{"id":21212,"date":"2012-11-07T16:51:00","date_gmt":"2012-11-07T16:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21212"},"modified":"2012-11-07T16:51:00","modified_gmt":"2012-11-07T16:51:00","slug":"daniel-rodrigues-jornalista-que-pensava-com-o-coracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/daniel-rodrigues-jornalista-que-pensava-com-o-coracao\/","title":{"rendered":"Daniel Rodrigues, jornalista que pensava com o cora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Aveirenses Not\u00e1veis <!--more--> No pr\u00f3ximo dia 29 de novembro completam-se dois anos sobre a morte de Daniel Rodrigues, o primeiro jornalista profissional de Aveiro e um dos primeiros di\u00e1conos permanentes desta Diocese. Textos de Cardoso Ferreira.<\/p>\n<p>Em 1931, na pequena aldeia de Ariz, bem pr\u00f3ximo da nascente do rio Vouga, nas serranias da Lapa que Aquilino Ribeiro imortalizou como \u201cTerras do Demo\u201d, nasceu Daniel Rodrigues, que morreu no dia 29 de novembro de 2010, na cidade de Aveiro, junto \u00e0 foz desse mesmo rio Vouga, nas margens da ria de Aveiro que, como mais ningu\u00e9m, ele imortalizou nas p\u00e1ginas do \u201cseu\u201d \u201cO Com\u00e9rcio do Porto\u201d.<\/p>\n<p>Terminou a quarta classe com 13 anos de idade, porque a escola esteve tr\u00eas anos sem professor, e s\u00f3 n\u00e3o fechou porque seu pai, que era presidente da junta de freguesia, \u201clutou imenso para evitar isso\u201d, confidenciou Daniel Rodrigues numa entrevista que lhe fiz, em dezembro de 2006. Poucos anos volvidos, ainda em Ariz, assumiu um primeiro trabalho volunt\u00e1rio, dos tantos que o caracterizaram. \u201cFundei uma escola para adultos, em que dei aulas \u00e0 noite a muitos que n\u00e3o puderam andar na escola\u201d, relatou.<\/p>\n<p>Foi ainda na sua aldeia natal, nos tempos da juventude, que Daniel Rodrigues come\u00e7ou a colaborar com a imprensa como correspondente do jornal \u201cS\u00e9culo\u201d. Aos 23 anos de idade, deixa Ariz para cumprir o servi\u00e7o militar em Lisboa. Da\u00ed, seguiu para o Alentejo, tendo conseguido entrar no Semin\u00e1rio de Beja. No entanto, \u201cchegou uma altura em que eu pr\u00f3prio reconheci que a minha miss\u00e3o n\u00e3o seria o semin\u00e1rio, e acabei por sair\u201d, confidenciou, optando por seguir uma carreira na \u00e1rea da justi\u00e7a. Primeiro, estagiou no Tribunal de S. Jo\u00e3o da Madeira. Depois, concorreu para o Tribunal de Aveiro.<\/p>\n<p>Jornalismo <\/p>\n<p>a tempo inteiro<\/p>\n<p>No Tribunal de Aveiro, Daniel Rodrigues tinha a possibilidade de estar a par de \u201ctodas as not\u00edcias que diziam respeito a pris\u00f5es, pol\u00edcia e justi\u00e7a. \u201cA primeira not\u00edcia que mandei foi para o \u2018Di\u00e1rio de Coimbra\u2019, sobre um c\u00e9lebre assalto ocorrido em Aveiro\u201d. A partir da\u00ed, o di\u00e1rio conimbricense convidou-o a escrever uma p\u00e1gina por dia, pagando-lhe cem escudos por m\u00eas.<\/p>\n<p>Nesses primeiros tempos, referiu na citada entrevista, o jornalista escrevia os textos \u00e0 m\u00e3o. \u201cMais tarde, passei a escrev\u00ea-los \u00e0 m\u00e1quina na casa do Padre Messias. Ia de bicicleta levar os textos \u00e0 esta\u00e7\u00e3o, para eles seguirem de comboio para Coimbra\u201d. <\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1960, a regi\u00e3o de Aveiro teve um grande incremento econ\u00f3mico e social, pelo que os ditos jornais nacionais passaram a interessar-se por Aveiro, como aconteceu com o \u201cDi\u00e1rio Popular\u201d (de Lisboa), que tamb\u00e9m solicitou a colabora\u00e7\u00e3o de Daniel Rodrigues. Pouco depois, foi a vez de \u201cO Com\u00e9rcio do Porto\u201d (do Porto) contratar o seu servi\u00e7o, passando a colaborar com esses dois jornais.<\/p>\n<p>Quando, em finais da d\u00e9cada de 1960, o jornal \u201cO Com\u00e9rcio do Porto\u201d pretendeu abrir a sua primeira delega\u00e7\u00e3o fora da cidade do Porto, a cidade de Aveiro foi a escolhida, sendo Daniel Rodrigues convidado para chefiar essa delega\u00e7\u00e3o, a primeira de um grande jornal em Aveiro. Foi a partir da\u00ed que Daniel Rodrigues passou a ser o primeiro jornalista profissional e sindicalizado em Aveiro.<\/p>\n<p>Na abertura da delega\u00e7\u00e3o, Daniel Rodrigues contou com o apoio de Jo\u00e3o Sarabando e de M\u00e1rio Sacramento, dois nomes importantes do meio intelectual aveirense, e tamb\u00e9m da oposi\u00e7\u00e3o de ent\u00e3o, pelo que pode fazer uma boa cobertura dos Congressos da Oposi\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica, que em 1957, 1969 e 1973 trouxeram a Aveiro a elite da oposi\u00e7\u00e3o ao Estado Novo.<\/p>\n<p>Reportagens <\/p>\n<p>em prol da comunidade<\/p>\n<p>Como jornalista, Daniel Rodrigues foi um lutador por causas, sempre em prol da comunidade, como exemplificou na citada entrevista: \u201cA \u2018cruzada\u2019 pela eleva\u00e7\u00e3o a vila da Gafanha da Nazar\u00e9 contou com a ajuda importante do Fernando Martins, mas pode-se dizer que essa eleva\u00e7\u00e3o se deve \u00e0 luta travada pela delega\u00e7\u00e3o de Aveiro de \u2018O Com\u00e9rcio do Porto\u2019. Tamb\u00e9m as eleva\u00e7\u00f5es de Avanca a vila e de Espinho a cidade se devem, em parte, \u00e0 a\u00e7\u00e3o desenvolvida pela delega\u00e7\u00e3o de Aveiro de \u2018O Com\u00e9rcio do Porto\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Ainda antes do 25 de Abril de 1974, ficaram c\u00e9lebres as reportagens intituladas \u201cDo Bu\u00e7aco ao Douro\u201d, em que Daniel Rodrigues percorreu todo o distrito de Aveiro, com destaque para as terras de Arouca e da Serra da Freita, bem como as reportagens em defesa da linha ferrovi\u00e1ria do Vouga, que deram origem ao livro \u201cVouga Arriba\u2026 ou o drama de um povo\u201d. O impacto destas \u00faltimas foi de tal modo elevado, que originaram a reativa\u00e7\u00e3o daquela linha, ainda que por poucos anos, no tro\u00e7o \u00c1gueda-Viseu.<\/p>\n<p>No \u201cVer\u00e3o Quente\u201d de 1974 \/ 1975, Daniel Rodrigues foi um dos jornalistas que mais se bateu pela manuten\u00e7\u00e3o da liberdade de express\u00e3o e contra as diretrizes comunistas nos jornais.  <\/p>\n<p>Anos volvidos, Daniel Rodrigues e a delega\u00e7\u00e3o de Aveiro de \u201cO Com\u00e9rcio do Porto\u201d encetaram mais uma \u201cluta\u201d, dessa vez em prol da constru\u00e7\u00e3o de uma via r\u00e1pida que ligasse Aveiro a Vilar Formoso, o que veio a acontecer com o IP5 (que depois deu origem \u00e0 atual A25).<\/p>\n<p>Trabalhos <\/p>\n<p>nos cinco continentes<\/p>\n<p>Daniel Rodrigues fez reportagens nos cinco continentes. Os trabalhos feitos na Am\u00e9rica do Sul foram os que mais o marcaram, como sublinhou: \u201cNo Chile fiz reportagem sob vigil\u00e2ncia policial, no tempo do Pinochet. L\u00e1, atrav\u00e9s da Igreja, consegui falar com vi\u00favas, m\u00e3es e filhas de gente que desapareceu sob a ditadura. A vida dessa gente impressionou-me e levou-me a fazer reportagens mais de \u00edndole social, o que me ajudou a despertar a minha voca\u00e7\u00e3o para o diaconado\u201d. No Brasil, fez reportagens nas favelas, enquanto  na Venezuela reportou a vida nos imensos bairros de lata que circundam Caracas. Andou ainda na Col\u00f4mbia e na Argentina.<\/p>\n<p>Mais tarde, voltou \u00e0quele subcontinente para acompanhar a primeira viagem do Papa Jo\u00e3o Paulo II a Cuba, viagem que o marcou profundamente pelos \u201cmomentos espetaculares demonstrados pelo Papa Jo\u00e3o Paulo II\u201d.<\/p>\n<p>A sua primeira viagem em servi\u00e7o ao estrangeiro foi, contudo, ao Barheim, no M\u00e9dio Oriente. Ainda na \u00c1sia, esteve no Jap\u00e3o e na Tail\u00e2ndia. Em \u00c1frica, esteve em trabalho em Angola, Mo\u00e7ambique, \u00c1frica do Sul, Guin\u00e9, Cabo Verde e Marrocos.<\/p>\n<p>Na Europa, marcaram-no as reportagens que efetuou na antiga Jugosl\u00e1via, ainda antes da queda dos regimes comunistas, e no Vaticano, onde esteve por duas vezes. Numa dessas idas ao Vaticano, na confer\u00eancia no final do S\u00ednodo dos Bispos, Daniel Rodrigues estranhou a aus\u00eancia do Papa e, por isso, escreveu ao Vaticano a mostrar \u201cestranheza\u201d por tal facto. \u201cPassado uns dias, recebi uma carta, assinada pelo Cardeal Sodano, em que concordava comigo e a pedir mais sugest\u00f5es, carta que trazia uma b\u00ean\u00e7\u00e3o especial do Papa para mim e para a minha fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p>Homem de fam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>Para Daniel Rodrigues a fam\u00edlia era o seu ref\u00fagio e a sua raz\u00e3o de ser, como ele deu a entender nas muitas conversas que manteve connosco enquanto saboreava uma \u201cbica\u201d na \u201cVeneza\u201d, por baixo da delega\u00e7\u00e3o de \u201cO Com\u00e9rcio de Aveiro\u201d, ou, j\u00e1 mais tarde, no \u201cMerendeiro\u201d, mais pr\u00f3ximo da reda\u00e7\u00e3o do \u201cCorreio do Vouga\u201d.<\/p>\n<p>Daniel Rodrigues valorizava imenso o trabalho dos filhos (e tamb\u00e9m dos amigos) e, por esse motivo, aprendi um pouco mais sobre paleontologia e dinossauros, porque me agu\u00e7ou a curiosidade em conhecer o trabalho do seu filho Lu\u00eds Azevedo, um estudioso desses espantosos animais pr\u00e9-hist\u00f3ricos. Ainda hoje recordo o orgulho que sentiu quando o Lu\u00eds Azevedo Rodrigues fez o doutoramento em Espanha, orgulho rec\u00edproco, como se pode ver na dedicat\u00f3ria que o filho escreveu na sua tese: \u201cPai \u2013 possui o dom mais importante: pensa com o cora\u00e7\u00e3o. E de quem recebi o gosto de escrever\u201d.<\/p>\n<p>&#8230;e um dos primeiros di\u00e1conos permanentes<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das reportagens feitas no terreno, \u201csujando os sapatos na lama\u201d e \u201colhos nos olhos\u201d com os entrevistados, como gostava de real\u00e7ar, Daniel Rodrigues foi tamb\u00e9m um cronista em defesa dos direitos humanos e um cat\u00f3lico empenhado no seu tempo e na sua comunidade, tendo sido diretor-adjunto do jornal \u201cCorreio do Vouga\u201d.<\/p>\n<p>Daniel Rodrigues integrou o primeiro grupo de homens ordenados di\u00e1conos permanentes na Diocese de Aveiro, numa cerim\u00f3nia realizada no dia 22 de maio de 1988, na Catedral de Aveiro. Como di\u00e1cono, Daniel Rodrigues colaborou na par\u00f3quia da Gl\u00f3ria (Aveiro) e foi coordenador do Secretariado da Pastoral dos Ciganos e Minorias \u00c9tnicas da Diocese de Aveiro e vogal do Conselho Fiscal da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos tamb\u00e9m colaborou na pastoral penitenci\u00e1ria.   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aveirenses Not\u00e1veis<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-21212","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21212","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21212"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21212\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}