\u00f3 e n\u00e3o pretenderem inchar-se onde os maiores se abatem\u00bb. Desenganem-se completamente \u2013 continua o mesmo cronista dominicano \u2013 os que \u00abvindo buscar a humildade de Cristo n\u00e3o queiram sujeitar-se a todas as leis dela no trato, no vestido, na comida, na clausura, no trabalho, no abatimento!\u00bb Seria \u00abmanter no ermo os fumos da Babil\u00f3nia\u00bb; seria povoar as comunidades conventuais de \u00abprofanadores da religi\u00e3o, n\u00e3o religiosos\u00bb. Numa humanidade de rosto indiferente, frio e empobrecido, s\u00f3 no aut\u00eantico amor se encontrar\u00e1 a for\u00e7a para as solu\u00e7\u00f5es radicais e para os compromissos definitivos. Quando um homem ou uma mulher n\u00e3o forem capazes de entregar a vida por amor, n\u00e3o t\u00eam outro motivo para a entregar. A quest\u00e3o ser\u00e1 ter coragem de amar sem medo, Santa Joana foi desta t\u00eampera.<\/p>\n<p>Protetora dos aveirenses<\/p>\n<p>Embora obrigada a suspender o noviciado por motivo de sa\u00fade e por conselho de m\u00e9dicos e confessores, Santa Joana continuou a viver no recolhimento do mosteiro; mas, como se habituara por forma\u00e7\u00e3o desde a inf\u00e2ncia, a princesa prosseguiu em m\u00faltiplas a\u00e7\u00f5es de bem-fazer. Eram os aux\u00edlios materiais e espirituais; eram as palavras de pacifica\u00e7\u00e3o e consola\u00e7\u00e3o; eram as orienta\u00e7\u00f5es em d\u00favidas inquietantes e em lutas interiores; eram as visitas de conforto \u00e0s irm\u00e3s doentes; eram as admoesta\u00e7\u00f5es pela mudan\u00e7a de vida de quem, na vila de Aveiro, vivia desonestamente; eram as li\u00e7\u00f5es de catequese crist\u00e3 aos mouros, escravos e escravas, que el-rei, seu pai, lhe enviava e que, uma fez instru\u00eddos na f\u00e9 cat\u00f3lica, ela forrava, defendia e fazia felizes, casando-os e n\u00e3o esquecendo os pr\u00f3prios filhos destes. <\/p>\n<p>Todavia, se D. Joana se interessou pelo mosteiro e pelas religiosas dominicanas \u2013 a que chamava a sua \u2018Lisboa, a pequena\u2019 \u2013 tamb\u00e9m foi alma aberta \u00e0s gentes e \u00e0s coisas da vila de ent\u00e3o, cujos habitantes considerava como entregues aos seus cuidados, especialmente os mais necessitados. Neste cap\u00edtulo, sabe-se que ela, em 28 de abril de 1483, escreveu aos vereadores da C\u00e2mara Municipal de Coimbra, rogando que retomassem o carpinteiro Jo\u00e3o Fernandes no of\u00edcio de aferidor de medidas, para que o pobre homem usufru\u00edsse do ordenado de que carecia. E agradeceu como feito a si pr\u00f3pria o favor de o reconduzirem no emprego.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em 28 de julho do mesmo ano, a pedido dos interessados, aceitou por contrato o senhorio de Britiande, V\u00e1rzea da Serra, Mezio e Campo Benfeito, a sul de Lamego, para guardar os privil\u00e9gios, liberdades, foros, usos e bons costumes dessas terras serranas da Beira-Alta \u2013 o que foi ratificado por el-rei, seu irm\u00e3o. <\/p>\n<p>Sob outro aspeto, a sua a\u00e7\u00e3o em defesa de Aveiro ficou bem demonstrada na resolu\u00e7\u00e3o do caso ocorrido em 1487, quando, em tempo de peste, os campos estavam abandonados, escasseava o p\u00e3o e rareavam os mantimentos. A C\u00e2mara Municipal aparelhara com carga o navio \u2018Cadramoz\u2019 para seguir com destino \u00e0 ilha da Madeira, o qual voltaria com um carregamento de trigo. Chegando, por\u00e9m, ao litoral aveirense, o mestre Pero de Lemos n\u00e3o p\u00f4de entrar na ria e viu-se coagido a rumar para a foz do Douro; os portuenses, ao darem com aquele inesperado e apetecido tesouro, apreenderam o navio e a carga. Dado o alarme para Aveiro, os ju\u00edzes, vereadores, procurador e homens bons da vila acorreram a D. Joana, tornada sua conterr\u00e2nea e amiga, a fim de ela intervir favoravelmente junto do Senado da cidade do Porto. Efetivamente, a sol\u00edcita princesa escreveu em 04 de outubro, por inter-m\u00e9dio de \u00c1lvaro Lu\u00eds, \u00e0s autoridades nortenhas, fazendo-lhes ver que a arribada do navio fora for\u00e7ada e que o seu carregamento pertencia a Aveiro; \u00abeu vos rogo muito e vos encomendo \u2013 lia-se na carta \u2013 que deixeis vir o dito navio com seu p\u00e3o para a minha dita vila [&#8230;], em o que sede certos em que, se fizerdes em maneira que por isso n\u00e3o recebam agravo, me fareis prazer e servi\u00e7o e vo-lo agradecerei muito\u00bb. Dada a categoria da suplicante, decerto que a dilig\u00eancia alcan\u00e7ou o resultado previsto.<\/p>\n<p>Na verdade, sempre desprendida dos bens temporais e amiga da virtude da pobreza, D. Joana deu um singular exemplo de pessoa interessada pelo bem de todos. Acerca da sua faceta de bem-fazer, conclui-se pelo testemunho do humanista Cataldo Par\u00edsio S\u00edculo, que a princesa era de uma generosidade extrema, sen\u00e3o mesmo algo ing\u00e9nua, sendo dadivosa para com todos sem exce\u00e7\u00e3o, n\u00e3o distinguindo dos pobres verdadeiros os que eram viciosos e falsos pedintes; entre estes, o referido autor enumerou \u2018peregrinos\u2019 que nunca tinham ido a Roma, a Jerusal\u00e9m ou a Compostela, \u2018n\u00e1ufragos\u2019 que nunca tinham andado sobre as ondas do mar, \u2018estudantes\u2019 que nunca tinham frequentado qualquer escola, \u2018frades\u2019 que nunca tinham estado em nenhum convento, \u2018aleijados\u2019 de boa sa\u00fade, criminosos da mais variada esp\u00e9cie&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 muito doente e quase sem for\u00e7as, Santa Joana, que nem sequer era novi\u00e7a, sentava-se ao lado da estante do coro durante o canto das ora\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas, e era um esteio seguro para a irm\u00e3 titubeante na voz e na melodia. Se era dotada e adquirira forma\u00e7\u00e3o humanista, entendia ser seu dever ajudar na caridade, mesmo nessas circunst\u00e2ncias. E, nas derradeiras horas da sua vida, foi pedindo que n\u00e3o se afligissem por ela, mas que todas estivessem \u00abalegres umas com as outras em Deus\u00bb &#8211; repetia, afirmando que ia para o muito bom Senhor, junto de quem se lembraria de todas. Pensava sobretudo nas outras pessoas\u2026 at\u00e9 \u00e0 suprema hora da morte!&#8230;<\/p>\n<p>Este momento chegou na madrugada do dia de 12 de maio de 1490; contava trinta e oito anos e tr\u00eas meses de idade, dezoito dos quais vividos em Aveiro.<\/p>\n<p>Os sinos, no convento e na vila, n\u00e3o paravam de dobrar plangentemente a finados. A gente de Aveiro acordara sobressaltada, mas pressentia o motivo. De casa em casa, a consterna\u00e7\u00e3o era geral; morrera a protetora dos aveirenses, a m\u00e3e dos pobres, dos \u00f3rf\u00e3os e das vi\u00favas. Iriam sentir a falta aqueles que careciam de p\u00e3o na improvisada mesa familiar, n\u00e3o possu\u00edam habita\u00e7\u00e3o ou roupa, sa\u00fade ou trabalho, haviam perdido o sentido da vida e a companhia de uma verdadeira amiga, se viam sem amor, alegria e esperan\u00e7a; os pobres iriam ser ainda mais pobres, sem aquela que com eles partilhava a dor e a solid\u00e3o. E as religiosas do mosteiro? Causava-lhes profunda dor s\u00f3 o pensar que j\u00e1 n\u00e3o tinham consigo aquela que, a cada uma, \u00abconsolava, alegrava, aconselhava e agasalhava\u00bb; que j\u00e1 n\u00e3o tinham a quem ir quando, cansadas, procuravam algum repouso, algum conselho ou esclarecimento.<\/p>\n<p>Mem\u00f3ria agradecida<\/p>\n<p>Acabadas as ex\u00e9quias pela defunta, todos se retiraram em sil\u00eancio pesado e compungido. Mas nem todos\u2026 porque, na igreja, continuava grande parte da assist\u00eancia, \u00abdando vozes de muita mis\u00e9ria e dor; e cada um, tanto mais quanto conhecia e sentia a sua dor e orfandade e desamparo ser maior\u00bb. A romaria, em volta da sepultura, que ent\u00e3o come\u00e7ara, iria continuar\u2026 e ainda hoje perdura. Ent\u00e3o era de luto e de dor; hoje \u00e9 de mem\u00f3ria agradecida e de culto piedoso. Beatificada pelo papa Inoc\u00eancio XII em 04 de abril de 1693, tumulada em precioso mausol\u00e9u marm\u00f3reo em 23 de outubro de 1711, invocada como protetora de Aveiro a partir da sua morte e reconhecida oficialmente como nossa padroeira pelo papa Paulo VI em 05 de janeiro de 1965, a princesa Santa Joana \u00e9 uma personagem marcante da era quatrocentista na hist\u00f3ria de Portugal e, particularmente para n\u00f3s, uma personagem singular na hist\u00f3ria de Aveiro.<\/p>\n<p>Para as gentes crist\u00e3s da Beira-Ria, no meio de quem a princesa viveu, as suas rel\u00edquias venerandas n\u00e3o podem ser \u2013 nem s\u00e3o \u2013 apenas um mero objeto de museu; consideram-se, sobretudo, como termo de piedosas peregrina\u00e7\u00f5es e rodeiam-se com o incenso de religioso amor e com o murm\u00fario de profunda prece. \u00c9 que as personagens eminentes do passado ser\u00e3o tanto mais v\u00e1lidas no presente, quanto mais a sua mem\u00f3ria inesquec\u00edvel e o seu testemunho extraordin\u00e1rio se tornarem patentes na vida de todos os dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria da Padroeira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-21186","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21186","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21186"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21186\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}