{"id":21280,"date":"2012-11-28T16:15:00","date_gmt":"2012-11-28T16:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=21280"},"modified":"2012-11-28T16:15:00","modified_gmt":"2012-11-28T16:15:00","slug":"combinado-ca-te-esperamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/combinado-ca-te-esperamos\/","title":{"rendered":"Combinado, c\u00e1 te esperamos"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Mas n\u00e3o tragas contigo as tempestades e ang\u00fastias de que fala o teu evangelista Lucas. E se tu disseste que o templo de Jerusal\u00e9m, a pr\u00f3pria cidade e o mundo inteiro est\u00e3o sujeitos \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi para sublinhar que as velhas cren\u00e7as e as constru\u00e7\u00f5es humanas n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o duram como n\u00e3o devem durar eternamente? Tal como as roupas, bebidas e projectos ambientais se t\u00eam de renovar \u2013 para darem lugar a um figurino mais atraente, a sabores mais requintados, a cidades mais humanas\u2026 e que ningu\u00e9m prefira dormir \u00ab\u00e0 mexicana\u00bb \u00e0 sombra de um muro velho. Traz, sim, aquela roupa que te fica t\u00e3o bem e n\u00e3o esque\u00e7as as garrafitas da tua melhor colheita (a crer nos teus amigos Lucas (7,34) e Mateus (11,19), n\u00e3o \u00e9 verdade que te acusaram de seres \u00abum bom copo e um bom garfo\u00bb? E ao ver-te, todos se lembrar\u00e3o do velho profeta Jeremias (1.\u00aa leitura, embora o texto referido seja obra de um disc\u00edpulo): porque \u00e9 a tua alegria contagiosa que nos incita a guardar a justi\u00e7a!<\/p>\n<p>Mas por que \u00e9 que Lucas havia de referir coisas t\u00e3o tenebrosas? Fala delas no final do teu minist\u00e9rio (n\u00e3o confundas com os nossos \u00abminist\u00e9rios\u00bb!) em Jerusal\u00e9m, mesmo antes do relato da Paix\u00e3o. \u00c9 verdade que estava na moda imaginar e discutir os sinais espantosos que acompanhariam o fim do mundo e a vinda de um salvador definitivo que tamb\u00e9m seria juiz implac\u00e1vel \u2013 ali\u00e1s, a nossa \u00abIdade M\u00e9dia\u00bb bem que viveu a ideia de um Deus terr\u00edvel, que nos castiga com as doen\u00e7as, flagelos naturais, guerras e persegui\u00e7\u00f5es\u2026 (e os quadros de muitos artistas c\u00e9lebres, como os de Jer\u00f3nimo Bosch, cerca de 1500, ainda nos deixam arrepiados). E hoje, como sabes, h\u00e1 quem veja em textos do g\u00e9nero a predi\u00e7\u00e3o de cat\u00e1strofes originadas pela nossa falta de ju\u00edzo e de coragem para tomar decis\u00f5es acertadas.<\/p>\n<p>No ano lit\u00fargico, que gira \u00e0 volta da tua morte e \u00abressurrei\u00e7\u00e3o\u00bb (as aspas indicam que n\u00e3o conseguimos entender bem o que isso \u00e9), as descri\u00e7\u00f5es apocal\u00edpticas aparecem no princ\u00edpio (1.\u00ba domingo do teu Advento) e nos \u00faltimos domingos do Tempo Comum. Com fantasias t\u00e3o impressionantes, esses textos lembram que a vida \u00e9 dom de Deus, que o mundo \u00e9 dom de Deus e que a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 dom de Deus. Mas que o encontro com Deus \u00e9 sempre um drama, at\u00e9 porque Ele \u00abatrapalha\u00bb as nossas bitolas de valoriza\u00e7\u00e3o e o nosso \u00e2ngulo de vis\u00e3o. Os profetas s\u00e3o bom exemplo deste conflito entre \u00abo plano de Deus\u00bb e os planos dos poderes pol\u00edticos, econ\u00f3micos e tamb\u00e9m religiosos. E as tuas \u00abbem-aventuran\u00e7as\u00bb nunca deixam de nos \u00abatrapalhar\u00bb\u2026! \u00c9 que a influ\u00eancia de Deus \u00e9 \u00absubversiva\u00bb da ordem pobremente humana, e as pr\u00f3prias convuls\u00f5es do universo representam a transcend\u00eancia de Deus e a inconsist\u00eancia do mundo, que n\u00e3o tem sentido sem o permanente encontro com Deus. Tu vens lembrar isso e selaste a mensagem com a tua morte.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que a festa do teu nascimento \u00e9 enquadrada no cen\u00e1rio dram\u00e1tico da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o ficaste muito bem retratado nas hist\u00f3rias e imagens de ti quando menino. Como n\u00e3o deixaste relat\u00f3rios, inventou-se muita coisa (mas olha que os relat\u00f3rios actuais n\u00e3o s\u00e3o mais fi\u00e1veis\u2026 dizem s\u00f3 o que conv\u00e9m e \u00abpara quem conv\u00e9m\u00bb\u2026). Uma coisa \u00e9 certa: a comemora\u00e7\u00e3o do teu nascimento lembra que \u00e9s um dos nossos, fraquinho, dependente e com um grande ponto de interroga\u00e7\u00e3o quanto ao futuro. Lembras o velho Sime\u00e3o, que te pegou ao colo ainda rec\u00e9m-nascido? Ouve como o contou o teu fiel amigo Lucas (2,29-35): \u00abEste menino est\u00e1 aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradi\u00e7\u00e3o\u00bb. Mas que grande interroga\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Por isso, pelos tempos fora, n\u00e3o cessamos de perguntar quem tu \u00e9s.<\/p>\n<p>O teu nascimento deu-se discretamente, apesar das curiosas hist\u00f3rias de Mateus e Lucas. D\u00e1s a impress\u00e3o de te quereres \u201cmeter connosco\u201d de mansinho, para n\u00e3o nos assustar. N\u00e3o h\u00e1 nuvens nem imagens apocal\u00edpticas. Todos os olhos podem ver com alegria tranquila um menino a nascer. <\/p>\n<p>Mas como tu alinhastes perfeitamente com o Deus que parece \u00abatrapalhar\u00bb a nossa vida, n\u00e3o te admires se por vezes preferirmos que fiques na rua e nos deixes sossegado. Contudo, ningu\u00e9m te pode negar a melhor das inten\u00e7\u00f5es. Por isso, j\u00e1 que insistes, fica combinado. Aparece quando quiseres. C\u00e1 te esperamos. <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt<\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-21280","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21280","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21280"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21280\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21280"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21280"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21280"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}